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O sem-abrigo apresentou-se nos serviços sociais e disse Bom dia, sou cão e preciso de uma casa! Deram-lhe um T1 mobilado e decorado.
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sexta-feira, 19 de junho de 2026
Eu e os cães, desequivocando
terça-feira, 28 de abril de 2026
O quinto dos infernos
O futuro está no teletrabalho
Tem sido um sucesso o apoio domiciliário em teletrabalho a idosos sozinhos e acamados. O Governo pretende alargar a experiência aos transportes públicos e à construção civil.
A duração da obra está estimada em quatro meses, pelos melhores cálculos, a fazer fé no aviso gentilmente afixado lá em baixo, no placar de cortiça do condomínio. E não me posso queixar, ou ainda me mandam para a minha terra. De acordo com a missiva do vizinho do quinto, a empreitada "decorre tal como permite o quadro legal em vigor", dando "cumprimento ao estipulado nos n.ºs 1 e 2 do art.º 16.º do Regulamento Geral do Ruído, aprovado pelo decreto-lei n.º 9/2007 de 17 de Janeiro". Ainda bem. Assim, estou muito mais descansado...
Desconstrução civil
O problema da habitação
As rendas estão cada vez mais caras. Quanto aos bordados, já ninguém lhes liga.
Perguntavam-lhe pela profissão e ele respondia, orgulhoso, "operário da desconstrução civil". Era um especialista, com efeito. Ele e mais dois camaradas chegavam, de marreta e pé-de-cabra, picareta pneumática e um ror de sonoras caralhadas, e num mês, mês e meio, escavacavam completamente uma casa, esvaziando-a de pavimentos, divisórias, tectos, portas, janelas, memórias e telhados. Só ficavam os alicerces ao baixo e as paredes exteriores ao alto. Depois vinham os outros, os da construção civil, e faziam mais um alojamento local.
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domingo, 29 de março de 2026
A problemática do bairro problemático
Prò maneta
Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.
Não se pode dizer negro, não se pode dizer cigano, não se pode dizer anão, não se pode dizer maneta, não se pode dizer drogado, não se pode dizer gatuno, não se pode dizer pedinte, não se pode dizer pistoleiro, não se pode dizer sexo. Mas problemático pode dizer-se. A CMTV é especialista em problemático, sabe tudo sobre a problemática do problemático, e as outras cmtv também. Ainda agora, agora mesmo, olhei para a televisão e verifiquei que foi falecido a tiro um jovem de 24 anos num "bairro problemático". Um bairro problemático, querem eles dizer, é um bairro onde moram negros, ciganos, anões, manetas, drogados, gatunos, pedintes, pistoleiros e gajos e gajas que se dedicam à indústria do género. Mas isto que não saia daqui.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Diálogos fafenses 41
O sem-abrigo e o com-abrigo
O com-abrigo abeirou-se misericordioso do pobre sem-abrigo, coitadinho, levantou-lhe o cobertor que lhe defendia a cara e a dignidade e disse "Bom dia". O sem-abrigo respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e, pensei eu, teria sido melhor princípio de conversa se se tivessem entendido acerca de "Boa tarde".Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouve lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só falas dessa merda? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morre tu, se gostas tanto! E, já agora, vai chamar companheiro à puta que te pariu...
E foi assim. Palavra de honra se não foi exactamente assim, ou pelo menos podia ter sido.
sexta-feira, 3 de outubro de 2025
Uma casa na padaria
Ainda me lembro...
Sou uma pessoa muito antiga. Eu sou do tempo em que padaria era uma loja que fabricava e vendia pão.
Sou uma pessoa muito antiga. Eu sou do tempo em que padaria era uma loja que fabricava e vendia pão.
Há uma senhora que mora na minha padaria. E não é a proprietária. Digo que mora na minha padaria porque, seja qual for a hora a que eu lá vá - oito, onze, meio-dia, quatro ou seis da tarde -, a senhora está lá, na mesa do canto, ao lado do balcão, quem vai para os lavabos. É exactamente para esse endereço que as Finanças lhe mandam as contas dos impostos: Dona Fulana de Tal, Mesa do Canto Ao Lado Do Balcão Quem Vai Para Os Lavabos, 4450-275 Matosinhos.
A nossa padaria em Fafe era na Rua Monsenhor Vieira de Castro, lado direito, com o Largo pelas costas e o cruzamento do Santo Velho mesmo à frente do nariz. Ficava por baixo da casa dos pais do Paulinho, que eram os donos do estabelecimento, entre as lojinhas da Dona Vitória capelista, que era uma santa, e da Aurorinha Maia, que era um vulcão, não desfazendo. Era a padaria do Sr. Rodrigues, mas, para todos os efeitos, chamava-se apenas Padaria. Depois tivemos de mudar para o Assento e a Padaria Moura ficou-nos mais à mão, mas nesse tempo já eu andava por fora a dar água sem caneco. Lembro-me, ainda assim, que as padarias vendiam bijus, bicas e pães-de-leite para os ricos, broa grossa, broa fina, às vezes sêmeas e regueifas ou roscas principalmente pela Páscoa. Enfim, vendiam pão. Isso eram as padarias.
Mas hoje em dia as padarias são tudo: café, salão de chá, pastelaria, cervejaria, restaurante, casa de pasto, tasco, pensão, centro de convívio, sociedade recreativa, quiosque, tabacaria, meeting point, posto de turismo, guiché de informações variadas. E vendem de tudo, até pão, o que é curioso. São os tempos que correm: o meu talho também vende ovos, azeite, queijo, vinho, peixe congelado, feijão, ananás e pêssego enlatados. E a minha frutaria apareceu ontem com o aviso - "Temos ostras".
Sendo tudo e muito concorrida, a minha padaria tem televisão e, portanto, milhões de opiniões. A campeã do palpite é a cliente residente, cuja, para mal dos meus pecados, padece de uma voz deveras agreste e guinchada uma oitava acima como se fosse comentadora desportiva na CMTV. Nunca a apanhei calada.
"Não. O meu filho não gosta de andar!...", anunciava um destes dias a senhora que mora na minha padaria. "Parabéns à prima!", disse eu cá para mim. "Um marmanjo com mais de trinta anos e não gosta de andar. Está bem, Alfreda! Se calhar quer colo, o menino...", continuei com os meus botões.
Mas ela insistia, repetia até à exaustão, cheia de orgulho no calaceiro: - O meu filho não gosta de andar. Não. Não gosta de andar...
Eu ia falar. Palavra de honra, eu ia dizer qualquer coisa a respeito do assunto e ia ser ali o fim mundo, uma epifania em cuecas. Porque, na minha padaria, eu passo por mudo. Há anos que está assim assente. Um velho mudo sorridente que sabe dizer "Bom dia!" e "Obrigado!", de resto peço por sinais e pago com dinheiro certo, que a minha mulher me dá. Eu ia destoar, estender-me ao comprido, dar cabo do meu tão precioso disfarce, quando a senhora que mora na minha padaria fez questão de rematar, mesmo em cima da hora: - Não gosta de andar. Uma casa, nem que fosse pequenina, mas com tudo, o meu filho preferia. Uma casinha. Andar, não!
Ai era isso! Ufa, safei-me por pouco...
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Uma Casa na Pradaria
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