Da frente para trás
Ao contrário de todos os outros atletas, ele gostava de correr da frente para trás. Tácticas. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas cada um é que sabe da sua vida.
O homenzarrão de calções de licra pelo joelho passou por mim no Parque da Cidade, junto à Torre do Relógio, e naquele exacto momento, mais minuto menos minuto, despencou-se-lhe do extraordinário cinto multifunções um dos frasquinhos de plástico. Caiu aos meus pés, como se fosse um dádiva e só me arranjou problemas. Eu, que me pelo por ajudar, gritei "Olhe, caiu-lhe um boião!", vergando-me para apanhar a garrafinha e levá-la ao dono, e bem me custou, que já não estou em idade para semelhantes acrobacias. O superatleta, talvez apenas cinco metros à minha frente, ouviu-me, sempre correndo, virou levemente a cabeça e sobretudo o braço direito num gesto redondo e grande, creio que metendo-nos no mesmo saco a mim e ao vasilhame perdido, para tonitruar, macho a cem por cento, desportista até mais não:
- Que se foda!...
E lá foi para casa, naquela roupinha de bailarina, coçando sobremaneira as partes, coisa de homens, cheio de pressa para bater o seu próprio "recor". Era dia de tripas e talvez vitela assada, perceba-se por isso a urgência.
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