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domingo, 9 de agosto de 2026

A côdea e o côdeas

O bem-mandado
Mandaram-no ir chamar nomes a outro. E ele foi.

Côdea é a parte exterior endurecida de algo, do pão, do queijo, das árvores. É a casca, a crosta, a tona. Côdea pode ser pequena refeição ou merenda de ovos fritos com farinha, molhados em mel, entre o almoço e o jantar. Côdea é pão, pão duro, porção pequena e insignificante de comida, ou por outra, comida reles e em diminuta quantidade, um nico, um cibo. Côdea é nódoa, camada exterior de sujidade ou coisa de nada. É pedaço, bocado - "uma côdea de sabão para lavar as mãos". É pagamento miserável - "trabalho 12 horas por dia e o patrão dá-me uma côdea". O plural de côdea é côdeas, e muda do feminino para o masculino. Côdeas é uma pessoa muito pobre, pobretão, um homem sujo, um indivíduo grosseiro, um labrosta, um carroceiro. Em Fafe, antigamente, chamar côdeas a alguém era insulto do piorio, ia fundo no carácter. Ser côdeas não era só aspecto, tinha mais a ver com o asseio moral. O côdeas, o verdadeiro côdeas, até podia andar sempre muito limpinho, mas, por dentro, não deixava de ser um indivíduo asqueroso, desprezível, desprezável, baixo, sórdido, vil, mesquinho. O côdeas era um bandalho, um pulha, um bardamerda, um filhodaputa. No insultómetro da nossa terra, um côdeas, um verdadeiro côdeas, estava ao nível do moncoso e do ranhoso, mesmo até do piolhoso. Portanto, estais a ver.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Quem me dera ser cão

Cadela
As palavras têm vida, acusam a idade. Há palavras que enrijecem com o tempo e há outras que se amaciam. Cadela, por exemplo. A palavra cadela, antigamente, tinha uma pesada carga pejorativa, era um nome do piorio para se chamar a uma mulher, era um insulto violentíssimo, degradante. Em Fafe, era a bomba atómica das ofensas. Cadela! Queria dizer prostituta, vadia, safada, desavergonhada, traiçoeira, vagabunda, tola, toleirona, má, malvada, crua. Mas hoje em dia, não. Hoje, as meninas e senhoras passeiam os seus cãezinhos e dizem-lhes que são a "mãe", a "mamã", a "mamãe". E dizem-no a toda a gente. Quer-se dizer: as meninas e senhoras reclamam a maternidade canina, apresentam-se como legítimas progenitoras dos seus cães-filhos, apregoam aos quatro ventos esse incontroverso estatuto. E está certo. Neste novo contexto, chamar-lhes cadelas, às meninas e senhoras mães dos cães, só pode ser, agora, um elogio, um simpático reconhecimento.

Três mulheres à mesa na pequena esplanada da confeitaria da moda, gozando uma falsa fresca de fim de tarde no Verão impiedoso da cidadezinha baixo-minhota. São jovens, alegres, morenas, as mulheres, e têm um cão. Um cão pequeno, rechonchudo, de focinho amarrotado, caricatura de um velho boxista na reforma. Será talvez um pug. Leio na Wikipédia que o pug tem "personalidade", que é "encantador, brincalhão, astuto, sociável, arteiro, dócil, afectuoso, teimoso, amoroso, atento, tranquilo, calmo". Pois. Será. O estupor do cão, o sortudo do cão, passeia-se irrequieto de colo em colo, de mama em mama, esfregando-se ao comprido na brancura sedosa de seis seios quase ao léu, lambendo, lambendo e mais não sei quê, e as mordomas ali na rua sem pudores, crescentemente excitadas, vermelhas, aos gritinhos, aos saltinhos, num fuzuê que só visto.
Ora bem. Foi na parte do mais não sei quê - e digo mais não sei quê porque realmente não faço ideia, o assunto interessou-me sobremaneira, eu estava ali concentradíssimo como o Futre, sócios, invejoso, confesso, mas não consegui perceber o que se passava até às últimas consequências -, portanto, foi na parte do mais não sei quê que a mulher menos jovem, com evidente cara de dona, largou os suspiros, ganhou fôlego, esganiçou ainda mais a voz e disse ao cão, imperativa: - Frederico! Não! Não! Não! Mamãe já falou! Isso não, Frederico!
Fiquei incomodado. Não tanto por causa da indivídua chamar Frederico ao cão. Também chamo Frederico ao meu filho Kiko e isso nunca me chateou, antes pelo contrário, até porque é o nome dele. O que me confundiu foi aquilo de ela ser mãe do cão. Estou velho para estas merdas. Fico baralhado com estas modernices sorrateiramente edipianas mas ao contrário. Não consigo acompanhar estes tempos malucos em que a nova ordem parece ser tratar os animais como pessoas, como filhos, e tratar as pessoas como animais. Como animais que não são tratados como pessoas. Como pessoas que não são de estimação. Os portugueses já gastam mais com cães do que com bebés, dizem as notícias de confiança. Não percebo. Estou definitivamente fora de prazo. E fiquei incomodado!

sábado, 13 de junho de 2026

O moncoso, o ranhoso... e o piolhoso

Apoio
- Força, meu amigo, força! Nestes momentos é preciso ter força. Coragem! Força, hã!?...
- Importa-se de sair e de me deixar cagar em paz?...

Moncoso e ranhoso. Conceitos sinónimos, porém idiossincráticos. O moncoso é o tipo dos moncos ao dependuro, sujo, imundo, badalhoco, ranhoso - cá está -, asqueroso, desprezível, desprezável, baixo, sórdido, vil. Um bandalho, um pulha, um bardamerda.
Por outro lado, o ranhoso é o tipo que tem ranho, ranhento, ranhenta, moncoso - cá está -, teimoso, astuto, foleiro, reles. O verdadeiro filhodaputa.
Moncoso e ranhoso são nomes que se chamavam antigamente. Em Fafe chamavam-se muito. Eram nomes feios, ofensivíssimos, do piorio, ao nível, por exemplo, de... piolhoso. Mas isso já é outro assunto.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O borra-botas e o cagão

Une petite différence
A diferença entre "panache" e panachê não se nota muito: é gasosa.

O borra-botas e o cagão. Cuidado, estamos em terreno escorregadio. Muito cuidado! Elaboramos aqui a respeito de dois conceitos aparentemente correlativos - quero dizer, o borra-botas, antes de o ser, é cagão, e o cagão, após sê-lo, é borra-botas, há quem pense -, mas não é necessariamente assim. Vejamos:
Borra-botas, o substantivo, posto que começou por significar, inocentemente, engraxador, ou, sejamos compreensivos, engraxador desastrado, espécie de expressionista abstracto do rez-de-chaussée, é nome que hoje em dia define indivíduo sem valor, pessoa insignificante, reles, desprezível, safardana, bisbórria, biltre, patife, salafrário, bigorrilha, pulha, bandalho, pobre diabo, trapalhão, troca-tintas, zé-ninguém, zé-dos-anzóis, zero-à-esquerda. O que evidentemente propicia que, em não raros casos, o borra-botas seja também lambe-botas, o que, convenhamos, mete um bocado de nojo.
Debrucemo-nos agora sobre o cagão. O cagão é, para início de conversa, o indivíduo que defeca com entusiástica frequência e notoriedade, ou, se for em Fafe, a criatura que se peida regularmente e por uma questão de princípio, mas o termo passou também a servir para identificar o homem medroso, caguinchas, medricas, cagarola, ou, por outro lado, o vaidoso, o presunçoso, o arrogante, o snobe, o pedante, o gabarola, o armante, o enfatuado, o figurão, o cabeçudo, o tem-a-mania. E este é que é o ponto...