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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Diálogos fafenses 15

O tempo
- Isto é que tem estado!...
- Realmente...
- E então hoje!...
- Lá isso...
- O que é que eles dão para amanhã?
- Eu...
- Pois. Então até logo, vizinho.
- Vá pela sombra, vizinha.
É, o elevador aproxima muito as pessoas. O elevador e o boletim meteorológico.

Mataram os vizinhos

Chamem a polícia!
Chegou a casa e, como de costume, bateu à porta. Desta vez, a porta da vizinha chamou a polícia.

É. Mataram os vizinhos e agora somos condóminos. Éramos vizinhos, lembrais-vos? E a palavra vizinho queria dizer coisas boas: proximidade, amizade, companhia, ramo de salsa, comunidade, confiança, solidariedade, copinho de vinho novo, malga de marmelada, frasquinho de geleia, as primeiras uvas, cumplicidade, visita ao hospital, dar a camisa, porta aberta, conselho pedido e recebido, comadre, quase família, melhor que família, tu cá, tu lá, serões no nosso passeio pelas noites quentes de luar, a rua inteira sentada em banquinhos de costura, em mantas ou almofadas, no chão estreme e morno, cantando modinhas, contando histórias, vidas. No Santo Velho ou no Assento. No Picotalho ou na Cumieira, na Rua de Baixo ou na Fábrica ou na Recta ou no Retiro ou na Granja. Éramos vizinhos. Agora somos condóminos. E a palavra condómino tem uma carga que é um pesadelo: propriedade, despesa, individualidade, indiferença, reunião, ausência, chatice, discussão, impessoalidade, porta fechada a sete chaves (três, pelo menos), queixinha, fracção, má-língua, elevador, o tempo, bom dia e boa tarde, eu cá, tu lá. Solidão, solidão. E é irónico. Há mais de trinta anos que eu sou um condómino exemplar, um condómino da melhor pior espécie - não apareço, só pago -, mas hoje deram-me as saudades de ser vizinho. Sei que já vou tarde. Estamos todos condenados a sermos condóminos para o resto das nossas vidas, enjaulados em aldeias-bairros verticais. Penitenciárias.

É. Cavamos as nossas próprias trincheiras, os nosso túmulos. As pessoas vivem fechadas em caixotes. Em caixinhas dentro de caixotes. E cada caixinha tem um respiradouro chamado varanda - ou sacada, se for na nossa terra. E as pessoas fazem marquises!

terça-feira, 28 de abril de 2026

O quinto dos infernos

O futuro está no teletrabalho
Tem sido um sucesso o apoio domiciliário em teletrabalho a idosos sozinhos e acamados. O Governo pretende alargar a experiência aos transportes públicos e à construção civil.

Moro num terceiro andar. Direito. E, como bom fafense exilado, dou-me muito bem com todos os vizinhos do prédio, que agora se chamam condóminos, isto é, não me dou de todo com vizinho nenhum, que é a melhor maneira de nos darmos todos bem. O meu vizinho do quinto entrou em obras, ou por outra, resolveu deitar a casa abaixo da porta para dentro e fazer lá dentro uma casa nova, isso é lá com ele. Paredes, soalhos, tectos, canalizações, instalações eléctricas, louças e móveis de casa de banho e cozinha, tudo destruído sem dó nem piedade, deitado abaixo à força de camartelos pneumáticos, sonoras rebarbadoras, explosões de dinamite, buldózeres, bolas de aço e outra maquinaria pesada de demolição, que eu bem a ouço lá em cima em manobras, um chinfrim medonho, um basqueiro insuportável, incessante, eu e a minha mulher já só falamos um com o outro por SMS para nos ouvirmos, é pó por todos os lados, sufocante e cego, a porta da rua sempre escancarada, de manhã à noite, os elevadores impraticáveis, o chão um nojo, é o inferno, o fim do mundo mesmo em cima das nossas cabeças em água, ouradas, doridas, cansadas, apenas com os vizinhos do quarto-direito de permeio, esses, coitados, completamente à beira da loucura e já em tribunal, com a casa a tremer-lhes como varas verdes e episódios bidiários de histeria conjugal.
A duração da obra está estimada em quatro meses, pelos melhores cálculos, a fazer fé no aviso gentilmente afixado lá em baixo, no placar de cortiça do condomínio. E não me posso queixar, ou ainda me mandam para a minha terra. De acordo com a missiva do vizinho do quinto, a empreitada "decorre tal como permite o quadro legal em vigor", dando "cumprimento ao estipulado nos n.ºs 1 e 2 do art.º 16.º do Regulamento Geral do Ruído, aprovado pelo decreto-lei n.º 9/2007 de 17 de Janeiro". Ainda bem. Assim, estou muito mais descansado...