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domingo, 26 de abril de 2026

Lágrimas por Marcelo

A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a, por assim dizer, política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes de más-vindas. Eu nem queria acreditar. Fiquei de todo. Os meus olhos, virgens e patrióticos como eu inteiro, viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela clandestina hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me inesperadamente em choro. Chorei de raiva, dorido pelo Senhor Presidente do Conselho. Como se atreviam aqueles gajos?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final, ainda que o caso fosse particularmente Moçambique.

No regresso a Lisboa, Marcelo foi, graças a Deus, surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas...
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se quereis que vos diga (e ainda que não queirais), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, miúdo, ignorante, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Batem leve, levemente

Meus irmãos, camaradas
Contava-se que havia um padre, famoso pregador, muito requisitado, que andava de romaria em romaria e fazia sempre o mesmo sermão. Só mudava o nome do santo. Ou da santa. E ele há histórias que também são assim, pau para toda a colher. Basta trocar-lhes a data.

Fui ver o 25 de Abril ao Porto. Porque, para quem não tem mais que fazer e é teso, o Porto é um sítio porreiro para ver o 25 de Abril e nem é preciso comprar bilhete. No Porto há milhões de camones de passagem, aos encontrões, milhares de portugueses desempregados coçando tomates e esquinas, trezentos e cinquenta e três portuenses residentes e enganados e uma praça e uma avenida destinadas a obras, ao 25 de Abril, às greves gerais, ao 1.º de Maio, aos títulos do FC Porto, aos carteiristas e aos vadios em geral. Lá fui.
O 25 de Abril correu muito bem. Vintecincodeabrilou-se ali com grande pertinácia e depois acabou. Acabou, mas eu, que sou de lágrima fácil, estava com uma vontade de urinar que já não era só vontade, era um estado de emergência, e desatei a correr como um tolinho para o WC sob as escadinhas da Rua 31 de Janeiro com a Estação de São Bento e com a polícia de choque atrás de mim não sei porquê, como se eu levasse um engenho explosivo na braguilha. Não levava. Estava apenas à rasca. À rasquíssima. E a retrete encontrava-se de portas fechadas. Por causa do feriado.
Que se segue: eu bem não queria, mas tive de ir, com uma mão à frente e outra atrás, às casas de banho da estação propriamente dita. Às tais, às míticas, às suspeitíssimas, mesmo para quem é de Fafe, que estas coisas sabem-se sempre e em todo o lado. O que se passou lá dentro não interessa, apenas faço questão de garantir que saí daqueles apertos com a honra invicta. De volta à rua, a polícia, entretanto, desinteressou-me de mim e passou a perseguir um casal de lavradores de Queimadela que tinha ido a uma consulta de otorrinolaringologia na Praça D. João I, a senhora com o azar de um xaile vermelho às costas e o homem, de boina basca na cabeça, a gorra, com um saco de plástico na mão, o falar próprio da nossa terra e "cara de marroquino", como veio a apurar-se. Nas varandas ao redor cantava-se "Grândola, vila morena" com uma afinação de oficina de automóveis. Em Fafe, não é para nos gabar, varandas diz-se igualmente sacadas, o que, sem irmos mais longe, poderá talvez incomodar o actual presidente do Sporting, mas também não é isso que aqui vem ao caso. O relógio exterior da Estação de São Bento batia as quinze em ponto. A polícia também. Após a sova da ordem, as autoridades verteram nos autos que o perigoso saco continha um cartucho com 250 gramas de sementes de pepino arménio compradas sem guia de remessa na Casa Hortícola do Mercado do Bolhão, um toquinho de chouriço de colorau, caseiro, um naco de broa por acaso fresca, um taparuere com uma cebola da monda rachada em quatro e metida em sal grosso e vinagre tinto e dois olhos de azeite, uma garrafa de vinho tinto, americano, já a meio, duas pastilhas avulsas para o enjoo na camioneta e um canivete porta-chaves com dois centímetros de lâmina. De acordo com os relatórios policiais, os dois indivíduos, um do sexo masculino e o outro não, entre os sessenta e os setenta anos, foram detidos por aspecto suspeito e posse de arma branca, imediatamente apreendida. Os peritos em minas e armadilhas mandaram afastar as pessoas e rebentaram com o resto.