terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Basta fazer-me um sinal

Meio-dia e meio?
"Meio-dia e meio", ainda ouço dizer na rádio, e era escusado. Meio-dia e meio, que raio de hora é isso? Das duas, uma: ou são 24 horas (isto é: meio-dia mais outro meio-dia) ou são 18 horas (isto é: meio-dia mais meio meio-dia), mas não serão, nunca, 12h30. Falando de horas, ninguém diz onze e meio, nem duas e meio, ou diz? O que se diz é: onze e meia e duas e meia. Pois com o meio-dia é exactamente a mesma coisa: meio-dia e meia. Isto é, meio-dia (12 horas) mais meia hora. Isto é, 12h30. Estamos entendidos? Meio-dia e meia! E meia, porra!

Não sei em que ponto exacto da moderna história do desporto e do jornalismo nacionais o sinal foi substituído pela sinalética. Mas sei que, como todas as asneiras e a Toyota, a sinalética veio para ficar, pegou de estaca e hoje em dia até parece mal dizer outra coisa. Sinal dos tempos. Agora, segundo os nossos doutos comentadores e relatadores desportivos, os árbitros e os jogadores de futebol, por exemplo, já não fazem sinais uns aos outros ou uns para os outros - fazem ou dão sinalética.
Ouvi na Antena 1: "Rui Patrício levanta os dois braços, dando sinalética aos seus companheiros". Dando sinalética? A rádio é para imaginar, e portanto eu imaginei o então jovem guarda-redes do Sporting a desembrulhar-se com brilhantismo no uso da complexa mas bonita linguagem gestual, fazendo manguitos atrás de manguitos, piretes atrás de piretes, toques esdrúxulos nos cotovelos, no nariz e nas orelhas, no coração e mais abaixo, mãos atrás das costas, pedra-papel-tesoura, e muitas caras feias, até ser completamente compreendido pelos colegas.
E mais à frente ouvi: "O árbitro auxiliar a ter que dar sinalética". E veio-me à cabeça a imagem de um homenzinho em calções, munido não com uma mas com duas bandeirinhas, uma em cada mão, a fazer sinais ao navio-almirante, anunciando a iminente invasão das Berlengas.
Ora bem. Se formos a um dicionário, qualquer um, por mais modesto ou vanguardista que seja, em papel ou digital, veremos evidentemente que um sinal continua a ser um sinal: uma indicação, um aviso, um meio de transmitir, à distância mas à vista, ordens, avisos ou pedidos. E que a sinalética, quando muito e neste contexto, é um conjunto de sinais, o uso de sinais. Não percebo, por isso, a alteração, a substituição, a complicação.
Tomai sentido, ademais, à maravilhosa Lena d'Água, à Leninha da voz doce, poderosa e pura, fresca como no início, cantora que, ainda por cima, é filha do mítico José Águas e irmã do famoso Rui Águas, figuras grandes do Benfica e do mundo da bola em geral. E o que diz a nossa Helena, logo nos primeiros versos da canção antiga e lendária? Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me um sinal. Isso, "um sinal". Agora tirai o "sinal" e metei lá a "sinalética". Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me uma sinalética. Estais a ver? Tem algum jeito? Sinalética? Assim dito, "faz-me uma sinalética", até parece javardice, valha-me Deus...

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