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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Histórias de Luís Filipe Barros

Rádio ligado
Ligou o rádio e pô-lo ao peito. Ordens do médico.

Luís Filipe Barros não canta, não toca, que me conste, mas é uma lenda viva do rock'n'roll. É português e da rádio, e quem não souber dele o melhor é procurá-lo na Wikipédia, porque eu aqui não faço desenhos. Conviveu com os Pink Floyd, com os Bon Jovi e com os Deep Purple, quase partiu uma perna ao vocalista dos Supertramp, ensinou a aguardente aos Spandau Ballet, levou os Police ao Jamaica, estendeu ao comprido o líder dos Clash, mas tudo começou com Herman José, não vamos mais longe.
Anos oitenta do século passado, em Portugal. Luís Filipe Barros era uma das vozes da moda e gozava do estatuto de verdadeira vedeta. "Ia aos restaurantes, almoçava ou jantava, mas não pagava. Nos bares, bebia sempre à borla. Ia às discotecas, aos fins-de-semana, e ainda ganhava dinheiro. Eram realmente bons tempos", dizia-me o famoso radialista já lá irão quinze anos, numa espécie de entrevista de carreira que então me concedeu, facilmente e sem peneiras.
Nas deslocações ao Norte, um dos seus companheiros de viagem costumava ser Herman José, que também fazia o circuito das discotecas. "Íamos para o Porto na sexta-feira e regressávamos a Lisboa no domingo à noite, a contar notas, cada um para o seu lado, no comboio". Da primeira vez havia em Campanhã uma pequena multidão de fãs à espera, agitando cartazes. Luís julgava que era para o Herman, mas não, era mesmo para ele.
O importante papel que Luís Filipe Barros desempenhava como divulgador musical na rádio portuguesa introduzia-o na intimidade das estrelas de rock que visitavam Portugal ou Espanha. Uma vez, em Madrid, foi convidado para jantar com os Pink Floyd, após concerto. Contou-me: "Eu estava cheio de fome, queria comer o meu bife, mas os gajos andavam numa de emagrecer e tinham marcado num restaurante japonês. Foi uma desgraça: peixe cru e salada de violetas, naquela altura eu sabia lá o que isso era. Mas dava para perceber que os tipos já não podiam ver o Roger Waters. Tinha a mania que mandava em tudo, lá por o Sid Barrett ser maluco..."

Aos Supertrump, que andavam também nos cornos da lua com o "Breakfast in America", Luís Filipe Barros ia dando cabo dos dois concertos agendados para Cascais. Alguém teve a infeliz ideia de organizar um jogo de futebol entre os músicos e a equipa da chamada comunicação social. Luís, do lado dos jornalistas, levou a coisa a sério (à séria, se lido em Lisboa) e ia partindo uma perna ao vocalista da banda britânica. Confessou: "Dei uma trancada tamanha no Roger Hodgson, que quase não havia concerto para ninguém. Fui expulso e tudo".
Outro que levou que contar foi Joe Strummer, a voz dos Clash, num espectáculo em que o nosso Luisinho "quase andava à pêra com um gajo da segurança que estava com eles e tinha uma boina do IRA". Com o grupo em palco a tocar na maior desorganização, dado o adiantado estado de embriaguez e não só em que todos se encontravam, Strummer pediu a Luís Filipe Barros que o ajudasse, que lhe desse uma mão para subir ao estrado. E o radialista deu o seu melhor: "Empurrei-o para o palco, mas quando chegou lá acima, embalado, faltaram-lhe as pernas e ele espalhou-se ao comprido à frente de dez mil pessoas. Foi um trambolhão monumental".
Em abono da verdade, deve dizer-se que Luís Filipe Barros tinha por hábito desencaminhar o pessoal para os copos, no "Snob ou no Bairro Alto", depois dos concertos. Uma noite levou o Stewart Copland a esse baluarte do bas-fond lisboeta que era o bar Jamaica, e o baterista dos Police gostou tanto que, bem bebido, "já estava a querer comprar aquilo".
Outra vez o mítico fundador do aclamado programa Rock em Stock pegou nos aprumadinhos Spandau Ballet e ala até à Costa da Caparica, para almoço. Comeram sardinhas assadas e "adoraram", porém perderam-se pela aguardente. Emborcaram uma garrafa inteira, e desde esse dia - recordou o Luís -, "quando davam uma entrevista à MTV, diziam sempre que Portugal tinha a melhor bebida do mundo: o bagaço".

E enfim um extra. Luís Filipe Barros no camarim dos Bon Jovi. "Nunca tinha visto nem nunca mais voltei a ver uma cena assim: o baterista "Tico" Torres, em cuecas e de barrete na cabeça, passando as calças a ferro..."

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Que perfeita ela era, a ignorância

Pro Bono
Acabou o curso, disseram-lhe que, para começar, ia trabalhar pro bono e ele rebentou de alegria. "Sou fã n.º 1 dos U2", exultou, excitadíssimo.

Eu trabalhava num jornal que tinha uma revista de fim-de-semana muito dada àqueles rankings da treta que só servem para meter as fotografias dos "famosos" no júri de faz de conta. Eu batalhava no Porto e o jornal era mandado a partir de Lisboa. Uma vez, o assunto devia ser música e pedi a ajuda, a opinião, do Luís Filipe Barros. "Luís Filipe quê?..." - disse o meu chefe lisboeta, especialista em Big Brother. "Luís quê? Quem é esse gajo? Não arranjas ninguém conhecido?..."

Desencantei o Tozé Brito, noutra ocasião, para outro trabalho de Hércules, mas o meu chefe, outro, jornalista alegadamente encartado, também não fazia a mínima ideia de quem eles fossem, Hércules, antes dos desenhos animados e do cinema, e o Tozé Brito propriamente dito: "Esse tipo jogou onde? E o que é que ele percebe de música?...", atirou-me, com aquele risinho telefónico e condescendente tão próprio dos sábios da capital. Pouco tempo depois (e nem digo que tenha sido por causa de eu lhe ter sacudido o pó), Tozé Brito foi para jurado num programa de televisão e o jornal onde eu trabalhava nunca mais lhe largou a braguilha. Até fechar. O jornal.

Outra vez, havia cá em cima uma iniciativa qualquer relacionada com cartunes e política, algo do género. Eu tentava convencer Lisboa para o interesse da coisa e agarrei-me a este argumento que eu pensava de peso: a obra do grande Sam era o destaque do evento. "Qual Sam?", inquiriu o chefe de serviço, com o fastio de quem tem mais que fazer do que estar outra vez a ensinar-me o que é notícia e o que não é notícia. "Então, pá, o Sam, o famoso cartunista, o Sam do Guarda Ricardo, pá, estás farto de saber, não estás?, o Sam...", respondi-lhe eu, já mais perto do que longe de o mandar à merda.
A palavra "famoso" fazia milagres naquele jornal. "Ok. Vai lá então e aproveita para entrevistar o gajo, o Sam", decidiu finalmente o chefe. E eu não fui.
O Sam, Samuel Azavey Torres de Carvalho (1924-1993), figura pública, nacional e internacional, nome imenso, mais do jornalismo sozinho e a dormir do que nós todos juntos e eventualmente acordados, tinha morrido já lá ia para aí uma década, mas eu preferi guardar segredo para os meus chefes, para não lhes dar desgosto, coitados. Belos tempos, aqueles. Que perfeita ela era, a ignorância!