quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Os homens medem-se aos furcos

Mania das grandezas
Era um anão fora do normal. Media um metro e noventa e sete.

O Tatu está de volta, volta e meia. Perguntar-me-eis: mas qual Tatu?, e eu poderia dar uma certa e determinada resposta, rimada e bem conhecida aí por uns tantos, porém, pessoa educada que sou, digo simplesmente: o Tatu da "Ilha da Fantasia", que a RTP Memória resolve pôr a arejar quando lhe dá na cabeça. O Tatu (Tattoo) era o francês Hervé Villechaize, um excelente anão mas fracativo actor. Ainda assim, gosto mais de o ver trabalhar do que, por exemplo, ao ultrafamoso Tyrion Lannister (Peter Dinklage) da "Guerra dos Tronos", essa tão aclamada série de culto que a mim não me assiste. Não vão mais longe. Se andavam à procura do indivíduo que, a nível mundial, nunca viu um episódio da "Guerra dos Tronos", spoilers tampouco, podem mandar suspender as buscas - c'est moi.
Anões e o mundo do espectáculo - assunto menor? Não creio. Os homens não se medem aos palmos. Medem-se aos furcos, como toda a gente sabe. E as mulheres também. Falo primeiro por mim, que, perguntado ainda na escola primária acerca das minhas perspectivas de futuro, respondi que, quando fosse grande, queria ser anão para ir para o circo. E antes de mim já havia o Peter Pan e depois de mim saiu da cartola aquela improvável linha média - Adelino Teixeira, Alves, Vítor Martins e Octávio - com que mestre José Maria Pedroto calou Wembley-o-Velho e empatou a arrogante Inglaterra, no nosso mítico ano de 1974. Parece que ainda os estou a ouver, em Dolby 4-4-2, subindo em passinhos curtos a estrada dos tijolos amarelos: The house began to pitch. The kitchen took a slitch. It landed on the Wicked Witch in the middle of a ditch, Which was not a healthy situation for the Wicked Witch.
Dos pequenos, sim, reza a História. Coloquemos, pois, os anões em cima da mesa, porque merecem. Se me pedissem uma shortlist dos anões mais famosos, sendo que a fama mede-se obviamente em televisão e cinema, eu escolheria:
Talvez a Thumbelina (Debbie Lee Carrington), de "Desafio Total". Talvez o Mini Me (Verne Troyer), de "Austin Powers: O Espião Irresistível". Talvez Deep Roy, o múltiplo oompa loompa em "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Talvez o duende Marcus (Tony Cox), em "Um Pai Natal para Esquecer". Talvez o professor Filius Flitwick (Warwick Davis), na saga "Harry Potter". Talvez o Mickey Abbott (Danny Woodburn), na série "Seinfeld". Talvez o "Arnold" Gary Coleman. Talvez o R2-D2 (Kenny Baker), da "Guerra das Estrelas". Talvez o Wee-Man (Jason Acuña), do "Jackass" da MTV. Talvez o munchkin Karl Slover, do "Feiticeiro de Oz". Talvez James Cagney, Mickey Rooney, Edward G. Robinson ou o apalpador Dustin Hoffman. Evidentemente poderia juntar à lista o Danny DeVito e o Tom Cruise, mas estes, peço desculpa, dizem-me muito pouco. Talvez...
Ou talvez o fogoso Nelson Ned, que era de outras artes e me dava cabo da cabeça aos domingos à tarde, nos castigadores altifalantes dos Comandos, da Amadora a Santa Margarida. Ou talvez o anão do Multibanco. Ou talvez, porque não, o Sr. José Nogueira, de Fafe, que, em meados do século passado, esteve quase a ir para Lisboa e ser famoso. Ou ainda talvez, puxando ao sentimento, as minhas duas queridas avós, a Bó de Basto e a Bó da Bomba, pequerrichas também, ou o senhor Flórido Engraxador, que trabalhava no velho Peludo e, aos sábados e domingos, também em Cima da Arcada, ou o César da Recta ou o senhor Clemente que fazia pipas e escadas para as vindimas e decilitrava aguardente como um alambique. Talvez...
Mas que fique registado que o meu anão favorito é uma anã. Chama-se Cadence Roth, Cady para os amigos, e chegou a ser a mulher mais pequena do mundo, se tivesse realmente existido. Conheci-a num livro, "Talvez a Lua", de Armistead Maupin. Procurai o livro. Atentai na Cady.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

As beatas e os anões

Não há milagres
Abençoados os que não acreditam em milagres. Que sensação maravilhosa, que deslumbramento devem experimentar quando eles acontecem!

Li no jornal, com estupefacção e náusea, que "atirar beatas para o chão passa a custar entre 25 e 250 euros de multa". Eu não sabia disto, palavra de honra: mas quem é que anda para aí a atirar beatas ao chão? Desde a história do lançamento de anões que eu não via tamanha estupidez. Por amor de Deus, deixai as mulherzinhas em paz! A religião é coisa de cada um...

Tramado pelos socos

Dores artroses
Ele padecia de "dores artroses". E também de evidente analfabetismo.

Fafe tinha tudo. Fafe até teve um anão que esteve quase a ir para Lisboa e ser famoso. Não foi por pouco, lá nos meados do século passado, mas só em 2011 é que eu soube da história, em boa hora recuperada pelo blogue Falaf - Revista Cultural de Fafe, creio que de Jesus Martinho e que entretanto encerrou actividade ou mudou de instalações. O homem em foco, o nosso pequeno grande herói, como se diz agora, chamava-se José Nogueira, era natural da freguesia de Golães e teve direito a prosa e retrato na edição de 1947 do Almanaque Ilustrado de Fafe.
Num artigo muito à época, com o desajeitado título de "Um exemplar raro", o Almanaque falava do "petiz de 59 anos" que passou ao lado de uma grande carreira derivado a dois pormenores que hoje não teriam importância nenhuma: a ignorância e o calçado. O anão de Fafe, que "nos seus tempos fazia serenatas, mas não casou", nasceu lamentavelmente com pelo menos 80 anos de avanço. Fosse ele do nosso tempo e ninguém sabe se não estaria, por exemplo, à frente de um partido e a dar todos os dias nas televisões.
Porque faltou muito pouco para que o nosso José Nogueira se tivesse transformado numa espécie de atracção de feira a nível nacional, numa celebridade, e é preciso que se note que na altura não havia reality shows nem CMTV, nem TVI, nem Now, nem CNN Portugal, nem comentadores, nem paineleiros, nem YouTube, nem influencers. O "petiz" era mesmo o máximo por si próprio, era sucesso garantido. E Paulo Portas, não vamos mais longe, também foi pelas feiras que começou.
Segundo rezava o Almanaque, o ilustre fafense José Pinto Bastos "andou para levar" o nosso anão "ao grande Coliseu dos Recreios de Lisboa, pelo que teve entendimentos com o benemérito Empresário Ricardo Covões". A coisa, tomai nota, só não foi avante por causa de José Nogueira, tornando ao Almanaque, "ser analfabeto e estar afeito a usar socos e, lá, precisar de usar calçado de polimento, fraque e luvas."
Os socos... Os socos é que o lixaram. O analfabetismo foi desculpa, pelo menos é o que eu acho.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

O jeito que me faz o Armand Assant

Sensibilidade e bom gosto
Eleutério tinha um desgosto muito grande no nome que lhe deram. Mudou para Adalsindo e agora é um homem feliz.

Eu tenho um querido amigo de infância que se chama... que se chama... coiso. Tenho também este pequeno problema: hoje em dia, com a idade e tão raras as saltadas a Fafe, nunca me lembro do nome do meu querido amigo de infância. Então inventei o seguinte truque de memória, que me tem ajudado imenso: quando quero falar com ou do meu querido amigo de infância, penso no Assante. Sim, no actor americano Armand Assante. Estais a ver? Armand, tão quase igual ao portuguesíssimo Armando. Por exemplo, de Armando Baptista-Bastos. E pronto, já descobristes e não era difícil, pois não? O meu querido amigo de infância chama-se, evidentemente, Armindo. Isso. Armindo.

O nome é que nos destina

Não praticante
Dizia: - A minha religião é o trabalho. Mas não pratico.

Lúcia de Jesus Rosa dos Santos (1907-2005), nascida com um nome assim, tão predestinado, Jesus e também dos Santos, apesar de Rosa, só podia dar no que deu. A Irmã Lúcia viu Nossa Senhora em cima de uma azinheira, guardou o segredo de Fátima, entalou Salazar e a Igreja, escreveu livros de memórias, encontrou-se com papas e é praticamente santa, só lhe falta um bocadinho. E é isto. Cada um é para o que nasce, e o nome é que nos destina. Eu nasci Américo Hernâni Von Doellinger, em Fafe, a mais de 260 quilómetros da Cova da Iria, por auto-estrada, que naquele tempo não havia, e, espero que me perdoeis, com um nome assim escaganifobético, desinspirador, perigosamente estrangeiro, insignificante e incréu como o meu, nunca tive, não tenho a mínima hipótese. E, mais, também levei as ovelhas ao monte...

domingo, 2 de novembro de 2025

Os dias trocados

E se de repente?
Se de repente uma flor lhe oferecer desconhecidos, pare imediatamente com a medicação.

A Igreja Católica tem mais de vinte mil santos e beatos com cartão passado e as quotas em dia. Santos populares, que são apenas três, nossos, e os outros todos. Muitos deles de uma santidade nefasta ou pelo menos altamente duvidosa, mas paciência, agarremo-nos então aos vinte mil. E dia 1 de Novembro é dia deles todos. Dia de Todos os Santos. É portanto dia de festa de arromba, a romaria maior da Igreja inteira. Seria de multiplicar por vinte mil, digo eu, o pagode sem fim de um São João, de um Santo António, de um São Bentinho, de um São Francisco, de um Santo Antão, de uma Santa Ana, de uma Senhora de Antime, de um Senhor de Matosinhos, de uma Senhora da Agonia, de uma Senhora dos Remédios, até de um Corpo de Deus, mas não, o povo pega no feriado, compra flores e vai chorar para o cemitério. Chorar os seus mortos, os Finados, os Fiéis Defuntos. Mas isso é só no dia seguinte, 2 de Novembro, ó criaturas!...

sábado, 1 de novembro de 2025

Era tão fácil a morte em Fafe

O testamento
O notário vacilou. Mas leu. O defunto deixava beijos e abraços. Distribuídos pelos inúmeros herdeiros em fracções de zero a 145, consoante o julgado merecimento de cada qual. Dinheiro não havia. Tinha ido todo em putas e vinho verde. Isto é, em beijos e abraços.

Um folheto que me foi metido na caixa do correio convidava-me a escolher "um Plano Funerário adequado". Adequado a quê e para quem?, se conto estar morto quando for o meu funeral e quero lá saber de mordomias póstumas - foi o que então pensei, e já lá vão alguns anos. O papel dizia que havia um "Plano Magno", praticamente como o gelado, um "Plano Essencial", que não faz bem nem mal, e um "Plano Popular", como o ex-CDS. Em qualquer dos casos, eram garantidos "serviço personalizado a partir de 995 euros" e uma vasta "experiência", o que também deixa muito mais descansado o defunto mais exigente. "Florista, Campas e Lápides, Documentação Oficial, Serviço Internacional, Música na Cerimónia, Medalha Impressão Digital, Cinzas ao Mar, Financiamento sem Juros, Contrato de Funeral em Vida", estava tudo previsto.
A caixa do correio mete-me medo. Não tanto pelas contas da luz, da água ou do condomínio, tampouco pelos avisos das Finanças ou do Tribunal, mas principalmente pelos que me perguntam pelo meu ouro e eu não os conheço de lado nenhum, pelos que me pedem o meu voto e não me conhecem de lado nenhum, pelos que querem comprar a minha casa que eu não quero vender, pelos que me querem vender uma casa que eu não quero comprar, pelos que querem que eu mude de Deus, e agora até pelos que me querem vender a minha morte como se soubessem alguma coisa da minha vida que eu não sei, ainda por cima aliciando-me com extras e regalias redundantes, luxos próprios para defuntos vaidosos, como se por acaso eu estivesse mortinho por fazer figura.
Vamos lá com calma. Eu sei que ninguém fica cá para a semente e que se alguém ficar sou eu (mas não é isto que aqui interessa). Sei que fatalmente já por cá andei mais tempo do que aquele que me resta para andar. Mas, com franqueza, a vida é tão boa e dá-me tantas consumições, que tenho mais que fazer do que pensar na morte, do que organizar a minha morte. Quando eu morrer (se morrer), logo se verá. Eu é que já não verei, e não me faz diferença nenhuma. Que se amanhem! Essa é a herança que deixo de bom grado a quem me sobreviver. Se alguém houver.

Era tão fácil a morte em Fafe. Morria-se e tínhamos logo à porta, como se estivessem à espera, de fita métrica na mão, patrões ou emissários, o Albano da Costa ou o Damião Monteiro, que dividiam o mercado talvez ela por ela, cada qual já sabia quem eram os seus, e, mais tarde, também o Baptista de Antime, que alugava altifalantes e fazia funerais "de categoria", como afiançava o Zé Maria Sapateiro, e nunca ninguém o desmentiu. Na hora da morte, a escolha da funerária, para os fafenses, era simples: baseava-se nas amizades, nas ligações familiares e, definitivamente, em favores devidos a este ou àquele cangalheiro, homens importantes, influentes, e com negócios e interesses vários e poderosos na vida da vila antiga.
Às vezes, para enterros nas aldeias à volta, algumas delas, por aquela altura, ainda sem estradas de lei ou sequer caminhos transitáveis, os agentes funerários requisitavam a carreta dos Bombeiros, puxada e manobrada à mão por um piquete fardado de gala, com luvas brancas e capacetes dourados reluzindo ao sol, coisa bonita de se ver. Nestas infaustas e solenes ocasiões, os bombeiros de serviço recebiam uma pequena gratificação, a bem dizer simbólica, decerto saída do pagamento da funerária à corporação, e, após as exéquias, no regresso do cemitério, eram amiúde agraciados pela família enlutada com uma generosa merenda, que constava, regra geral, de bacalhau frito, broa e umas boas malgas de verde tinto, evidentemente, nem que fosse apenas manhãzinha.
Publicidade a respeito de funerais, naquela maré, em Fafe, a única que havia era a do gato-pingado biscateiro e apressado que andava de loja em loja, de café em café, de tasco em tasco, a deixar o tradicional aviso em papel do falecimento e do enterro, para colocar nas montras, mas explicando sempre de viva voz, em todos os locais, quem era exactamente o morto, o seu enquadramento familiar, irmãos, pais ou filhos, se fossem mais conhecidos, uma ou outra nota biográfica, empregos, alcunhas, se as houvesse, hora e morada, porque naquele tempo os defuntos saíam de casa, tudo dito muito rapidamente, entrada por saída, uma e outra vez, numa espécie de lengalenga previamente ensaiada, porém aberta a perguntas, e eu gostava muito de ouvir aquilo, como se fosse um teatro, uma récita, eu dava realmente valor ao trabalho do homem. O gato-pingado, para mim, era um artista.

Devo confessar, já agora, que o prospecto que me enfiaram na caixa do correio acabou por aguçar a minha curiosidade. Esse é, afinal, o truque do marketing, mesmo do marketing de trazer por casa. Porta a porta. Admito que estou a pensar pedir um orçamento para a minha morte. Seduziu-me aquela coisa da "Medalha Impressão Digital", que não sei o que é mas deve ser muito bom para o morto. E também quero que me expliquem muito bem explicadinho o "Contrato de Funeral em Vida". Isso é legal? E é saudável? Funeral em vida? Dasse!...