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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O pior que se podia fazer a um filho

O filho do meio
O Dia do Filho do Meio existe e celebra-se a 12 de Agosto. Quer-se dizer. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.

Belos tempos. Em Fafe ninguém se divorciava. O divórcio pura e simplesmente não existia na nossa terra, embora 1910 já tivesse sido há um ror de anos. Já agora: o divórcio foi legalizado em Portugal no dia 3 de Novembro de 1910, logo após a implantação da República. Continuando. Apesar de legal, a palavra divórcio era como o palavra cancro - não fazia parte do léxico fafense, graças a Deus, éramos bastante monárquicos a esse respeito. Curiosamente, não me lembro que, entre nós, a palavra amor tivesse também grande uso por aquela altura. Divórcio não se dizia nem se pensava, era pecado. E, definitivamente, não se praticava. Quem ousasse, ficava marcado, nunca mais seria pessoa de bem, aceite pela sociedade local, mais valia pegar nos tarecos e ir para o mais longe possível, para o fim do mundo, lá para o Porto, onde havia noite e a moral já não era precisa. A mulher fugia de casa, desaparecia, o homem deixava a mulher, atravessava a rua, ia morar com outra, isso acontecia regularmente em Fafe, era aceitável, mas divórcio não, que parecia mal. Estava-se fora da mulher, estava-se fora do homem, como dizia o povo, tudo dentro dos conformes, mas sem papel. Marido e esposa encornavam-se entusiasticamente, odiavam-se com todo o zelo, mas não se divorciavam, porque, os antigos sabiam-no bem, o casamento é sagrado. Ele enchia-a de porrada todos os dias, quer-se dizer, todas as noites, quando se viam, e ela às vezes enchia-o de porrada a ele, mas que lindo que era festejar as bodas de prata e as bodas de ouro pelo menos, sempre na igreja, com a bênção e muitos elogios e conselhos do senhor padre, que não percebia nada de casamento e conjugalidade, por falta de comparência, mas achava que sim. Divórcio nunca, meu Deus! Isso não se fazia. Por causa das crianças, dos filhinhos, coitadinhos, marmanjos e marmanjas com quase 50 anos, casados, mal casados, divorciados e ajuntados, já com os seus próprios filhos, das mais diversas proveniências, mas que também gostavam muito de ver os velhotes juntinhos. E viviam no Porto.

O famoso psicólogo Eduardo Sá declarou uma vez no jornal Diário de Notícias que "divórcio" é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho. Eu, sem o saber e a experiência do Prof. Doutor Eduardo Sá, não concordo, embora ninguém me tenha perguntado nada. A mim parece-me que "sopa" é que é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho.
Aliás, para além de "sopa", há outras coisas mais violentas do que "divórcio" que se podem dizer a um filho. A saber: "cama, já!", "esse telemóvel serve muito bem!", "uma semana sem sair!", "um mês sem tablet!", "meio ano sem gomas!", "foste deixado cá em casa pelos ciganos", "come uma banana!", "peixe é bom", "não, ela não pode dormir cá!", "acabou-se a mesada!", "podes ajudar aqui?", "empresta à tua irmã!", "dá um beijinho à avó!",  "pergunta ao pai!", "pergunta à mãe!", "o pai morreu", "a mãe morreu".

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O palito e os amorfos

Coração de ouro
Tinha um coração de ouro. Pô-lo no prego e comprou um carro em segunda mão.

O palito faz falta. Faz falta e faz parte. O palito faz parte de um português bem vestido, muito mais do que, por exemplo, o próprio chapéu, que já quase não se usa, ou a bengala, que foi praticamente abolida, e o palito lá está, malabarista, a bailar entre os dentes, de um lado ao outro da boca, para cima e para baixo, sem mãos, só à força de lábios e de língua, fazendo justiça à cabritada que o antecedeu, ainda que sejam apenas sete da manhã. O palito é, por assim dizer, indumentária, adereço de luxo, roupa de domingo metida a cotio. Sapatinho dirópito, meiinha branca, fatinho com colete, raminho de alfádega na orelha, gravata ou não, mas palito, o palito dançarino, rapioqueiro, às vezes palito e cigarro sem filtro, mais difícil ainda, porque são precisos dois para dançar o tango, assim se apresenta o português que se preza, o tuga à moda antiga, em dia de coisa e tal. E o palito realmente presta-se.
Basta ver. Temos a Olívia Palito, que é a namorada do Popeye. Temos a Manuel Palito, que matou duas mulheres e andou 34 dias a monte. Temos A Vaca Que Ri Palitos. Temos os palitos la reine, mais conhecidos como biscoitos de champanhe. E temos Valery Gergiev, amigo do peito de Vladimir Putin e renomado maestro russo que dirige orquestras com um palito a fazer de batuta. Opalito também pode ser pedra sintética translúcida, espécie de opala de imitação muito usada na joalharia e em terapias de cristal, segundo leio.
O palito guarda-se no paliteiro. Ou no bolso do peito do casaco ou do colete ou da camisa. Ou atrás da orelha, junto ao cigarro meio fumado ou à alfádega, sempre a postos para usos futuros. Os paliteiros do Miranda, em Fafe, são provavelmente os mais famosos paliteiros do mundo, mas hoje em dia só existem de memória e não é geral.
Aqui por estes lados, nas nossas aldeias, tínhamos também o palhite, que não era palito para escarafunchar os dentes ou fazer figura, mas mais propriamente fósforo para acender a candeia, que era "a luz". Os palhites ou palitos de fósforo podem chamar-se amorfos ou fósforos vermelhos. Amorfos, dizem os entendidos, porque só se inflamam a alta temperatura. Aos fósforos ou palhites, os nossos antigos chamavam-lhes também "lumes".
O palito, quando aos pares, incomoda um bocadinho o entrar em casa. Isto é, tem de se entrar de lado. Neste tão popular contexto, os palitos chamam-se cornos.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Os amantes

Foi comprar cigarros e não voltou
Era uma esposa exemplar, uma esposa à moda antiga, amantíssima. Todos os dias de manhã ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e não voltou.

Sempre gostei da palavra "amantes". Desde pequeno. Mesmo antes de ter noção do valor estremecido que a palavra "amantes" tem no cinema, nos romances, na poesia. Aprendi-a de cor, sem a saber direito. Claro que nesse tempo os amantes eram um senhor numa Florett que se encontrava às escondidas com uma senhora, já fora da vila, e depois iam os dois para uma quelha fazer o que tinha de ser feito, de preferência na furtiva Quelha do Santo Velho, que agora é uma quase avenida, uma muito bem frequentada rua de cafés e escolas. O senhor e a senhora eram casados, mas não reciprocamente. Naquele antigamente não era recomendado e muito menos obrigatório o uso do capacete. Derivado a isso, a senhora às vezes tinha filhos que não eram parecidos com o pai, quero dizer, com o marido ajuramentado.
O senhor da Florett e a senhora malsatisfeita eram "amantes", estavam amantizados, amigados. Andavam metidos um com o outro, isto é, com a outra. Tinham um caso, dir-se-ia hoje, e era um segredo muito mal guardado. Toda a gente da terra sabia. Fafe ainda hoje é uma terra pequena. Cochichava-se, mexericava-se, emprenhava-se também pelos ouvidos. Num misto de recriminação e inveja, os amantizados eram olhados de esguelha, havia quem mudasse de passeio, quem baixasse os olhos, quem deixasse de os salvar. Isto era com as mulheres. Às amantes, a sacristia chamava-lhes pecadoras, adúlteras. Com eles, parecia que havia uma espécie de respeito, de admiração: aos homens, o povo chamava-lhes pinantes, verrumadores, homes do caralho.
Mas o que havia sobretudo era muita dor de... cotovelo.
As mulheres falavam com orgulho no "meu amante" e batiam no peito, nos peitos, com toda a força do corpo, sem vergonha e sem vergonhas, reclamando o que lhes pertencia de direito a troco do que davam com todo o gosto. Os homens faziam de conta. Os cornos não eram os últimos a saber. Se calhar eram os primeiros. Só podia dar para o torto. E dava.

Lembro-me muito bem, de uma vez, exactamente no meu Santo Velho: houve uma espera, pancadaria de rebimba o malho entre mulher legítima e a outra, na disputa por um lingrinhas que se ria como um perdido e era feio como um calhau - outras competências teria. Parecia as festas da vila, eram girândolas de sapatos, brincos e cabelos pelo ar, orelhas esgaçadas, saias arregaçadas, blusas esventradas, recíprocas recomendações de higiene íntima guinchadas, até parecia nos altifalantes do Baptista, com indicações precisas sobre os locais do corpo que careceriam de arejo, mais arranhões e bofetadas, encontrões e apalpões, tropeções e tudo ao molho, tudo a aproveitar, tudo a aplaudir.
Foi mesmo assim, palavra de honra. A amásia deu parte de fraca e deixou-se ficar no chão. Espumava por todos os lados. O rosto passava-lhe do vermelho ao verde, que até parecia um semáforo. Nós em Fafe ainda não sabíamos o que era um semáforo, mas era aquilo. A ofendida batia no ar e falava ao mesmo tempo - "A badalhoca enche-o de gemadas para ele não lhe sair de cima". E, perante a robustez do argumento, à outra deu-lhe o fanico, cheia de vergonha e ranho, esparrando-se ao comprido...
Acorreu o senhor Zé Manco, que tinha um tasco-mercearia, A Primorosa, e era muito jeitoso para dar injecções. Para além disso, o molageiro gostava também de pôr a mãozinha no sopeirame local. "É afastar, faz favor, é dar espaço, para ela respirar", dizia o senhor Zé Manco nos seus domínios, abrindo de vez a blusa da amantizada, baixando-lhe um quase nada o sutiã e expondo um quase tudo de uns seios brancos como a neve, coisa linda de se ver. Depois, uma caneca de água fresca cabeça abaixo da desmaiada, "para a mulher espertar". E a mulher espertou.
E eu fiquei ali a gostar ainda mais da palavra "amantes".

Por essa altura, a extraordinária e breve Janis Joplin berrava desalmadamente por um Mercedes Benz. Eu, na minha equívoca inocência, só pedia muito baixinho a Deus Nosso Senhor que me desse uma Florett. Uma Florett! E, se não fosse abuso, se não fosse pedir demais, que me desse também muitas gemadas, amém.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 65

Facebook
Perguntaram-lhe:
- Mas você não está no Facebook?!...
E ele respondeu:
- Eu não. Sou casado e razoavelmente monogâmico.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O aeroporto é nosso!

Do monólogo ao solilóquio
Tomou a palavra logo a seguir a si próprio, desvanecido com tamanha facúndia. Falou, falou, falou, até que a voz lhe doeu. Então sentou-se e aplaudiu-se entusiasticamente.

Foi no final de 2023. A notícia saiu no insuspeito tablóide britânico The Sun e portanto só podia ser verdade: Fafe era "a cidade mais barata de Portugal". Pelo menos, para inglês ver. Quem me alertou para a magnífica novidade foi o nosso Pedro Dantas, que está lá na Velha Albion e sempre atento a estas extraordinarices. De acordo com o bem informado artigo, que, nem de propósito, confunde o Palacete dos Dantas com a Igreja Românica de Arões, Fafe, "uma cidade pouco conhecida em Portugal", ficou em primeiro lugar num ranking de barateza turística elaborado por uma entidade alegadamente chamada Porto Travel Guide. Mais de cem cidades portuguesas terão sido "analisadas por especialistas", e Fafe ganhou, à frente de Oliveira de Azeméis, Famalicão, Ovar e Amarante, só para se ter uma ideia.
E o que é que Fafe tem? Pois, para além da igreja e do palacete levados ao engano, Fafe tem a Casa do Penedo e a Casa do Santo Velho, na minha rua, e "um enorme parque aquático ao ar livre", embora os indígenas prefiram refrescar-se "no reservatório local chamado Barragem de Queimadela". Para além disso, garante o indesmentível The Sun, Fafe tem "comida e bebida baratas", "restaurantes baratos e hotéis económicos". É pouquinho? Mas é de boa vontade.
Isto aqui vai ser outra vez o fim do mundo, vamos ficar a nadar de camones. E convém que parem imediatamente os estudos uns atrás dos outros que só dão despesa e não vão a lado nenhum. Nem Portela, nem Portela + 1, nem Portela + 2, nem Montijo, nem Alcochete, nem Santarém, nem Pegões, nem Rio Frio, nem Poceirão, nem Beja, nem Monte Real, nem Alverca. Nada disso. O novo aeroporto de Lisboa só pode ser em Fafe! Em Fafe, mais exactamente na freguesia de Golães, cumprindo-se enfim a viperina profecia da maledicência de outros tempos - assunto que metia emigração, maridos fora, mulheres sozinhas, desejo, amantes, adultério, "cornos", portanto "aviões", portanto "campo de aviação", falatório desmoderado, boatos, calúnias pela calada, onzenices, muito veneno e ruindade por parte de quem falava só por falar, e talvez também inveja.
Aliás, Fafe tem uma história muito rica no que diz respeito a aviões, inclusive de papel, helicópteros, cestinhas, papagaios, bolinhas de sabão e produtos afins, uma longa e bonita tradição. Uma vez até caiu um avioneta na Cumieira, que saiu nos jornais e foi o nosso orgulho até hoje. E agora, finalmente, temos o aeroporto, o jackpot, a sorte grande. O novo aeroporto de Lisboa é como o Leites. "O Leites é nosso!" e o aeroporto também.
Ó gente da minha terra, abaixaide-vos! Vai vir charters...