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quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Paraíso foi em Fafe

O Neves foi ver a neve
O Neves pegou na família e foi ver a neve. Não viu. A estrada estava cortada. Por causa da neve.

Eu ouvia falar, via os desenhos e depois aprendi a ler, Jardim do Éden, Jardim de Deleite, Jardim das Delícias, Jardim de Deus, Jardim do Paraíso, Paraíso Terrestre, Paraíso Terreal, ou simplesmente Paraíso. E nunca tive dúvidas: o Jardim era o nosso, não havia outro. O Jardim, toda a gente sabia. O Mundo assim com maiúscula começou em Fafe, no Jardim do Calvário, foi aqui que Deus pôs Adão e Eva em coiro, mais a maçã e a serpente e, claro, os dinossauros, crocodilos e tudo, os famosos crocodilos do Jardim do Calvário. Se se cantava "Cai neve, cai neve, cai neve no jardim", era evidentemente no nosso Jardim que nevava, aliás cheguei a ver uma vez. Se se brincava "Fui ao jardim da Celeste, griroflé, giroflá", era do nosso Jardim que se falava, obviamente, embora naquele tempo fosse preciso pagar para brincar, manias lá do fascismo. Eu tinha estas ideias muito bem esclarecidas na minha cabeça, e que ninguém me viesse dizer o contrário. Essa é, aliás, a principal vantagem da infância, a sabedoria.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Os Antigos

O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Três Salazares em casa esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.

terça-feira, 31 de março de 2026

O sexo e outras modernices

Uma questão de compasso
- "Une valse à mille temps..." - disse ela, prometedora e coquete, fazendo rodar a saia plissada. - Eu não! - disse ele, apressado e javardo, arriando calças e cuecas...

"Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", resmungou a velha senhora, sem mais nem menos, ou como quem simplesmente dá os bons-dias. Era deveras uma senhora vetusta, recatadamente vestida e calçada, mas com aprumo, assim a modos de irmã da caridade à paisana. O cabelo curto, arcaico, pretíssimo como só ao alcance do Restaurador Olex, as mãos cansadas e a voz decidida. "Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", foi o que ela disse e redisse, num veemente protesto saído do nada, acrescentando em tom menor, enquanto tentava abrir o porta-moedas: - Quanto é?...
Estávamos na padaria, com efeito. Ao balcão. Para além do desabafo, bem ensaiado, a velha senhora também queria pagar os dois bijus que já guardara na saca de pano com bordados de Viana. Atrás, na fila para a máquina registadora, uma senhora um bocado menos idosa e aparentemente mais arejada deu ideia de não ter gostado muito daquilo do "Isto agora" e retrucou, numa censura mansa:
- É por isso que no tempo da senhora as raparigas solteiras não apareciam grávidas sem se saber de quem...
- Mas eu nunca! Sabe quantos anos tenho? No-ven-ta! Noventa anos, e eu nunca!... - explodiu teatralmente a velha senhora, que encontrara enfim o que de facto viera buscar: uma discussão. Para isso saíra de casa.
- A senhora não, mas outras sim... - devolveu-lhe a senhora um bocado menos idosa.
- Não se compara! - atirou a velha senhora. - Agora não querem outra coisa, ainda ontem, ali na esquina do Cinema, um rapaz e uma rapariga naquilo, aos beijos e abraços, sempre naquilo, a fazerem sexo, pareciam cães, e a televisão é só sexo, sexo, sexo, de manhã à noite e pela noite dentro, sexo, sexo, sexo, que eu bem vejo... - e de repente ia-lhe faltando o ar, coitadinha, ou então o chilique também fazia parte.
Acudiu-lhe a senhora um bocado menos idosa:
- Olhe, minha senhora, faça como eu, não veja televisão. Na verdade, algumas notícias metem mesmo nojo. E com isto da pedofilia, dos abusos dos padres, dos bispos que esconderam tudo, até já nem sei se meta a minha netinha na catequese...
- Meta, meta! - mandou a velha senhora, voz da vida e da experiência, saudosa do respeito de antanho. - Isso não faz mal nenhum... - explicou. - Isso dos padres é uma coisa muito antiga. Eu era pequena, ao tempo que isso vai, e o nosso padre já andava metido com a minha catequista. Com ela e com outras, que ele levava tudo a eito. Mas não faz mal...

quarta-feira, 4 de março de 2026

Não andei contigo na escola!

O homem profundo
Ele era um homem profundo. E metódico, com horário. Sentava-se em cima da Arcada e dizia, não raro: - Penso agora, logo existo.

Igualha. Identidade ou igualdade de condição social, moral ou da maneira de ser - é assim, regra geral, que os dicionários definem a velha palavra igualha. "Eu não sou da tua igualha", dizia-se para ostentar superioridade, reclamando diferença de nível ou de classe ou de educação ou de estatuto em relação a outro ou outra, considerado ou considerada abusador ou abusadora, atrevido ou atrevida, põe-te mas é no teu lugar. E "eu não sou da tua igualha" queria dizer "mas conheces-me de algum lado?" ou "algum dia te dei confiança?" ou "já me viste mais gordo?" ou "sabes com quem é que estás a falar?" ou "estás agora armado em quê?" ou "por acaso andei contigo na escola?" ou todas as seis frases encadeadas no mesmo discurso, em casos particularmente bicudos, isto antes de se partir para a estalada, que também fazia parte da gramática, e era plural.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Filósofos à moda de Fafe

"Souvenir"
Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que uma vez, há mais de trinta anos, cumprimentei mestre Agostinho da Silva.

Eu ouvia-os. Ouvia-os atentamente. E aprendia. O Sr. Ferreira do Hospital, o Sr. José do Santo, o Lininho Leite, o David Alves, o Zé Manel Carriço, o Mola, o Sr. Lem, o Landinho Bacalhau, o Sr. Aristeu da Loja Nova, o Aristides Carteiro, o Tónio da Legião, o Sr. Saldanha, o Cunha da Fazenda, o Zé de Castro, o Manel da Pinta, Nélson Fafe, o Guia, o Júlio Barbeiro, o Zé do Registo, o Quinzinho da Farmácia, Nelinho Barros, o professor Alberto Alves, o Carlos Alberto, o Pimenta, o Toninho da Luísa, o Varinho Dantas, Serafim d'Eiteiro. Era. Eu ouvia-os. Atenta e reverentemente. E aprendia vida. Mas ainda não sabia que eles eram filósofos.

domingo, 19 de outubro de 2025

Ben-u-ron, uma questão de fé

Viciado em pastilhas
Tomava pastilhas atrás de pastilhas, mas não havia maneira de melhorar. Eram pastilhas de travão e ainda por cima davam-lhe gases. 

A minha sogra gosta muito do Ben-u-ron. Reclama "o meu Banuronzinho" por tudo e por nada, geralmente só para marcar posição de doente diplomada, inscrita na ordem e com as quotas em dia, questão de princípio, mas também para a insónia ou para a sonolência, para a garganta seca ou molhada, para o frio e para o calor, para as correntes de ar e para o mau-olhado, para a diarreia ou para a prisão de ventre, para os arrotos, soluços e espirros, para a flatulência ou para a surdez ou para a anosmia, para as unhas encravadas ou para os pêlos do nariz. A minha sogra só não quer Ben-u-ron para as dores de que se queixa como quem reza o terço em latim ou para a febre que felizmente quase nunca tem, por mais que meta o termómetro. Mas para o resto - isto é, para aquilo que não diz respeito ao Ben-u-ron -, a miraculosa pastilha é trigo limpo, farinha amparo. "Tenho muito fé no Banuron!", justifica a minha sogra. A Joaquininha decerto tem razão, vai a caminho dos 94 anos e, portanto, só pode ter razão. E eu, verdade seja dita, questões de fé não discuto...

domingo, 14 de setembro de 2025

Vós não sabendes nada!

Gaba-te cesta
Era um homem muito antigo. Falavam-lhe em gigas e ele imaginava cestas...

Uma rapariga da minha idade, isto é, uma "idosa", descendo a Arcada em direcção ao Mário da Louça se ainda houvesse, em passeio, de braço dado e discutindo alegremente com o neto, moço com ares de universitário repetente e bem disposto, os dois perdidos de riso. Quadro bonito. Flagrante exemplar da harmonia familiar e do eterno conflito de gerações, a sabedoria dos antigos contra a ignorância de hoje em dia. E diz ela, toda despachada e gramatical, aritmética, falando para o rapaz, sim, mas sobretudo para o redor, para quem a quisesse ou não ouvir, e suspeito que especialmente para mim, que lhe pareço de igualha e vou em sentido contrário, apontado à memória do Américo das Bicicletas: - O quê? Eu até sei as letras romanas, quanto mais! Vós agora é que não sabendes nada...
E realmente.

Agora, uma revelação. O Sr. Américo das Bicicletas, que eu conheci muito bem, era, se não me engano, padrinho do meu padrinho e tio Américo. O que quer dizer que o Sr. Américo das Bicicletas era praticamente meu padrinho-avô, e eu nunca tinha pensado nisso, o que é extraordinário. Pensei hoje, agora, sem mais nem menos, ou por causa dos números romanos, e fiquei muito feliz. Porque eu gostava muito da figura do Sr. Américo das Bicicletas.

sábado, 15 de março de 2025

A hora de Serafim d'Eiteiro

O despertar do filósofo
- A vida é uma imensa linha recta cheia de curvas, e cada subida concomita-se numa irrefutável descida, vice-versando - disse o filósofo, ao pequeno-almoço.
- Chega-me o açúcar - disse a mulher do filósofo.

Serafim d'Eiteiro tinha uma sombria loja de fazendas em Cima da Arcada, por baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina, um figurão com o seu quê de filósofo. O apelido "d'Eiteiro" suponho que fosse natural corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense, ou seriam pelo menos os seus ancestrais. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua provecta e indesmentível sabedoria - mas estou apenas a deitar-me a adivinhar.
Alto, magricela, de fato todos os dias, Serafim d'Eiteiro frequentava a sala das traseiras do Peludo, onde, naquela horinha após almoço, se jogavam umas bilharadas iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e (aqui que ninguém nos ouve) até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Era ali o fim do mundo, havíeis de ver! Em Fafe, naquele tempo, era tudo de arrebenta.
E uma vez foi demais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: - Ide todos para o caralho! Todos!
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, teve um rebate de consciência e resolveu abrir uma honrosa excepção: - Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si -, corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, lado esquerdo, no canto por baixo do velho rádio Philips dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do ininterrupto cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria: - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que eu não fico. Se é para ir, eu também vou...
E era assim a vida.