domingo, 6 de setembro de 2026

Jogando ao pau com os ursos

Cada macaco no seu galho
"Em que ramo é que trabalhas?", perguntaram-lhe. E o macaco respondeu: "No de baixo, derivado às vertigens..."

A moda é nova, mas pegou de estaca em Portugal. O fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos de Alcáçovas e a olaria preta de Bisalhães foram elevados aos píncaros do Património Cultural Imaterial da Humanidade, com grande regozijo nacional. Seguiram-se a falcoaria, a louça de Estremoz, os Caretos de Podence e as Festas do Povo de Campo Maior - até ver. Fixemo-nos, porém, na falcoaria. A falcoaria, numa das suas definições mais acessíveis, é a arte milenar de criar, treinar, cuidar e caçar com aves de rapina no seu habitat natural. Os falcões e colaterais contrafacções, digamos águias e açores, caçam, matam e comem, em geral, outras aves e pequenos quadrúpedes que não têm lóbi na Unesco. Está certo: a Unesco é uma organização das Nações Unidas que visa contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Com a falcoaria ficámos irremediavelmente lançados. Eu, pela parte que me toca, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos periquitos, nos perdigueiros, nos entrançados de palha de Travassós e, andava com esta ferrada há que tempos, nos furões. Comigo, estão todos à bica.

E antes que me esqueça: por exemplo, o jogo do pau. O nosso indesmentível jogo do pau, que é tão nosso como dos outros. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. A incomparável procissão da Senhora de Antime e o pagamento de promessas de joelhos em Fátima. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e o Pai das Orelheiras e o carnaval de Ovar e as arruadas das bandas de Revelhe e Golães e a bicha das sete cabeças e a chega de bois e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto e a Justiça de Fafe e a Porca de Murça e as pedras parideiras de Arouca e os zés-pereiras e os cabeçudos e os gigantones. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras, que são serras onde se anda de mota. Ou as bandas de música de um modo geral, filarmónicas e copofónicas, indispensáveis. Porque não? Ou os bandos de malfeitores, banqueiros ou governantes, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. O assobio com dedos ou com as mãos em concha. Porque não?

Somos um país para o Guinness. É património até dar com um pau. É património sem mãos a medir. Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e, com vossa licença, vomita património imaterial da humanidade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.

sábado, 5 de setembro de 2026

Monólogo do barbeiro

Barbeire ou cabeleireire?
"Cabeleireiro masculino". Olho para o reclame e fico sempre naquela. Mas quê, será masculino porque é homem? Ou será masculino porque atende homens, isto é, barbeiro? E se o cabeleireiro masculino for mulher, não deveria dizer-se, sem ofensa, cabeleireira masculina? E se o cabeleireiro for feminino, o que é que temos a ver com isso? E se o barbeiro for mulher, não vamos mais longe, porque é que não é barbeira? E em caso de indefinição ou escolha múltipla, coisa absolutamente natural, poderá ser, por exemplo, barbeire? Cabeleireire? São problemas assim que de facto me afligem - quero lá saber de outras guerras.

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais. Ele sabe que comigo não há conversa: entro no estabelecimento, levanto a mão direita em saudação índia mas não digo "Ugh!", sento-me na zona de espera, espero, varejo O Jogo, olho com fastio para as folhas do Jornal de Notícias, vejo as figuras da revista Volta ao Mundo, coço a cabeça e eventualmente os testículos, espreito-me aos espelhos, que realmente me favorecem, espero, espero, levanto-me quando chega a minha vez, que me é indicada pelo meu barbeiro com um aceno de cabeça, coisa cá entre os dois, aproveito os três passos de caminho para apontar se é só barba ou se é barba e cabelo, sento-me e está tudo dito. São muitos anos!
Conversa de barbeiro é uma seca. E um perigo. Os barbeiros sabem de tudo e nós, simples e indefesos clientes, não. Portanto, de navalha em punho, eles começam a falar na crise dos mísseis de Cuba de 1962 e só terminam, uma hora depois, já a socar-nos o tralhame com a escova, quando chegam ao caso do dono do café ao lado que tem a mania de deixar a janela do carro aberta, "Qualquer dia ainda se fode, com sua licença, Senhoreee...", e, depois de termos saído e já irmos longe, ainda vão à porta gritar: - O Senhoreee... também deixa a janela do carro aberta? Deixa? Ai é motorizada? Pois, nesse caso...
Ai de quem se atreva a conversar com o seu barbeiro, nem sabe no que se está a meter! Porque os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Pasmados, à volta do cliente, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas, dizem que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível", "A sério?", "A sério?", "É o país que temos", "Pois, hoje em dia", "Tem toda a razão", "Senhoreee...", "Senhoreee...". O nosso barbeiro nunca sabe o nosso nome, somos todos "Senhoreee..."
O meu barbeiro, treinei-o à minha feição. Nem um pio! Comigo, nem se atreve a pegar no espelho mostra-carecas para me perguntar, no final do serviço, se está tudo bem. Já sabe que comigo não vale a pena, até porque não me consta que se possa descortar cabelo. Vamos direitos ao assunto, quero dizer à máquina registadora, espreito os numerozinhos verdes a ver se ainda é o mesmo preço, é, pago, recebo o troco, levanto a mão direita em saudação índia e saio novamente sem dizer "Ugh!", que ele não estranha. Aliás, o meu barbeiro ficou bastante admirado quando, uma vez, eu lhe disse que não sou mudo.
Mas, para chegarmos a este superior estádio de entendimento silencioso, tácito, a esta combinação tão antiga e cómoda, precisei de me começar a impor logo no princípio, há mais de quarenta anos, quando cheguei de Fafe, habituado a barbeiros para homens de barba rija, e que hoje em dia, afinal, também já não passam de suspeitíssimos "salões de beleza"...

Ora bem. Não sei o que deu ao meu barbeiro, que, sem mais nem menos, resolveu falar. Comigo! E eu, de boca fechada e dentes cerrados, perante semelhante fenómeno ou talvez traição - falta de respeito, pelo menos -, mandei-o calar com os olhos, quase o fulminei. Mas ele fez-se de ceguinho e continuou com o relambório. Os barbeiros de um modo geral são assim, falam sempre, mesmo que a gente não lhes responda. Como os dentistas. E o meu barbeiro, parecia possuído, estava igual aos outros barbeiros, abriu o livro. Porque conversa de barbeiro tem técnica.
O meu barbeiro começou pela política, quer-se dizer: pelo Ventura, que vai meter estes mamões todos na ordem. O que até me veio a calhar para eu continuar calado, porque não percebo nada de política e, além disso, não gosto de dizer palavrões em público nem chamar nomes a ausentes. Perante o meu militante silêncio, o meu barbeiro passou para o futebol, quer-se dizer: Luís Filipe Vieira, gangues, facadas, polícia, e eu, nada. O meu barbeiro tentou-me, então, com Trump, agora é que o vão apanhar. Valha-me Deus, antes de almoço não, lá se me ia o apetite. E o funeral da rainha, que foi uma categoria? E eu a pensar que o real evento, se foi mesmo uma categoria, esteve certamente a cargo do nosso Baptista de Antime, mas moita-carrasco! E as notícias? Quer-se dizer: Manuel Luís Goucha que mandou Teresa Guilherme para a prateleira. E Cristina Ferreira, que foi de fim-de-semana a Sevilha. E Fátima Lopes que deslumbrou em biquíni. E Malato que diz que dá para os lados todos como as circunferências. E Sónia Araújo, e Jorge Gabriel, e João Baião. Também não. Nem assim. Mantive-me irredutível, irrevogável, calado como uma porta, mudo como um herói.
O meu barbeiro pareceu desistir. Silenciou-se, magoado. E assim esteve, pareceu-me, durante uma boa meia hora. Até que, indo ao fundo da sua alma, arrancou um imenso suspiro, pôs a cara mais sofrida do mundo, suspendeu a tesoura trabalhadeira num gesto teatral e atirou-me, certeiro: - E este tempo, hã?! Isto está...
Ah!, bom, o tempo. Falando do tempo, assim já nos entendemos: tivemos ali conversa até à hora de almoço e ligámos um ao outro, à tarde, para esclarecermos dois ou três pontos.

É claro que eu não vou ao barbeiro há mais de dez anos, derivado à crise. Se deixei de ir ao cardiologista, para poupar dinheiro, por que razão havia de continuar a ir ao barbeiro? É a Mi quem me corta o cabelo e a barba cá em casa, na varanda sem marquise que temos mesmo em frente ao mar, se nos pusermos de lado. Mas eu e o meu barbeiro éramos exactamente assim. Praticamente assim. Entretanto a minha mulher aprendeu na Internet a realizar cateterismos, e cá nos vamos arranjando.

O milagre das pombas

Foto Hernâni Von Doellinger

Evasão
- Mais vale só do que mal acompanhado - disse o recluso n.º 14.112. E fugiu.

Todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, dias úteis ou dias inúteis. Todas as manhãs, de saquinho na mão, ele sai de Matosinhos atravessando o Passeio Atlântico de uma ponta à outra, em passo leve e decidido, e entra breve no Porto. No saquinho leva comida para os pássaros - milho para as pombas e pedaços de pão para os patos mas pouco, para os corvos-marinhos às vezes e para as vorazes e cagonas gaivotas. Sim. Para as gaivotas, raça tão desprestigiada hoje em dia, vítima de perseguição e tentativa de genocídio perpetradas por alguns autarcas aqui da beira-mar. Ele, o homem do passo leve e decidido, dá-lhes o almoço.
E todas as manhãs acontece o extraordinário: por alturas da Rotunda da Anémona, fronteira municipal, as pombas saem-lhe da cartola, materializam-se do nada, fazem-lhe bando por cima da cabeça e acompanham-no em revoadas dançarinas até à distribuição geral, no charco mais ocidental do Parque da Cidade, à porta da abandonada Kasa da Praia. As pombas reconhecem o seu benfeitor? Identificam o saquinho? Vão apenas ao cheiro? Serão, por assim dizer, o Espírito Santo em pessoa? Não sei - mas aquilo comove-me. Espanta-me. Fosse em Fátima, e seria certamente milagre.
Servido o festim, o cuidador de pássaros volta para casa pelo mesmo caminho, sempre com uma pequena reserva de pão e de milho no fundo do saco, prevenindo emergências, que as há. Pomba tresmalhada ou retardatária, gaivota de asa caída ou manca ou qualquer outra ave freelance também têm direito à sua dose individual, no respeito do espaço de cada qual. É. Os solitários entendem-se...

Pois durante a pandemia, pela menos, o gentil alimentador da passarada desapareceu-me da vista. E a mim, caramba, fez-me diferença, porque eu dava-lhe valor. Fui também, no meu tempo de miúdo, em Fafe, um razoável pensador de galinhas e coelhos, e portanto havia ali qualquer coisa que me dizia respeito, que me enternecia e, verdade seja dita, também me abria o apetite, e vinha-me à cabeça o franguinho guiado pela minha avó de Basto na panela de ferro apurando ao borralho.
Felizmente o senhor das pombas voltou, e em grande forma. Uma sorte para ele, para os pássaros e também para mim, que estou sempre a ligar umas coisas às outras e sou tão dado a nostalgias, e se for à mesa melhor...

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Olá, boneca!

Ah!, o amor moderno...
Jovem par de namorados. Abraçam-se, beijam-se, apalpam-se efusivamente nas intimidades, parece-me até que copulam. Sim, copulam. E vão consultando os respectivos telemóveis.

Factos reais como punhos. Manhã de sábado, A28, direcção Matosinhos-Viana do Castelo, um pouco antes da saída para Vila do Conde, por onde costumo atalhar para Fafe. À minha frente segue uma velha carrinha Renault 4L, de um cor-de-rosa altamente suspeito e vagaroso. Aproximo-me, com o fastio próprio dos condutores domingueiros que já não têm paciência para os condutores domingueiros, mas arrebita-se-me a atenção quando, mesmo em cima dela, leio os dizeres da viatura. São uns dizeres sugestivos e muitos, reclames açucarados a um loja de prazeres - sex-shop, como se diz e escreve em português moderno.
E vejo finalmente os ocupantes, ainda por trás: é o do volante e, ao lado, uma louraça de fazer parar o trânsito. Mas eu avanço. Avanço cuidadosamente para a ultrapassagem, olho para o condutor e o condutor sorri malandro. E eu continuo a olhar e o condutor continua a sorrir. Atenção: eu posso olhar e continuar a olhar, porque eu não conduzo, não sei conduzir, nem sequer tenho carta. Vou de pendura. Brincalhão, o condutor. A rapariga não sorri, não me liga nenhuma, segue impávida e serena, olha sempre em frente, tomando talvez sentido à estrada, ainda mais loura do que há bocado e, reparo agora, tem uns lábios vermelhos e escarrapachados, desafiadores.
A minha mulher desliga o pisca e então é que se me faz luz. A indivídua da catrel é uma boneca. Uma boneca mesmo, de plástico, com pipo, uma boneca insuflável, de carregar pela boca. O condutor olha para mim e sorri cada vez mais, no gozo, satisfeitíssimo, completo, não sei onde é que a moça levava as mãos.

Entre a bonomia e a canalhice

Já chega?
Mandaram-no abaixo de Braga e ele foi. Quando entrou em Celeirós, ligou a perguntar se já chegava...

Uma vez eu era chefe, como fui quase toda a minha vida, e um chefe mais chefe do que eu telefonou-me, de Lisboa evidentemente, dando-me ordens urgentes e precisas para "fazer a folha" a uma certa e determinada pessoa de quem eu era chefe, mas menos, no Porto. E eu disse que não. Que não "fazia a folha". Primeiro, porque não se "faz a folha" a pessoas, ainda que fossem incertas e indeterminadas. Segundo, porque eu não "faço a folha" a ninguém, por uma questão de princípio e, suspeito, de religião. Terceiro, porque eu resolveria facilmente o assunto sem "fazer a folha" a um camarada de trabalho, jornalista e pai de família como eu, embora talvez um bocadinho mais resmungão e preguiçoso do que eu. Quarto, porque eu não admitiria nem mais uma sugestão, insinuação sequer, daquele género.
O chefe que era mais chefe do que eu e estava evidentemente em Lisboa, comunista medalhado e, foi-se a ver depois, cúmplice envergonhado numa monumental leva de despedimentos colectivos, acusou-me de "bonomia", enquanto, por outro lado, baixava a crista e metia o rabinho entre as pernas, pelo menos tanto quanto me deu para ver no teclado nojento do velho telefone de serviço. "Bonomia", eu? Fiquei piurso com o gajo! Só me faltava essa agora, "bonomia". Ou por outra. Fui ao dicionário procurar a palavra e afinal achei muito bem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O meu avô era um artista

Foto Hernâni Von Doellinger
 
Estilo e santidade
Há dois santos chamados Simeão Estilista. Simeão Estilista, o Antigo, e Simeão Estilista, o Moço, também conhecido como São Simeão da Montanha Admirável. Estilista vem da palavra grega "stylos", que significa coluna. Era no topo de uma coluna que Simeão, o Antigo, vivia, pregando e jejuando, preso por uma corrente. Quer-se dizer, hoje em dia trabalharia numa discoteca da moda. E o outro também.

O Bô da Bomba, já vos contei, nunca se apartou completamente do velho e honrado ofício de sapateiro com que se iniciara na vida. Ele e José de Freitas Nogueira foram, digamos assim, colegas de carteira nesses primeiros passos dados na arte do bate-sola, o Zé de Freitas acabou depois em multimilionário sacrista e o meu avô foi quarteleiro dos Bombeiros de Fafe, não tenho, quanto a isso, razões de queixa. Enquanto pôde, num cantinho por baixo das escadas que subiam para "o salão" do quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, onde os finalistas da Escola Industrial levavam à cena a sua récita anual, o Bô manteve banca privada e fez, com desenho próprio, as sandálias e sapatos que calçavam a família. A família lá de casa, quero dizer, mulher e filhos, porque o meu avô não era homem de dar, nem sequer para a família além-soleira, que éramos nós, o meu pai e a minha mãe, os meus irmãos e eu. O máximo que o avô dava aos netos de fora eram os bons-dias, não me lembro se também algum cachaço, talvez a bênção e variadas ordens, mas exigia o troco até ao último tostão e o recibo com número de contribuinte e todos os améns.
Em todo o caso, fui semanticamente injusto quando chamei sapateiro ao meu avô da Bomba. Sapateiro. Nestes tempos em que nem os cegos são cegos - são invisuais -, agora que já nem há mentirosos - mas inverdadeiros ou faltadores à verdade, como se sugere na política -, nos dias em que nem os bois são chamados pelos nomes - têm números -, chamar sapateiro ao Bô da Bomba é praticamente um insulto, e estou muito arrependido, que me desculpem os sapateiros propriamente ditos e os atamancadores em geral.
Se escrevesse hoje - e, nem de propósito, é o que faço agora -, eu diria que o meu avô da Bomba era um mestre do artesanato, um artífice do calfe, uma sumidade da sovela, uma Joana Vasconcelos por antecipação, e fazia-lhe um museu, se mo pagassem; diria que o meu avô era uma start-up em pessoa e metia-o na Bolsa de Nova Iorque, se me deixassem; diria que o meu avô era um criador de sapatos e enchia-o de massa do PRR, se ma dessem; diria que o meu avô era um caso exemplar do empreendedorismo nacional e pendurava-lhe mais uma medalha no 10 de Junho, se mandasse; diria que o meu avô era um estilista, um designer de calçado, e acompanhava-o à Feira de Milão, assim a agenda mo permitisse. Exactamente. Se escrevesse hoje, eu diria que, para todos os efeitos, o meu avô era um designer, um estilista, um artista - sobretudo um artista. Ai isso era.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ele não podia ver sangue

As encomendas como as bombas
Começou com a pandemia e veio para ficar. As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.

Há homens realmente assim, hematofóbicos por natureza ou acidente, ainda que não o saibam e nem sequer conheçam a palavra. Por exemplo, Avelino Ferreira Torres (1945-2019). Personalidade polémica, com coutadas no futebol e na política, pelo menos, mais que provável introdutor do "populismo" em Portugal e eminente prometedor de lamparinas, foi presidente da Câmara do Marco de Canaveses durante mais de duas décadas. Teve nome em estádio e em vida, participou no reality show Quinta das Celebridades, da TVI, por onde também passou o nosso grande Tino de Rans, e esteve envolvido no processo Apito Dourado.
Paradigma rústico do quero, posso e mando, irascível, provocador, feitio rufião, sempre com uma ameaça na ponta da língua e disponível para resolver todas as questões à estalada, suspeito de ligação à rede bombista de extrema-direita (MDLP) no pós-Abril de 1974, Ferreira Torres passava a vida nos tribunais, acusado de tudo e de mais alguma coisa. De incitar à violência num jogo de futebol, de peculato e peculato de uso, com condenação, de falsificação de assinatura, de abuso de poder, de gestão danosa, de enriquecimento ilícito, de corrupção, de extorsão e até de ter ordenado a morte, não concretizada, de um ex-colaborador.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem:
- Que me mostrem onde é que eu mandei matar alguém. Mostrem! A partir de certa altura, eu deixei de poder ver sangue, valha-me Deus. Quando era criança, via e até ajudava a matar as galinhas e os porcos lá em casa, mas agora, se vejo sangue, viro logo a cara para o lado. É logo! Eu sou incapaz de matar uma mosca..." - disse ele.
- E duas? - insisti eu.