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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Entre a bonomia e a canalhice

Já chega?
Mandaram-no abaixo de Braga e ele foi. Quando entrou em Celeirós, ligou a perguntar se já chegava...

Uma vez eu era chefe, como fui quase toda a minha vida, e um chefe mais chefe do que eu telefonou-me, de Lisboa evidentemente, dando-me ordens urgentes e precisas para "fazer a folha" a uma certa e determinada pessoa de quem eu era chefe, mas menos, no Porto. E eu disse que não. Que não "fazia a folha". Primeiro, porque não se "faz a folha" a pessoas, ainda que fossem incertas e indeterminadas. Segundo, porque eu não "faço a folha" a ninguém, por uma questão de princípio e, suspeito, de religião. Terceiro, porque eu resolveria facilmente o assunto sem "fazer a folha" a um camarada de trabalho, jornalista e pai de família como eu, embora talvez um bocadinho mais resmungão e preguiçoso do que eu. Quarto, porque eu não admitiria nem mais uma sugestão, insinuação sequer, daquele género.
O chefe que era mais chefe do que eu e estava evidentemente em Lisboa, comunista medalhado e, foi-se a ver depois, cúmplice envergonhado numa monumental leva de despedimentos colectivos, acusou-me de "bonomia", enquanto, por outro lado, baixava a crista e metia o rabinho entre as pernas, pelo menos tanto quanto me deu para ver no teclado nojento do velho telefone de serviço. "Bonomia", eu? Fiquei piurso com o gajo! Só me faltava essa agora, "bonomia". Ou por outra. Fui ao dicionário procurar a palavra e afinal achei muito bem.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Motorista em teletrabalho

A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada. 

Entreguei a carteira profissional de jornalista e agora sou motorista de TVDE. Não tenho carro, não tenho carta, não sei conduzir e vejo-me à rasca com as novas tecnologias, mas motorista de TVDE é o que está a dar. Liberdade, autonomia, independência e flexibilidade no emprego. Regalo-me de passear. E nem preciso sair de casa. Sou motorista de TVDE em regime de teletrabalho.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Diálogos fafenses 57

Da profissão ao emprego vai semântica e não só
- Profissão?
- Jardineiro.
- Onde trabalha?
- Estou desempregado.
- Então porque disse que é jardineiro?
- Porque é a minha profissão.
- Mas eu perguntei-lhe...
- Perguntou-me pela profissão: sou jardineiro. Se me perguntasse pelo emprego: desempregado.
- Portanto, é ex-jardineiro...
- Não. Portanto, sou jardineiro. Ex-empregado.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Mais valia

Um questão de feitios
Silvestre recusou trabalhar com Urbano. Estava habituado ao Campos...
 
Ele era o Mais-valia da empresa. Puseram-lhe o nome. Chamavam pelo Mais-valia e o Mais-valia vinha. E ia. E ia e vinha. E vinha e ia. E tornava a ir e tornava a vir. Chamavam-no a toda a hora e momento, por tudo e por nada, era Mais-valia para aqui, Mais-valia para ali, e ele, que acreditava no valor das palavras, no poder dos hífens, andava vaidoso e feliz. O trabalho do Mais-valia era ir e vir, vir e ir, o que lhe ocupava sobremaneira o dia. Sentia-se tão necessário! Ele não sabia que a alcunha lhe ficara porque toda a gente do emprego dizia que mais valia despedi-lo.