segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Anthony Bourdain sem espinhas

Dia da Restauração
Cá em casa, celebramos o Dia da Restauração como deve ser. Todos os anos, a 1 de Dezembro, honrando a velha tradição, vamos comer fora. É preciso ajudar o sector. E similares.

O que eu gostava do estilo e dos programas de televisão de Anthony Bourdain! Sou fã número um, guardo, aliás, o cartão de sócio, ainda com as cotas em dia. E um faqueiro de colecção. E um avental assinado. Por mim. Fiz-lhe uma propaganda que só vista, apaixonada e gratuita, apresentei-o aos meus três amigos, recomendei-o nos meus blogues praticamente secretos. E gostava tanto dele, do Tony, que, em Junho de 2012, ao princípio de uma indigesta noite de sábado, enquanto quase quatro milhões de portugueses normais sofriam com a segunda parte de um Alemanha-Portugal da RTP para o Campeonato Europeu de Futebol, eu entretinha-me a ver na SIC Radical dois episódios do "No Reservations", um dos quais dedicado a Macau. E por acaso fiz mal, tive um desgosto muito grande. E Portugal também perdeu por 1-0.
Não era a primeira vez que o grande Anthony Bourdain (1956-2018) me desiludia, verdade seja dita. Acompanhei-lhe toda a carreira televisiva, até ao premiado e infelizmente definitivo "Parts Unknown", da CNN, e portanto estava sujeito. Conhecia-o de ginjeira, desde os tempos de "A Cook's Tour", ele ainda à procura da fórmula de sucesso que veio a afinar mais tarde, receita simples, uma mistura bem temperada de viagem e gastronomia, um jeito de apresentação irreverente e politicamente incorrecto que cativava e, por estranho que hoje pareça, ensinava. Bourdain já tinha andado por cá, Lisboa, Açores e Porto, creio que em 2001, um grande maluco de argola na orelha e keffiyeh à volta do pescoço. Comeu castanhas assadas na Rua de Santa Catarina, foi ao Majestic, passeou pela Ribeira e pelo Mercado do Bolhão, visitou a Mercearia do Bolhão e almoçou no Rogério do Redondo: sardinha pequena frita, cabeça de pescada cozida com todos e as sacramentais tripas. Depois levaram-no ao Aleixo, em Campanhã. Provou a salada de polvo e os bolinhos de bacalhau com feijão-fradinho, para ganhar embalo até aos filetes de polvo com arroz do mesmo que davam fama e proveito à velha casa. Mas, já o denunciei, não foi às bifanas da Conga, e isso é indesculpável. Nem passou por Fafe, e era só um saltinho, para provar a nossa vitela assada, e essa desfeita levei-a eu a peito, como afronta pessoal.
Mas não estava preparado para o pior. No tal episódio de Macau, que é o que aqui interessa, a certo passo Bourdain quer saber da herança lá deixada pelos portugueses, nomeadamente na gastronomia, e levam-no ao Restaurante Fernando. É casa de açoriano e é ali que o chef mais famoso do mundo vai provar os dois mais notáveis paradigmas da cozinha tradicional açoriana: as tripas à moda do Porto e a carne de porco à alentejana. Não estou a brincar. Eu nunca mais tenha apetite se não foi assim que Anthony Bourdain referiu estes dois pratos no seu programa: a dobrada e o porco com amêijoas, como invenções dos Açores.
Confundiram-no ou confundiu-se. Em qualquer dos casos, o bom do Tony não ficou bem no retrato. Se calhar não se preparou, fiou-se nos informadores locais, talvez na "pesquisa" da sua própria equipa, facilitou, assinou por baixo e estendeu-se ao comprido. Percebi então porque é que comeu bifanas em Lisboa - e perdoei-lhe.
Curiosamente, já agora, até há quem defenda que a carne de porco à alentejana é um prato de origem algarvia, confeccionado, isso sim, com carne de animais alimentados no Alentejo, mas deslocalizá-lo para os Açores é ir longe demais. É meter muita água pelo meio. Já quanto às famigeradas tripas, é ainda mais lamentável a argolada, uma vez que elas já lhe tinham sido apresentadas e explicadas dez anos antes, exactamente no Porto, local certo e de nascença, era só consultar os seus arquivos ou ver os seus próprios programas. 
Salvou-se, em todo o caso, a alcatra, que também saltou para a mesa do restaurante macaense. A alcatra, concedo, pode ser entronizada como o grande contributo da cozinha açoriana para o património gastronómico da humanidade. A alcatra honesta, feita por mão sábia e em alguidar experiente, a alcatra do aroma que chama, do gosto como nenhum outro, da carne a desfazer-se na boca. A alcatra de Vitorino Nemésio, da festa e da fartura. Da partilha, em nome do Pai, do Filho e sobretudo do Espírito Santo.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Isso mesmo, alcatra de peixe, com e sem espinhas, não vos admireis. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais quereis saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado, ninguém é perfeito. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.

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