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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

No tempo das recularias

Exagerações
Quando ouvia dizer que "não cabia um alfinete", ele ficava sempre a pensar que talvez houvesse ali um bocadinho de exagero...

Ia-se às compras, por exemplo. Encontrava-se uma inesperada pechincha, coisa escandalosamente barata, e dizia-se que custava uma recularia. Era-se chamado a casa de alguém para ajeitar o telhado, levava-se preço de amigo, de vizinho, só para beber um copo, o arranjo ficava, então, por uma recularia. Isso, recularia. Pouco, poucochinho, coisa de nada, sem importância, quantia ou coisa mínima, de pouco valor, insignificância, ninharia, quer-se dizer, ridicularia. Sim, ridicularia. Talvez a nossa recularia não passasse, não passe, de facto, de uma habilidosa corruptela e simplificação de ridicularia, para evitar vergonhas com espaventosas acrobacias vocais. Talvez. Na Madeira, segundo julgo saber, há quem diga ricularia. Mas recularia soa-me bem. E servia igualmente para substantivar aqueles pequenos objectos de tostão também conhecidos como bugigangas, quinquilharias ou bagatelas, isto é, recularias. O povo pode ser linguisticamente preguiçoso, mas não é tolo: e, em Fafe e arredores, recularia ficou.