É de homem
Homem que é homem não joga à malha. Faz.
Passaram-se dois dias. Num jardim fronteiro à praia de Matosinhos, um jovem casal gozava o sol de fim de Verão e aproveitava para ensinar a filhita a andar de bicicleta. O pai acompanhava a menina em correrias, dando-lhe as instruções elementares, mas a mãe sentou-se. Sentou-se, abriu a bolsa, rapou de um pequeno embrulho que eu primeiro não distingui e, com a agilidade de uma experimentada bonecreira, começou a bater-se com quatro-agulhas-quatro, tantas quantas são precisas para tricotar meias de lã. Era o que ela fazia, uma meia. E percebi.
Percebi que isto agora não é só gosto, moda ou revivalismo, terapia ocupacional. É sobretudo precisão, que neste caso quer dizer necessidade. Isso. Voltámos ao melhor do pior de antigamente. O Portugal democrático, da Europa, dos milhões, das auto-estradas, das universidades, dos satélites, da inteligência artificial e do século XXI é afinal igual ao Portugal fascista e "orgulhosamente só", poeirento, obscurantista e pobre do tempo em que a minha mãe, por imposta carência e esperta poupança, fazia todas as minhas camisolas e as camisolas dos meus irmãos, e que categoria que elas eram, tenho uma comigo vai para cima de quarenta anos...
Por outro lado, lembrei-me, pode estar exactamente aqui a salvação do País. Permiti-me que lance o desafio: porque não transformar o tricô num desígnio nacional? Porque não começarmos todos a fazer malha para fora? Ou entrançados de palha de Fafe? Porque não pôr este país de desempregados e falidos a dar ao dedo de norte a sul e ilhas, elas e eles, e apostar na internacionalização e exportação em barda das nossas ricas peças, tão procuradas por turistas e similares? Sim, porque não? Afinal, o que é que as natas, os pastéis de Belém e o pudim da TV são mais do que os camisolões, os coturnos ou os chapéus e seiras genuinamente made in Portugal? E quem diz Portugal, diz Golães, Paços ou Travassós.
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