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quarta-feira, 27 de maio de 2026

A arte dos esbichadores

Comida substantiva
Ele gostava de comida substantiva. E enchia-a de adjectivos.

Os esbichadores são uns artistas, um espectáculo, coisa bonita de se ver. Esbichador é quem esbicha e esbichar é limpar com os dentes os ossos ou as espinhas da carne ou do peixe que se come à mão. Quer-se dizer, esbichar é o mesmo que esburgar, palavra naturalmente sem serventia na boca do povo da nossa terra, pelo menos do povo do meu tempo. Portanto, esbichar e esbichadores, fiquemo-nos por aí. O Bô da Bomba era um grande esbichador. Ou por outra. O meu avô era um bom garfo e moderado copo, mas, à mesa ou ao balcão, brilhava sobretudo como esbichador. Assim. Servia-se, comia apressadamente, tirava o que era possível, em primeira instância, do esqueleto da carne ou do peixe, repetia, quer-se dizer, tornava a servir-se, continuava a comer como se fosse uma urgência e ia colocando os ossos e as espinhas num montinho ao lado do prato, digo bem, não na beira do prato mas à beira do prato, isto é, em cima da toalha. No final, com o prato completamente vazio, voltava aos ossos ou às espinhas, agora com todos os vagares do mundo, vistoriava-os um a um ou uma a uma, minuciosamente, perseverante, implacável, e fazia-lhes a limpeza final, uma e outra vez, de uma ponta à outra e vice-versa, como quem toca gaita de beiços ou flauta de amolador, tecnicamente irrepreensível na sua execução, com um entusiasmo e destreza que, meus amigos, só apetecia elogiar. Os ossos ou as espinhas ficavam então reduzidos à sua mais ínfima essência, ossos e espinhas sem mais, sem um nico de carne, um átomo de peixe, ossos e espinhas sem mais ponta por onde lhe pegar, impecáveis como se tivessem passado por ácido, asseados e luminosos como bibelôs de domingo. Ossos e espinhas esbichados como manda a lei, impolutos, dir-se-ia até que prontos para outra, não fora o caso de evidentemente não terem mais nada para se comer, nem ao microscópio.

Ora bem. Eu já andava esquecido destas habilidades antigas, da velha arte dos grandes esbichadores, com o Bô da Bomba logo à cabeça, quando outro dia vi, e nem queria acreditar, um jovenzinho de onze/doze anos exactamente nos mesmos preparos, à mesa do restaurante, aviando costelinha atrás de costelinha com soberana categoria, impávido e sereno, deliciado, delicado, devagar, indiferente, enquanto pôde, às mansas reprimendas da mãe, envergonhada sem razão, porque o menino estava a fazer tudo bem. As belas costelinhas na brasa comidas à mão, uma primeira vez, os ossos colocadas numa pilha muito organizada, autêntica obra de arte, engenharia pura, aqui na borda do prato, e depois uma segunda passagem, definitiva, osso a osso, o rapazinho sempre silencioso e composto, compenetrado, sem se sujar, atento a todos os pormenores, a todos os bocadinhos, até ao sumo dos ossos, mas tudo feito com uma elegância e um requinte que só vistos. Carago, de repente era o meu avô que estava ali, mas em pequeno e com classe! Se quereis que vos diga: quase me levantei do nosso canto para ir lá dar um abraço ao rapaz e talvez um sermão à mãe. Por acaso não fui, e foi o que fiz melhor.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Simplesmente João

Vais chatear o Camões
"Quando eu morrer - dizia -, vou chatear o Camões". Ele tinha a mania das grandezas. Sonhava com o Panteão...

Se há um consenso nacional é este: de presidente da câmara para cima, os nossos políticos são todos doutores. Doutores ou engenheiros, mas doutor engloba tudo, porque simplifica, dá muito mais jeito e tem outro sainete. E como gostam eles de ser doutores, mesmo que não sejam. E como gostam eles que lhes chamem doutores, e nunca se desmancham. E como gostam eles de se tratarem uns aos outros por "ó doutor", naquele mundo que é só deles e de onde não conseguem sair. E, ipso facto, o primeiro nome deles fica a ser Doutor, não há volta a dar. E assinam Dr. como se assim tivessem saído da pia baptismal.
Mas conheci um político que destoava, e apenas um. Uma honrosa excepção, de que outro dia me tornei a lembrar, vendo-o por acaso na televisão, suponho que dando uma entrevista ao Manuel Luís Goucha, na TVI. Para que conste, essa ave rara chama-se João Soares, tem 75 anos, é ex-eurodeputado, ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ex-candidato à liderança do PS contra José Sócrates, ex-deputado à Assembleia da República, ex-presidente da Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e passou como uma bala por ministro da Cultura, embora tenha apenas oferecido umas "salutares bofetadas" a dois colunistas do jornal Público, o suficiente, porém, para desgraçar-se...
Às vezes, por dever de ofício, tive de lidar com a fauna política. E quando contactei João Soares com o, achava eu, indispensável, repetido e subserviente "senhor doutor" na ponta da língua, levei logo para tabaco, e, se não me engano, o assunto até era mesmo esse, tabaco, cigarros, qualquer coisa relacionada com os malefícios do tabaco ou com as proibições de fumar, não me lembro bem. Abri logo com o "senhor doutor" da ordem, mesmo antes do boa-tarde. "Não me chame doutor, eu não sou doutor", interrompeu-me ele, como se acabasse de ser insultado. Fiquei à rasca. - Ó diabo, já fiz merda. O gajo será engenheiro? Professor doutor? Professor doutor arquitecto? Professor doutor arquitecto engenheiro mestrando, isso, mestrando? - pensei. E perguntei: - Mas se não lhe chamo doutor, então como é que eu o trato, senhor doutor?...
E ele respondeu-me: - João. Trate-me por João. É o meu nome.

Por outro lado, havia aquele conhecido presidente de câmara da Área Metropolitana do Porto que se fazia e faz passar por engenheiro e não era nem é engenheiro. Mas assinava Engenheiro e impunha que lhe chamassem Engenheiro. Investiguei a coisa para o jornal 24horas e contactei a autarquia solicitando esclarecimentos. O assessor do Senhor Engenheiro foi incumbido de me pagar um lauto almoço para que a notícia não saísse. E a notícia não saiu. Mas apenas porque o meu jornal me pôs no olho da rua, sem aviso nem vergonha, antes que eu a pudesse escrever. Não tive tempo.