Com princípios
Ele era um tipo com princípios e valores, sabia das suas obrigações. Casou. Casou pelo civil e casou pela Igreja. Por amor é que não!
Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro Magalhães. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro Magalhães. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 7 de maio de 2026
O meu primeiro casamento
Etiquetas:
Álvaro Magalhães,
casamento,
família,
língua portuguesa,
série Fafenses excelentíssimos,
série Memórias de Fafe,
tia Laura,
tia Lena,
tio Américo,
tio Zé da Bomba
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Adeus, até ao meu regresso
![]() |
| Foto Tarrenego! |
Para todo o serviço
Apresentou-se às inspecções. Puseram-lhe um carimbo: "Apto para todo o serviço". Foi aí que ele começou a desconfiar...
Fernando Pessoa inventou e patenteou o aerograma. Exactamente esse Fernando Pessoa, o da "Mensagem" e dos heterónimos, o do Martinho da Arcada e da Brasileira, o da Ofélia e mais nada, o Camões com dois olhos - se não sabiéis, ficais a saber. O aerograma era uma carta sem envelope, autossuficiente, e andava de avião. Escrevo era e andava, porque não sei se ainda há aerogramas. Se há, são fáceis de reconhecer: os aerogramas são missivas levezinhas e contorcionistas que se dobram e fecham sobre si mesmas. É procurar nos circos ou nos manicómios.
O aerograma foi um enorme sucesso durante a Guerra Colonial. Era o meio de comunicação preferido entre as famílias cá na então chamada metrópole e os militares enviados lá para o então chamado Ultramar, para o campo de batalha do regime. O aerograma matava saudades entre Portugal e África, e era uma matança porreira, ao contrário da outra, que doía mais. Mas também inventava amores, alimentava namoros, alcovitava casamentos. Contava histórias, quer-se dizer.
Em Fafe, os aerogramas eram vendidos no palacete do Grémio da Lavoura, onde hoje se instala o Arquivo Municipal. Entrava-se pela porta das traseiras, e está certo, porque a guerra era uma vergonha e as vergonhas devem ser escondidas. Eu ia comprar aerogramas para a Mila Tripa, que se tornara madrinha de guerra do soldado Valentim, que eu não conhecia. Nem ela. A Mila trabalhava na Fábrica Alvorada e era como se morasse connosco, no Santo, era da família a bem dizer, uma espécie de tia e irmã mais velha, mulher extraordinária que o tempo me obrigou a admirar e respeitar cada vez mais.
Os aerogramas eram oficialmente grátis e já não me lembro quanto é que custavam realmente. Que se segue? Aerograma para lá, aerograma para cá, fotografia para cá, fotografia para lá, e poupando nos pormenores, a Mila e o Valentim passaram naturalmente a namorados e noivaram por correspondência. O soldado Valentim deixou as pernas na guerra, mas voltou homem inteiro e bom. Ele e a Mila casaram. E foi, para todos os efeitos, um final feliz enquanto durou.
Noutros casos, não. Às vezes os aerogramas não vinham. Chegava um telegrama. Um telegrama e, a seguir, um caixão. Vi disso em Fafe naqueles anos cinzentos. Apesar da meninice, vivi-o e senti-o profundamente. Vezes demais. Pelo menos 40 jovens militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar. O funeral do Zeca Lopes - que era dos nossos, da nossa rua - marcou-me para toda a vida. Creio que há coisa de trinta anos escrevi e disse para a rádio nacional uma crónica a pretexto deste episódio que me persegue, mas não sei dela, alguém de Fafe pediu-ma, mandei-a e decerto perdeu-se. Perdi-a. E assim não me resolvo.
O aerograma foi um enorme sucesso durante a Guerra Colonial. Era o meio de comunicação preferido entre as famílias cá na então chamada metrópole e os militares enviados lá para o então chamado Ultramar, para o campo de batalha do regime. O aerograma matava saudades entre Portugal e África, e era uma matança porreira, ao contrário da outra, que doía mais. Mas também inventava amores, alimentava namoros, alcovitava casamentos. Contava histórias, quer-se dizer.
Em Fafe, os aerogramas eram vendidos no palacete do Grémio da Lavoura, onde hoje se instala o Arquivo Municipal. Entrava-se pela porta das traseiras, e está certo, porque a guerra era uma vergonha e as vergonhas devem ser escondidas. Eu ia comprar aerogramas para a Mila Tripa, que se tornara madrinha de guerra do soldado Valentim, que eu não conhecia. Nem ela. A Mila trabalhava na Fábrica Alvorada e era como se morasse connosco, no Santo, era da família a bem dizer, uma espécie de tia e irmã mais velha, mulher extraordinária que o tempo me obrigou a admirar e respeitar cada vez mais.
Os aerogramas eram oficialmente grátis e já não me lembro quanto é que custavam realmente. Que se segue? Aerograma para lá, aerograma para cá, fotografia para cá, fotografia para lá, e poupando nos pormenores, a Mila e o Valentim passaram naturalmente a namorados e noivaram por correspondência. O soldado Valentim deixou as pernas na guerra, mas voltou homem inteiro e bom. Ele e a Mila casaram. E foi, para todos os efeitos, um final feliz enquanto durou.
Noutros casos, não. Às vezes os aerogramas não vinham. Chegava um telegrama. Um telegrama e, a seguir, um caixão. Vi disso em Fafe naqueles anos cinzentos. Apesar da meninice, vivi-o e senti-o profundamente. Vezes demais. Pelo menos 40 jovens militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar. O funeral do Zeca Lopes - que era dos nossos, da nossa rua - marcou-me para toda a vida. Creio que há coisa de trinta anos escrevi e disse para a rádio nacional uma crónica a pretexto deste episódio que me persegue, mas não sei dela, alguém de Fafe pediu-ma, mandei-a e decerto perdeu-se. Perdi-a. E assim não me resolvo.
Etiquetas:
25 de Abril,
aerogramas,
Álvaro Magalhães,
Arquivo Municipal de Fafe,
correio,
fascismo,
guerra,
Guerra Colonial,
Manuel Valentim,
Mila Tripa,
série Fafenses excelentíssimos,
série Memórias de Fafe,
Ultramar,
Zeca Lopes
Subscrever:
Mensagens (Atom)
