quarta-feira, 22 de abril de 2026

Batem leve, levemente

Meus irmãos, camaradas
Contava-se que havia um padre, famoso pregador, muito requisitado, que andava de romaria em romaria e fazia sempre o mesmo sermão. Só mudava o nome do santo. Ou da santa. E ele há histórias que também são assim, pau para toda a colher. Basta trocar-lhes a data.

Fui ver o 25 de Abril ao Porto. Porque, para quem não tem mais que fazer e é teso, o Porto é um sítio porreiro para ver o 25 de Abril e nem é preciso comprar bilhete. No Porto há milhões de camones de passagem, aos encontrões, milhares de portugueses desempregados coçando tomates e esquinas, trezentos e cinquenta e três portuenses residentes e enganados e uma praça e uma avenida destinadas a obras, ao 25 de Abril, às greves gerais, ao 1.º de Maio, aos títulos do FC Porto, aos carteiristas e aos vadios em geral. Lá fui.
O 25 de Abril correu muito bem. Vintecincodeabrilou-se ali com grande pertinácia e depois acabou. Acabou, mas eu, que sou de lágrima fácil, estava com uma vontade de urinar que já não era só vontade, era um estado de emergência, e desatei a correr como um tolinho para o WC sob as escadinhas da Rua 31 de Janeiro com a Estação de São Bento e com a polícia de choque atrás de mim não sei porquê, como se eu levasse um engenho explosivo na braguilha. Não levava. Estava apenas à rasca. À rasquíssima. E a retrete encontrava-se de portas fechadas. Por causa do feriado.
Que se segue: eu bem não queria, mas tive de ir, com uma mão à frente e outra atrás, às casas de banho da estação propriamente dita. Às tais, às míticas, às suspeitíssimas, mesmo para quem é de Fafe, que estas coisas sabem-se sempre e em todo o lado. O que se passou lá dentro não interessa, apenas faço questão de garantir que saí daqueles apertos com a honra invicta. De volta à rua, a polícia, entretanto, desinteressou-me de mim e passou a perseguir um casal de lavradores de Queimadela que tinha ido a uma consulta de otorrinolaringologia na Praça D. João I, a senhora com o azar de um xaile vermelho às costas e o homem, de boina preta, com um saco de plástico na mão, o falar próprio da nossa terra e "cara de marroquino", como veio a apurar-se. Nas varandas ao redor cantava-se "Grândola, vila morena" com uma afinação de oficina de automóveis. Em Fafe, não é para nos gabar, varandas diz-se igualmente sacadas, o que, sem irmos mais longe, poderá talvez incomodar o actual presidente do Sporting, mas também não é isso que aqui vem ao caso. O relógio exterior da Estação de São Bento batia as quinze em ponto. A polícia também. Após a sova da ordem, as autoridades verteram nos autos que o perigoso saco continha um cartucho com 250 gramas de sementes de pepino arménio compradas sem guia de remessa na Casa Hortícola do Mercado do Bolhão, um toquinho de chouriço de colorau, caseiro, um naco de broa por acaso fresca, um taparuere com uma cebola da monda rachada em quatro e metida em sal grosso e vinagre tinto e dois olhos de azeite, uma garrafa de vinho tinto, americano, já a meio, duas pastilhas avulsas para o enjoo na camioneta e um canivete porta-chaves com dois centímetros de lâmina. De acordo com os relatórios policiais, os dois indivíduos, um do sexo masculino e o outro não, entre os sessenta e os setenta anos, foram detidos por aspecto suspeito e posse de arma branca, imediatamente apreendida. Os peritos em minas e armadilhas mandaram afastar as pessoas e rebentaram com o resto.

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