segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ia-se a São Bentinho

Para cima e para baixo
Para baixo, todos os Santos ajudam. Para cima, costumam ser os Antunes.

Ir a São Bentinho, era assim que se dizia em Fafe. E queria dizer: ir a pé ao Santuário de São Bento da Porta Aberta, considerado o segundo maior santuário português. Ia-se geralmente em promessa, em pequenos ou grandes grupos, numa peregrinação de uma noite, por estrada, carreiros, atalhos e montes. Havia sempre um guia. O "xerpa" do grupo do Santo Velho, que acolhia alegremente povo doutros lados - da Fábrica do Ferro, do Retiro, da Ponte do Ranha, da Cumieira, da Pegadinha ou da Granja, de onde calhasse, sem discriminação -, era o imprescindível Agostinho Cachada, que conhecia o melhor caminho, ele e só ele, e levava pistola. Saía-se de Fafe ao fim da tarde e chegava-se lá acima, ao São Bentinho, ao amanhecer do dia seguinte. Acertavam-se contas, velas, esmolas, orações, às vezes de joelhos à roda da igreja, e tornava-se a casa, naquele tempo, de camioneta de carreira, com o corpo feito num oito. Em Fafe havia e creio que ainda há, folclore à parte, uma grande e genuína devoção a São Bento da Porta Aberta. Havia quem lá fosse uma vez por ano, todos os anos. Havia quem lá fosse várias vezes por ano, todos os anos. Consoante as necessidades, os percalços da vida, os remedeios e o tamanho da gratidão de cada qual. E havia quem lá fosse apenas por turismo ou simplesmente por namoro, que decerto o santo também não levaria a mal...

A minha avó de Basto tinha uma sociedade infalível com São Bento da Porta Aberta. Em questões de pele e outras coisas ruins, os dois juntos eram uma limpeza. E há acontecimentos espantosos que são fáceis de explicar. Por exemplo. Ali pelos meus vinte anos, eu tinha uma plantação de cravos no cotovelo do braço direito, que até nem me incomodava grande coisa, mas uma vez a minha avó viu, pediu-me licença e disse que ia falar com São Bentinho sobre o assunto. Quando queria falar com São Bentinho, a minha querida avó Emília ia pessoalmente, a pé, pequerricha e já velhinha, desde Passos, Cabeceiras de Basto, até Rio Caldo, em Terras de Bouro, onde o santo morava. Os cravos desapareceram.
Anos depois, o meu filho era criança e apareceu-lhe um cravo numa pálpebra. Uma vez a minha avó viu, pediu-me licença e disse que ia falar com São Bentinho sobre o assunto. Quando queria falar com São Bentinho, a minha doce avó Emília ia pessoalmente, a pé, ainda mais pequerricha e ainda mais velhinha, desde Passos, Cabeceiras de Basto, até Rio Caldo, em Terras de Bouro, onde o santo morava. O cravo desapareceu.
A minha avó era uma santa. Se eu puxasse pela cabeça, tenho a certeza de que me lembraria de um terceiro e definitivo milagre da minha avó em promessa com o "glorioso" São Bentinho, mas não quero arranjar problemas ao Vaticano.
O Vaticano tem muito mais que fazer do que ocupar-se com a comezinha história da Bó de Basto, que, cada vez mais velhinha e e cada vez mais pequerricha, continuava a ir a pé entender-se pessoalmente com São Bentinho sempre que era preciso - até morrer. O Vaticano tem coisas muito mais importantes a tratar, e mesmo assim não trata, que faria se tivesse de tomar conta do assunto da minha avó...

domingo, 20 de setembro de 2026

As beatas e os anões

Não há milagres
Abençoados os que não acreditam em milagres. Que sensação maravilhosa, que deslumbramento devem experimentar quando eles acontecem!

Li no jornal, com estupefacção e náusea, que "atirar beatas para o chão passa a custar entre 25 e 250 euros de multa". Eu não sabia disto, palavra de honra: mas quem é que anda para aí a atirar beatas ao chão? Desde a história do lançamento de anões que eu não via tamanha estupidez. Por amor de Deus, deixai as mulherzinhas em paz! A religião é coisa de cada um...

O nosso António-Pedro

Às moscas
As salas de cinema estão às moscas - dizem. Realmente a limpeza já não é o que era.

Uma vez, há uns bons catorze anos, manifestei a minha mais simplória estranheza derivada ao facto de o Município de Fafe, a minha terra, ter perfilhado o cineasta portuense Manoel de Oliveira (1908-2015) e até lhe ter dado de prenda uma bonita sala de cinema, isto é, ter dado o nome de Manoel de Oliveira à Sala Manoel de Oliveira do Teatro-Cinema de Fafe, ainda o homem era vivo. Não percebi de onde é que se desencravou a extraordinária ideia, a eventual razão da coisa, que relação haveria ali, e até escrevi na altura: "ainda me hei-de rir quando (e se) conseguir perceber porquê".
Mas ainda não percebi. Resultado: estou há catorze anos sem me rir, é preciso ter azar, e tanta seriedade já me faz diferença, começo a ficar com cara de pau, uma cara talvez como a do nosso bom Zé Carlos Estantio, mas ao contrário.
Por outro lado. O cineasta António-Pedro Vasconcelos (1939-2024) nasceu em Leiria e viveu geralmente em Lisboa, mas vinha amiúde e em miúdo a Fafe, "onde tinha e tem família", segundo li e ouvi na FafeTV. Em 2015, homenageado na quinta edição do Fafe Film Fest, o realizador de "O Lugar do Morto", o cineasta que acreditava no grande público e queria que as pessoas vissem cinema, o autor de muitos êxitos de bilheteira e de algumas obras-primas, fez questão de dizer esta coisa linda: "Nasci, acidentalmente, em Leiria, mas considero-me um homem do Norte e, em particular, de Fafe, terra onde vivi parte da minha infância".
Perante tamanho confessamento de fafismo, que eu, verdade seja dita, por acaso até desconhecia, a benemerente Câmara de Fafe, se deu ao outro uma sala, ao outro que não nos pertence, que não nos é nada, a este, ao António-Pedro, que se reclamava nosso, assim na boa, e por isso é efectivamente nosso, com todo o direito, tem de dar pelo menos um salão. Isso, um salão, nem que seja ao ar livre. Até estou a ver, com luzinhas e estrelinhas a acender e a apagar, no meio do Largo, música de John Williams, ou do Rodrigo Leão, tanto me faz, não sou esquisito, passadeira vermelha e enormes holofotes à Hollywood apontando ao céu, como se chamassem pelo Batman ou pelo Custódio Ardegão: "Salão António-Pedro Vasconcelos"...
Ou então que mandem o António-Pedro para a bicha, como fizeram com o escritor também nosso João Ubaldo Ribeiro.

E, já agora, com esta termino: a sala de cinema do Teatro-Cinema de Fafe devia chamar-se, por exemplo, Sala Dona Laura Summavielle. Mas, para saber disto, se calhar era preciso ser-se de Fafe desde pequenino...

sábado, 19 de setembro de 2026

Temeroso, temerário ou timorato?

Caixa do Evaristo
Quando abriram a caixa de Pandora, saiu de lá de dentro o Evaristo. Pandora ia morrendo de vergonha...

Não falta quem, infelizmente, chegue ao sítio da palavra e não saiba qual usar com precisão - temeroso, temerário ou timorato -, confundindo intenções e significados. E, no entanto, nada mais simples. Temeroso é cobarde, medroso, medricas, tímido, fraco, cagarolas, caguinchas. Temerário é, pelo contrário, arrojado, atrevido, audacioso, destemido, bravo, aventureiro, imprudente. E Ti Morato é alentejano, obviamente, como Ti Odoro, Ti Noco, Ti Móteo, Ti Betana, Ti Ófilo, Ti Jolo, Ti Ara, Ti Pógrafo, Ti Mor, Ti Juca, Ti Midez, Ti Quetaque, Ti Quetoque, Ti Búrcio e Ti Biotársica. Estais a ver que fácil?

Segurança do computador é comigo

Os cientistas, quem os inventou?
Quem é que inventou os cientistas? Esta parece-me fácil. Os cientistas só podem ter sido inventados por cientistas. Evidentemente. Mas quem é que inventou os cientistas? 

Eu levo muito a sério a segurança do computador. O meu, comprei-o há mais de 30 anos, está preso por quatro cabos de aço inoxidável 6x19, um de cada lado, profundamente cravados nas paredes de pedra maciça, e fixado à secretária com 32 parafusos classe 12.9 que me custaram os olhos da cara. Meti-lhe também dois bons calços de madeira, daqueles que estacam camiões, mais um tijolo à frente e outro atrás. De cimento, os tijolos, dentro de robustas almofadas de penas de ganso. Equipei-o com as apps universalmente consideradas essenciais ao fim em vista, isto é, capacete, botas de biqueira de aço, luvas anticorte, óculos de protecção, máscara cirúrgica, corta-unhas e colete reflector. E, pelo sim e pelo não, retirei-lhe a bateria e nunca o liguei à corrente eléctrica. Até à data, não tenho razão de queixa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Era apenas um copo de água

O leitmotiv
O "leitmotiv", por exemplo. Tenho dúvidas. É gordo, magro, meio-gordo, achocolatado, integral, dourado, desnatado, em pó, condensado, vegetal, enriquecido, de soja, de burra, de barata, de camelo, de tigre, de aveia, de amêndoa, de coco, desmaquilhante, adelgaçante, reafirmante, derramado, leite-creme, leite-de-cal, leite-de-galinha, leite-de-pato ou de colónia? E quanto a calorias?

Entrou, sentou-se e pediu um copo de água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, dois bolinhos de bacalhau, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho-verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango frito, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja, uma fatia de bolo, meia dúzia de amendoins, um par de noivos, uma intoxicação alimentar, um café e um bagaço. "Ó faxavor, eu só pedi um copo de água - copo de água", disse ele, atrapalhado. "Ai desculpe, eu percebi um copo-d'água - copo-d'água", assumiu o diligente funcionário, por certo doutorado em semântica, arrumando imediatamente o hífen e o apóstrofe e dirigindo-se à torneira.

Uma mão lava a outra

Outra limpeza
Água vai!, dizia-se antigamente. Mas vinho ainda ia melhor...

Uma mão lava a outra. E as duas lavam os pés. E lavam as pernas e os braços e os sovacos e a barriga e as costas e as partes e o pescoço e as orelhas e a cara e o cabelo ou a careca. É. Uma mão lava a outra.