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sexta-feira, 27 de março de 2026

Deus lhe conserve a vistinha!

Órgãos no mercado
Comprar órgãos no mercado, embora possa salvar vidas, é crime, dá dez anos de prisão. Concertinas ou acordeões, vá que não vá...

Havia um cego que tinha olho. Era de fora, o cego, não me lembro de onde é que vinha nem quem o trazia, mas ele fazia a feira de Fafe, todas as semanas, e safava-se satisfatoriamente, segundo me parecia. Às quartas-feiras, sem falta, parava à beira da minha rua, o Santo Velho, entre o tasco do Zé Manco e a loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, encostado à parede das casas sem passeio, decerto para aproveitar também as revoadas de povo da Fábrica de Ferro que por ali passava obrigatoriamente nas horas de troca de turnos. Eu bem disse, o homem era cego, mas tinha olho.
Vinham o cego e a mobília, isto é, a bengala de madeira pintada às listas brancas e vermelhas como a camisola do Leixões, mas na horizontal, um banco velho e o acordeão. Era um cego cantor. Cantor, pobre e pedinte, como a maioria dos cegos portugueses daquele tempo. O nosso prodigioso Augusto Fera, poeta e telefonista, era uma honrosa excepção. E o nosso Belinho, empresário e campeão do rockabilly, outro que tal. De resto, as saídas profissionais dos cegos, naquela altura, resumiam-se, regra geral e lotarias à parte, às esquinas e às cantigas, de preferência acompanhadas à sanfona. O acordeão fazia parte do curso de cego. O cego das nossas quartas-feiras cantava em tons trágicos e rima fácil aquelas estórias de amor e ciúme, faca e alguidar, que anos mais tarde são agora o ganha-pão das nossas televisões e dos nossos jornais. E, se bem me lembro, vendia folhetos impressos com os tenebrosos versos das tragédias reveladas e ainda com mais pormenores, mais desenvolvimento, a papelada presa por alfinetes ao casaco remendado e grande. Era o cordel, como ainda hoje se usa no Brasil.
Muito gostava eu de o ouvir! Éramos praticamente amigos, eu e o cego. Falávamos. Sabia-lhe as cantorias todas de cor, menos as novas, sempre dependentes da mais recente e escabrosa actividade criminal. O cego era, à sua maneira e para meu enlevo, mais uma atracção de feira, um espectáculo, Deus me perdoe. E apreciava-lhe também os intervalos repentinos, cirúrgicos, mal se precatava de passos à distância, e então, teatralmente, estendia a mão à caridade e declamava em voz arrastada, dramática, pungente, martelando sílaba a sílaba, e com potência de megafone: - Uma esmolinha ao ceguinho! Uma esmolinha!! Senhor! Senhora! Olhe que é muito triste não poder ver...
Caía a esmola ou não, o cego às vezes não sabia, por razão de força maior, mas rematava sempre, num golpe de mestre: - Muito obrigado, senhor! Muito obrigado, senhora! Deus lhe conserve a vistinha!
Eu apetecia-me aplaudir. E, mais, já tinha visto Laurence Olivier trabalhar no cinema e na televisão.
Ceguinho. Isso. O cego dizia "olhe", molageiro. Provocador, castigador. "Olhe", porque pode, eu é que não - sou cego. A minha mãe tinha razão. A minha mãe tinha sempre razão, e agora ainda tem mais, derivado à idade, e portanto nem admite contraditório seja do que for, e eu para lá vou. Mas então. A minha mãe não me deixava chamar cego ao cego, era O Ceguinho, olha o respeito!, e quem for de Fafe sabe muito bem a estima que colocamos no sufixo inho/inha, que tão amiúde utilizamos ou pelos menos utilizávamos. Até O Ceguinho, coitadinho, dizia que era cego, ceguinho, mas hoje em dia estaria enganado e seria severamente corrigido, parece tolo o raio do cego! Não. Pessoas de bem, modernas, civilizadas, cultas, vigilantes, palavristas, dir-lhe-iam que agora é invisual, não há cá cegos nem ceguinhos, isso só para os árbitros de futebol e devagarinho.
Dizem-me que o cego é invisual, e eu não me acredito. Ou então, se o cego é invisual, o surdo é insonoro, sim, insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual. É! Uma geral, nem mais nem menos. Aqui não há filhos e enteados. Esta terra de invisuais e quem possui um olho é monarca, já foi chão que deu uvas. Ou há moralidade ou comem todos. E só não vê isto quem não quer. Mas lá está, como diz o povo e com razão, o pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Deixei o cego a falar sozinho

Quem não sabe é como quem não vê
Sabeis que há o Dia Mundial da Bengala Branca. Claro que sabeis. Branca, a bengala. Branca e apenas branca. Ainda por cima, branca. E eu parece-me que há aqui qualquer coisa que não bate certo, mas a verdade é que os modernos entendidos, os intrépidos vigilantes das palavras e do palavrismo, os mui respeitáveis fiscais do arco-íris, os anti-racistas desde pequeninos e benévolos defensores das pessoas-portadoras-de, ainda não disseram nada. Nadinha! O que se me afigura manifestamente extraordinário.

Era um cego que andava pelas melhores ruas da cidade a vender lotarias e tinha dois curiosos predicados que saltavam logo à vista: era um inflamado benfiquista, ofensivo, quero dizer, ofensivo para quem por ali passasse sem querer, e dizia palavrões atrás de palavrões como se fosse esse o seu verdadeiro modo de vida. A cegueira poderá explicar o primeiro curioso predicado, mas suponho que já não conseguirá justificar convenientemente o segundo. Em todo o caso, era um cego bem-posto, independente, pequeno empresário do retalho cauteleiro, e se fosse hoje ainda estaria melhor, já nem sequer seria cego, graças a Deus, porque as condições são realmente outras, seria, quando muito, invisual, e isso, como toda a gente sabe, faz toda a diferença.
Para além de ser pelo Benfica, vendedor de lotaria e campeão da malcriadez, o cego ouvia as notícias num transístor em altos berros, próprio certamente para surdos, e aqui atrasado, já lá vai um tempinho, estávamos na paragem de autocarro, o aparelho falava da Grécia, da tentativa de primavera grega que agitou a Europa durante mais de cinco anos. A reportagem ainda ia a meio, mas o cego, sem que eu lho pedisse, resumiu-me imediata e cientificamente a questão: "Se se fossem mas é foder, filhos da puta do caralho, se querem chupar que chupem piças, era fodê-los, era fodê-los"...
Eu, para não mandar o cego àquela parte, que não se faz, pelo menos sem indicações precisas e talvez levado pelo braço, ia-lhe debitando os números dos autocarros que se aproximavam da paragem, como se estivesse a "cantar o quino" no café Peludo por alturas do Natal, marcando com milho os cartões escarrapachados em cima das mesas de bilhar cobertas com lençóis sebentos e felizmente fora de uso. Informei-o do 111. "A mim só me interessam o 500 e o 502", respondeu-me, com maus modos, como se a culpa fosse minha. Já agora, culpa de quê? "O 502 passou há um bocadinho, perdi-o por pouco", expliquei eu, a ver se amenizava a coisa. "Há um bocadinho não, que eu estou aqui há um pedaço e ele não passou", atirou-me o cego, mais ríspido era imposível. Acreditai em mim, por favor: eu tinha chegado à paragem há cinco minutos, não mais, o cego chegara há três minutos. Fiquei invisual com a desconfiança e com a falta de educação do homem, e então afastei-me, amuado, para não ter de lhe responder torto.
Deixei-o a falar sozinho, literalmente a falar sozinho, porque ele continuou a comentar as notícias, caralho acima, quem os fodesse abaixo, aparentemente virado para mim, imaginando-me ao seu lado, mas eu estava a mais de quinze metros de distância e, confesso, a começar a sentir-me mal com a situação, comigo. Não se faz, deixar um cego a falar sozinho.

(Lembrei-me do "meu" cego das quartas-feiras em Fafe, lá longe na infância, o que cantava tragédias tão bonitas naquele ponto estratégico entre o tasco do Zé Manco e as portas enormes da velha loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, quase em frente ao Palacete. Funcionávamos a meias: ele cantava e eu ouvia. Eu era o seu melhor espectador, embora raramente contribuinte. Conversávamos às vezes, éramos quase amigos. Eu respeitava-o muito, admirava-o tanto! E tive vergonha de mim, do que estava a fazer a "este"...)

Reaproximei-me quando chegava mais um autocarro. Um rapazinho avisa o cego, "É o 523". O rapaz confundiu-se, viu mal, era o 123, o 523 não existe, e o cego, que sabe os autocarros de cor e salteado, aproveita para dar uma desanda ao miúdo. Vem finalmente o 500 e o jovem, ainda cheio de boas intenções apesar do raspanete, alerta, satisfeitíssimo, "É o 500, é o 500". O autocarro pára e abre a porta. O cego pergunta lá para dentro, ao motorista, "É o 500?", "É o 500", confirma o motorista. Da paragem, corado de vergonha e tristeza, o rapazinho queixa-se ao cego, "Não acredita em mim?", e o cego responde, "Acreditar em quem, caralho, tu até inventas números..."
Não renego o meu fardo judaico-cristão, mas os remorsos passaram-me todos logo ali de repente, como que por milagre. Sim, deixei o cego a falar sozinho - e, sabeis que mais, não me arrependo!