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sábado, 2 de maio de 2026

Por mor de

Amai-vos uns aos outros (mas devagarinho)
Ele padecia de um tipo particularmente violento de paronímia. Amiúde confundia bondade com bondage - o que, convenhamos, é deveras inconveniente.

"Ó mor, mor!", dizem elas e dizem eles, namorando-se ou apenas chamando-se, às vezes agredindo-se, querendo dizer, tipo, amor. Elas e eles de todos os géneros e feitios e estratos sociais, um "mor" universal e transversal, ao contrário do que eu cheguei a pensar. Eu supunha que isto do "ó mor!" era conversa rafeira, chunga, patoá de bairro, mas estava enganado, é "ó mor!", tipo, para toda gente, pobre, rica e remediada, analfabeta e doutorada, provavelmente tenho de começar a sair de casa.
É claro que também há o mor que se lê e diz mór, e que é uma redução de maior, e não de amor, que se usa, por exemplo, na frase "assunto da mor importância" e, mais frequentemente, ligado por hífen ao nome que qualifica para indicar superioridade hierárquica ou chefia, ou até suprassumismo, caso de palerma-mor.
Maior, em Fafe, também se dizia moor e, sobretudo, maor, que a minha mãe ainda diz e eu, às vezes, por graça, também. Mas aonde eu queria chegar, e já cá estou, era ao "por mor de", lendo-se e dizendo-se, neste caso, "por môr de", como dizia tão bem a minha querida avó de Basto. "Por mor de" quer dizer "por causa de", "em atenção a", "para", "por amor de" ou, ainda melhor, "derivado a", na pândega, assertiva e estupidamente criticada adaptação de António Lobo Antunes, que eu tanto gosto de usar e abusar. É isso. Vou a correr, por mor de não me atrasar. Ou por outra: corro, derivado à pressa...

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Os amantes

Foi comprar cigarros e não voltou
Era uma esposa exemplar, uma esposa à moda antiga, amantíssima. Todos os dias de manhã ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e não voltou.

Sempre gostei da palavra "amantes". Desde pequeno. Mesmo antes de ter noção do valor estremecido que a palavra "amantes" tem no cinema, nos romances, na poesia. Aprendi-a de cor, sem a saber direito. Claro que nesse tempo os amantes eram um senhor numa Florett que se encontrava às escondidas com uma senhora, já fora da vila, e depois iam os dois para uma quelha fazer o que tinha de ser feito, de preferência na furtiva Quelha do Santo Velho, que agora é uma quase avenida, uma muito bem frequentada rua de cafés e escolas. O senhor e a senhora eram casados, mas não reciprocamente. Naquele antigamente não era recomendado e muito menos obrigatório o uso do capacete. Derivado a isso, a senhora às vezes tinha filhos que não eram parecidos com o pai, quero dizer, com o marido ajuramentado.
O senhor da Florett e a senhora malsatisfeita eram "amantes", estavam amantizados, amigados. Andavam metidos um com o outro, isto é, com a outra. Tinham um caso, dir-se-ia hoje, e era um segredo muito mal guardado. Toda a gente da terra sabia. Fafe ainda hoje é uma terra pequena. Cochichava-se, mexericava-se, emprenhava-se também pelos ouvidos. Num misto de recriminação e inveja, os amantizados eram olhados de esguelha, havia quem mudasse de passeio, quem baixasse os olhos, quem deixasse de os salvar. Isto era com as mulheres. Às amantes, a sacristia chamava-lhes pecadoras, adúlteras. Com eles, parecia que havia uma espécie de respeito, de admiração: aos homens, o povo chamava-lhes pinantes, verrumadores, homes do caralho.
Mas o que havia sobretudo era muita dor de... cotovelo.
As mulheres falavam com orgulho no "meu amante" e batiam no peito, nos peitos, com toda a força do corpo, sem vergonha e sem vergonhas, reclamando o que lhes pertencia de direito a troco do que davam com todo o gosto. Os homens faziam de conta. Os cornos não eram os últimos a saber. Se calhar eram os primeiros. Só podia dar para o torto. E dava.

Lembro-me muito bem, de uma vez, exactamente no meu Santo Velho: houve uma espera, pancadaria de rebimba o malho entre mulher legítima e a outra, na disputa por um lingrinhas que se ria como um perdido e era feio como um calhau - outras competências teria. Parecia as festas da vila, eram girândolas de sapatos, brincos e cabelos pelo ar, orelhas esgaçadas, saias arregaçadas, blusas esventradas, recíprocas recomendações de higiene íntima guinchadas, até parecia nos altifalantes do Baptista, com indicações precisas sobre os locais do corpo que careceriam de arejo, mais arranhões e bofetadas, encontrões e apalpões, tropeções e tudo ao molho, tudo a aproveitar, tudo a aplaudir.
Foi mesmo assim, palavra de honra. A amásia deu parte de fraca e deixou-se ficar no chão. Espumava por todos os lados. O rosto passava-lhe do vermelho ao verde, que até parecia um semáforo. Nós em Fafe ainda não sabíamos o que era um semáforo, mas era aquilo. A ofendida batia no ar e falava ao mesmo tempo - "A badalhoca enche-o de gemadas para ele não lhe sair de cima". E, perante a robustez do argumento, à outra deu-lhe o fanico, cheia de vergonha e ranho, esparrando-se ao comprido...
Acorreu o senhor Zé Manco, que tinha um tasco-mercearia, A Primorosa, e era muito jeitoso para dar injecções. Para além disso, o molageiro gostava também de pôr a mãozinha no sopeirame local. "É afastar, faz favor, é dar espaço, para ela respirar", dizia o senhor Zé Manco nos seus domínios, abrindo de vez a blusa da amantizada, baixando-lhe um quase nada o sutiã e expondo um quase tudo de uns seios brancos como a neve, coisa linda de se ver. Depois, uma caneca de água fresca cabeça abaixo da desmaiada, "para a mulher espertar". E a mulher espertou.
E eu fiquei ali a gostar ainda mais da palavra "amantes".

Por essa altura, a extraordinária e breve Janis Joplin berrava desalmadamente por um Mercedes Benz. Eu, na minha equívoca inocência, só pedia muito baixinho a Deus Nosso Senhor que me desse uma Florett. Uma Florett! E, se não fosse abuso, se não fosse pedir demais, que me desse também muitas gemadas, amém.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Diálogos fafense 80

Quando a ordem dos factores é preponderante
O pai: - E tem nome essa tua paixão?
A filha: - Tem. Chama-se Mónica.
O pai: - Mónica?
A filha: - Mónica.
O pai: - Mónica, do género José da Silva Mónica?
A filha: - Não. Mónica, tipo Mónica da Silva José.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Amor era coisa de todos os dias

Ou por outra
O amor é muito lindo. O "jackpot" do Euromilhões é muito mais.

Casámo-nos no Dia dos Namorados, mas não sabíamos. Era um dia luminoso por si só. Naquele tempo não se sabia que havia Dia dos Namorados e não fazia falta nenhuma: ainda não tinham sido inventadas as lojas de inutilidades fofinhas nem as ementas de "jantar de namorados" em restaurantes fatelas e oportunistas. Havia o amor. E o amor não precisava de dias marcados no calendário, datas certas. O amor era coisa de todos os dias. Namorava-se a cotio e pronto, e namorar era bom. Namorar é bom! Casámo-nos no Dia dos Namorados, faz hoje exactamente um número considerável de anos. E é como se tivesse sido ontem, como se fosse amanhã.
Mas o que eu queria realmente dizer, antes que me esqueça: o Dia dos Namorados é uma treta; o aniversário do nosso casamento, não. E o sol continua a brilhar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 63

Diz-me Baudelaire, meu amor
- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Coitadinho...
- Coitadinha...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 62

Ó mor, mor
- Ó mor, mor! Tu mamas, mor?
- Ó mor, claro que tamo, mor.
- Diz-me a verdade, mor. Tu mamas, mor?
- Tamo, mor. Tamo tipo bué, tás a ver, mor?
- Não, mor, tipo a sério, mor, tu mamas-me tipo... a sério, mor?
- Tamo-te, mor. Tamo-te tipo, mor.
- Mamas-me mesmo, mor?
- Tipo agora, mor?...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ela teve dois amores (pelo menos)

O mês do amor
Fevereiro é, segundo dizem, o mês do amor. Talvez por ser mais curto.

Sentada ao meu lado na sala de espera do hospital, a mulher, robusta, de camisola caveada, exibia um potentíssimo braço de boxista peso-pesado, coisa de meter medo. Pelo menos a mim. E no sítio do costume, a parte externa do bíceps, ou cabeça longa, como se tivesse ido à guerra, lá estava escrito e jurado, na tinta imorredoura da tatuagem às três pancadas: "Amor Maneca". E por cima do amado e levemente desbotado "Maneca", mesmo ao centro e aproveitando apenas o "e", sobressaía uma segunda demão, arrependimento ou remedeio, num verde mais fresco e ostensivamente carregado, que dizia: "Zé". "Amor Zé". Pois, é a vida...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Quem não tem cão...

Um caso sério
 Aprecio as pessoas que dizem "não gosto de relações de apenas uma noite", "sempre fui de namoros sérios". Mas ainda não percebi quantas noites são precisas para que um namoro passe a ser sério e a partir de quantas noites se pode acabar tudo sem que fique a ideia de que afinal era só gozo.

O cão é, desde tempos imemoriais, uma das mais consistentes artimanhas do homem para a queca. Quem tem tesão compra um cão, diz o povo e com razão. Porque o animal - aflito, ziguezagueante, ganinte, de orelhas, rabo e tudo arrebitado -, parecendo embora que sai à rua em busca desesperada por parceira ou parceiro de quatro patas onde possa aliviar o stresse, vem mas é tratar do cio do dono. Ou da dona. Por procuração.
Largado à frente, sem trela, "Vai, Corisco, vai, arranja-me uma gaja! Um gaja boa!", o cão é um batedor sexual para prazeres alheios. Evidentemente tem de se entender com o outro animal, mas isso é truque, pretexto para o dono chegar à dona, como todos sabemos, e depois eles, dona e dono, ou dono e dono, ou dona e dona, depois de conversarem resumida ou detalhadamente sobre raças e rações, que se entendam e se acamem. E muitas vezes entendem-se e acamam-se. Olhemos à nossa volta, sem falsos pudores: quantos namoros e casamentos, que nós tenhamos conhecimento ou desconfiemos, não foram intermediados por cães? Quantos engates e quantas pinocadas avulsas?
Passear o cão, é assim que se diz da boca para fora, mas querendo dizer outra coisa das calças para dentro. Há até quem dê treino específico ao cão, para loiras ou morenas, gordas ou magras, inteligentes ou burras, e assim sucessivamente e vice-versa. É verdade, ele há cães especialistas. Cães de um certo tipo, de uma determinada caça.
O cão é, portanto, um alcoviteiro. Mas já foi mais, no tempo em que não havia Facebook. No tempo em que se mandava uma cadela ao espaço e a cadela chamava-se Laika. Hoje chamar-se-ia Like. É. As chamadas redes sociais na internet são agora, particularmente para casados, o principal móbil do engate, o menu do sexo à mão de semear, e esta nova realidade veio prejudicar sobremaneira os cães, cada vez mais substituídos, abandonados e abatidos, por aparentemente já não serem precisos. Quem não tem cão, caça com Facebook, diz-se também hoje em dia, estendendo a lamentável desconsideração aos gatos, porque uma desgraça nunca vem só e grão a grão enche a galinha o papo.
Ora bem. Correndo o risco de fazer um título à Correio da Manhã, eu diria que o Facebook está a matar o cão. Aos poucos. E, todavia, acho que compreendo esta paulatina porém irreversível substituição do "animal doméstico" pela "aplicação social", porque a verdade é só uma: comprar ou adoptar um cão dá provavelmente mais trabalho e despesa do que criar um perfil no Facebook, sendo que o resultado final é o mesmo. Nestes tempos conturbados, o meu mais descarado elogio vai, pois, para as almas caridosas, afogueados adúlteros, que acumulam cão e Facebook, pelo sim e pelo não, e só temos de lhes agradecer, em nome dos animais.
Salvemos o cão! Porque ainda há algumas diferenças a considerar entre o cão e o Facebook, a não ser que Facebook seja o nome do cão. Para além de que o Facebook, o da internet, tem aquele perigo (há casos!) de a mulher andar a pôr os cornos ao marido e o marido andar a pôr os cornos à mulher - cada qual com o seu perfil secreto, mais ou menos falso e sobretudo deveras criativo -, até ao dia em que se engatam como desconhecidos e depois se encontram para o que já sabemos. É então que marido e mulher reciprocamente infidelíssimos descobrem que afinal foram feitos um para o outro.