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domingo, 20 de setembro de 2026

O nosso António-Pedro

Às moscas
As salas de cinema estão às moscas - dizem. Realmente a limpeza já não é o que era.

Uma vez, há uns bons catorze anos, manifestei a minha mais simplória estranheza derivada ao facto de o Município de Fafe, a minha terra, ter perfilhado o cineasta portuense Manoel de Oliveira (1908-2015) e até lhe ter dado de prenda uma bonita sala de cinema, isto é, ter dado o nome de Manoel de Oliveira à Sala Manoel de Oliveira do Teatro-Cinema de Fafe, ainda o homem era vivo. Não percebi de onde é que se desencravou a extraordinária ideia, a eventual razão da coisa, que relação haveria ali, e até escrevi na altura: "ainda me hei-de rir quando (e se) conseguir perceber porquê".
Mas ainda não percebi. Resultado: estou há catorze anos sem me rir, é preciso ter azar, e tanta seriedade já me faz diferença, começo a ficar com cara de pau, uma cara talvez como a do nosso bom Zé Carlos Estantio, mas ao contrário.
Por outro lado. O cineasta António-Pedro Vasconcelos (1939-2024) nasceu em Leiria e viveu geralmente em Lisboa, mas vinha amiúde e em miúdo a Fafe, "onde tinha e tem família", segundo li e ouvi na FafeTV. Em 2015, homenageado na quinta edição do Fafe Film Fest, o realizador de "O Lugar do Morto", o cineasta que acreditava no grande público e queria que as pessoas vissem cinema, o autor de muitos êxitos de bilheteira e de algumas obras-primas, fez questão de dizer esta coisa linda: "Nasci, acidentalmente, em Leiria, mas considero-me um homem do Norte e, em particular, de Fafe, terra onde vivi parte da minha infância".
Perante tamanho confessamento de fafismo, que eu, verdade seja dita, por acaso até desconhecia, a benemerente Câmara de Fafe, se deu ao outro uma sala, ao outro que não nos pertence, que não nos é nada, a este, ao António-Pedro, que se reclamava nosso, assim na boa, e por isso é efectivamente nosso, com todo o direito, tem de dar pelo menos um salão. Isso, um salão, nem que seja ao ar livre. Até estou a ver, com luzinhas e estrelinhas a acender e a apagar, no meio do Largo, música de John Williams, ou do Rodrigo Leão, tanto me faz, não sou esquisito, passadeira vermelha e enormes holofotes à Hollywood apontando ao céu, como se chamassem pelo Batman ou pelo Custódio Ardegão: "Salão António-Pedro Vasconcelos"...
Ou então que mandem o António-Pedro para a bicha, como fizeram com o escritor também nosso João Ubaldo Ribeiro.

E, já agora, com esta termino: a sala de cinema do Teatro-Cinema de Fafe devia chamar-se, por exemplo, Sala Dona Laura Summavielle. Mas, para saber disto, se calhar era preciso ser-se de Fafe desde pequenino...

sábado, 27 de dezembro de 2025

Sou fafense, disse Ubaldo

Os mortos vivos
Diz-me o meu amigo: "Eh pá, que tétrico, só publicas textos de escritores mortos". "Mas mortos vivos", digo eu. É o que está a dar, não é?

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) nasceu na Baía, mas optou-se carioca. Autor de obras emblemáticos da língua portuguesa como "Sargento Getúlio", "Viva o Povo Brasileiro", "O Sorriso do Lagarto" e "A Casa dos Budas Ditosos", entre outros tantos títulos igualmente notáveis, venceu o Prémio Camões 2008. O seu avô paterno era natural de Fafe, e Ubaldo considerava-se dos nossos. É, para todos os efeitos, um fafense excelentíssimo. "[Fafe] é efectivamente minha terra, pois terra dos meus ancestrais paternos, [uma terra] da qual, de certa forma, nunca saí", afirmou um dia o famoso escritor brasileiro. E eu, à pala, enchi-me de orgulho, de fafismo, esbordei de vaidade. Não terei sido o único.
A esse respeito. Em 2008, no foguetório pós-Prémio Camões, a Câmara de Fafe, então presidida pelo então socialista José Ribeiro, tantas voltas dá o mundo, prometeu "futuramente" uma rua ao nome de João Ubaldo Ribeiro e ao próprio, que teve a amabilidade e a imprudência de agradecer antecipadamente o rapapé a haver. Sinceramente, não sei se a autarquia fafense já cumpriu a promessa, passados estes anos todos, e Ubaldo entretanto morreu. Isto é, eu procurei a rua e não a encontrei. Cadê? Procurei rua, avenida, praça, praceta, alameda, travessa, viela, bairro, urbanização, rotunda, campo, jardim e até sala e auditório, mas nada! Melhor dizendo, encontrei realmente a Rua João Ubaldo Ribeiro, aliás duas ruas João Ubaldo Ribeiro, mas no Brasil, uma em Aracaju, capital do estado de Sergipe, e a outra no município de Uberlândia, interior de Minas Gerais, e talvez até haja mais, mas tão longe, do outro lado do Atlântico, com a confusão que vai nos nossos aeroportos, não me dão jeito nenhum. Estarei a procurar mal? Alguém me pode ajudar? A rua estará mesmo à minha frente, em Fafe, ao virar da esquina, e eu não a vejo?
Se houver quem saiba, que me diga, por favor. Às tantas, o "futuramente" do bom Dr. Ribeiro, que também é poeta, até já chegou e eu, por falta de comparência, é que ainda não dei fé...