quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A miúfa e a cagufa

Luta de classes
Na luta de classes, os da 4.ª ganhavam sempre.

Miúfa e cagufa são palavras antigas, sinónimas, gémeas, unha com carne desde os bancos da escola. Eram palavras corriqueiras, na ponta da língua, fáceis, mais fáceis do que a própria tabuada do 2, faziam parte do vocabulário essencial, do prontuário de sobrevivência infantil. Seriam talvez redundantes, uma funcionaria como reforço da outra e vice-versa, nunca lhes percebi diferença ou eventual gradação, porque realmente ambas significavam e significam o mesmo: medo, receio, susto, cobardia, cagaço. Miúfa também se dizia miaúfa, mas em Fafe não. Cagufa também se dizia cagunfa, inclusive em Fafe, mas só às vezes e por engano. Exprimindo sem dúvida a ideia de fraqueza, cagufa e miúfa eram, paradoxalmente, usadas como palavras de ataque, armas de arremesso, quase sempre dos maiores para os mais pequenos, era essa a lei - Tens mas é cagufa! Tens mas é miúfa! -, isto para desafiar ou humilhar publicamente, chamando medroso a alguém, ao lingrinhas. E estes poderosíssimos insultos eram geralmente acompanhados pelo respectivo gesto, universal e sem legendas, palma na mão direita voltada para cima e as pontas dos dedos juntando-se no alto, até formarem um olhinho do cu palpitante, bem apertadinho, isto é, onde não coubesse sequer um feijão. - Ó! Ó! Ó!...
Passadas ao plural, as palavras miúfa e cagufa ganhavam estatuto de adjectivo, força de nome feito. O cagufas, cagunfas ou miúfas, tanto fazia, era o cobarde, o cagarolas, o medricas, enfim, o caguinchas. - Olha o cagufas! És um miúfas! Hehehe! Ora isto não se chama impunemente a um homem, sobretudo se esse homem for um cavalheiro com sete ou oito anos de idade, com eles pequeninos mas no sítio e a honra praticamente por estrear. Exigia-se então a desagravo, impunha-se logo ali o duelo franco e regenerador ou pelo menos a promessa de espera, a coiada de mão escondida e pé ligeiro, ainda hoje não se sabe de onde é que a pedra apareceu. E foi desta maneira, em Fafe, que começaram as cabeças rachadas em Portugal.

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