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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Eram outros carnavais

A bondade em pessoa
Enviou mensagem à lista completa de contactos. "Um santo Carnaval, para si e toda a família, associados e simpatizantes", fez votos. E agradeceu a Deus por Deus o ter feito tão boa pessoa.

Na minha terra, naquele tempo, festividades assim familiares e praticamente religiosas como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Exigiam pompa e circunstância. Em Fafe, pelo Carnaval, a grande tradição eram, se me dão licença, os peidos-engarrafados lançados no Cinema. Uma lixeira de confetes e serpentinas, alguns pares de estalos, encontrões, apalpões, ameaças e correrias tolas, mas sobretudo peidos-engarrafados, um fedor que não se podia, mas uma grande risota. Quer-se dizer: peidos-engarrafados e pimenta. Exactamente, pimenta culinária sacudida dos camarotes para a plateia, que se desmanchava em espirros e gritos histéricos de "filhos da puta!" apontados para cima, com manguitos, piretes e destrambelhadas ameaças de morte. Enquanto isso, o filme. De preferência uma coboiada, com muitos tiros e estrondosas cavalgadas, mas normalmente não, porque o "programador" tinha uma ideia morcona de divertimento e folia, em nome de Deus, Pátria e Família, às tantas ainda nos ferrava com o "Marcelino Pão e Vinho", a ver se aprendíamos. Anos sessenta e setenta do século passado - Portugal era assim, regra geral. Cinzentinho, cinzentinho, mais choro do que riso. Um país a bem da Nação.
Durante o resto do ano, no Cinema, só eram permitidos peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria, e para além disso tínhamos o Moisés, que a esse respeito, quero dizer, quanto a bufas, então é que nem se fala! Estávamos realmente muito bem servidos. Eram peidos especulativos, subversivos, os nossos, contra o governo, que nos alimentava a couves e, se queríamos, tínhamos de as comprar, porque nem os ricos as davam - vendiam-nas como se precisassem ou preferiam deitá-las aos porcos, que infelizmente não éramos nós, os pobres, no caso em apreço.

No nosso Carnaval havia corso pelas ruas do centro da vila. E o rei momo era o Tónio da Legião, bonacheirão, afavelmente decilitrado, com coroa, manto e barbas a condizer, e só podia mesmo ser ele, no trono, lá do alto do carro alegórico, palácio ou castelo, olhando de lado para o mundo. Não me lembro se lhe deram rainha. O Tónio da Legião tinha uma queda tremenda para a amizade e para a cozinha, mas isso não vem hoje ao caso. E o Aristides Carteiro, que era um senhor e praticava humorismo nas horas vagas, abria o cortejo mascarado de ciclista, realmente um disfarce à altura do seu insuspeito porte atlético.

Pelo Entrudo, em Fafe, queimava-se o Pai das Orelheiras, velha tradição popular, de afirmação de rua. No nosso Santo Velho nós fazíamos a fogueira e queimávamos o figurão. Era o ponto alto do dia, que por acaso era à noite. As nossas mães diziam-nos para não brincarmos com o fogo, porque senão, quando fôssemos dormir, iríamos mijar na cama. Nós brincávamos na mesma, e ao entrarmos em casa, para dormir, levávamos logo o ensaio do costume, mesmo antes de se saber se mijávamos ou não, e eu achava isso muito injusto e provavelmente ilegal.
Não me vou armar em Freud, mas naquele dia elas vestiam-se deles e eles vestiam-se delas. Era uma ocasião muito esperada. Uma oportunidade. Adultos, casados e afins, saíam para a rua aos pares com as roupas ao contrário e as caras tapadas com caretas de papelão compradas no Rates, que tinha tudo mesmo antes de terem sido inventadas as lojas que têm tudo, farmácias à parte e, hoje em dia, os talhos. Assim disfarçados e de boca calada, os pares de foliões metiam-se com os vizinhos, e o grande divertimento era tentar descobrir quem seriam os tratantes, desconfiando-se sempre deste ou daquela, tu a mim nunca me enganaste...
A coisa às vezes acabava à pancada, mas quê, era Carnaval e ninguém levava a mal. Que quereis que mais vos diga? Éramos pobretes mas alegretes, inocentes, pouco nos bastava para nos sentirmos felizes. Estávamos em Fafe e, que mais faltasse, faltando quase tudo, tínhamos os peidos que nos libertavam. Os peidos-engarrafados, isto é.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Moisés, semeador de ventos

A obra-prima
Os especialistas dividem-se e a opinião pública também. Há quem defenda que o melhor trabalho de Miguel Ângelo são os frescos da Capela Sistina. Outros preferem a Baía de Cascais...

O peido, está provado, é uma insofismável verdade da vida, tal como a morte e dois mais dois serem quatro. Ou então. O peido, como o sonho do poeta, "é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer". E quem disser o contrário é néscio. Ou hipócrita. Ou néscio e hipócrita. Ou hipócrita e néscio. E, acima de tudo, infeliz.
Infelizes, em verdade vos digo, os que nunca ouviram o Moisés a peidar-se pelo soleno da noite, ali para os lados da Feira das Galinhas, que realmente tinha uma excelente acústica naquele tempo e hoje parece-me que é um parque de estacionamento e chama-se Praceta Egas Moniz. O Moisés era uma figura, um figurão. Era o homem perfeito, tinha tudo do melhor: portismo, habilidade para a bola, vaidade, ondinha no cabelo, fastio para o trabalho, gases. Semeador de ventos, colhedor de tempestades, Moisés, o nosso, era um artista, um predestinado, um exímio executante, como se dizia em gíria musical. Os flatos do Moisés, tomai nota, eram acutilantes, poderosos como pragas, abriam mares, incendiavam sarças, esculpiam lei em pedra maciça, abanavam os alicerces da Igreja Nova, levantada mesmo em frente, Deus nos perdoe, não sei como é que o Moisés nunca se aleijou. O Moisés peidava a capella. Os traques do Moisés seriam hoje considerados e explorados e exportados como energia alternativa, verde talvez, e vendidos a Espanha, para os espanhóis aprenderem. Mas também eram mansos, melodiosos, trinados, sin-co-pa-dos, contidos, suspiros nocturnos, meditabundos, quase confidenciais. O Moisés solfista trabalhava, com efeito, em vários registos, um dos quais, de interpretação particularmente exigente, mezzo piano, denominava-se "rasgar chita" e costumava encerrar o concerto, com mais dois ou três encores, porque o Moisés levava audiência atrás. As bufas do Moisés, que aceitava pedidos como crooner que se preze, eram um tremendo êxito. Para uma carreira internacional que se adivinhava, faltou-lhe quiçá entrar em estúdio e gravar um disco, provavelmente de janelas abertas, e não sei se isso seria tecnicamente possível. Em todo o caso, ficou a perder a posteridade, que hoje em dia não sabe o que era bom.
Para rematar, é preciso que se note que o sintetizador, instrumento musical electrónico tal como actualmente o conhecemos, ainda não tinha sido inventado. Moisés era o seu próprio instrumento. No seu tempo, e no panorama artístico nacional, Moisés, o nosso Moisés, foi profético, vanguardista, pioneiro, radical, fracturante. Uma autêntica pedrada no charco. Uma indesmentível lufada de ar fresco. Pum!