quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Até os mortos se salvaram

Os fiéis defuntos
A vantagem dos fiéis defuntos, com o devido respeito, é que não se armam em mortos-vivos. E isso, hoje em dia, já é um descanso.

Durante uma semana, um alguidar contendo um enorme galo sem cabeça e outras miudezas feiticeiras esteve em exposição no passeio junto ao portão de um dos cemitérios da cidade do Porto, zona chique. O bruxedo apareceu ali da noite para o dia, toda a gente se queixou, toda a gente se desviou e ninguém teve coragem de mexer na coisa, de a mandar para o lixo. Nem o padre da igreja ao lado nem os coveiros propriamente ditos. Trabalhar com almas e mortos está bem, desafiar maus-olhados é que não, faxavor de desculpar.
Passou-se um, passaram-se dois, três, quatro, cinco dias, e o galo ali, possivelmente já com o serviço feito e portanto sem mais poderes para gastar, mas nem assim alguém ousou sequer tocar-lhe. O pessoal da Junta de Freguesia, executivo e funcionários, reuniu extraordinariamente e foi unânime, cada um passou a encomenda para o que vinha atrás, ou abaixo, "Eu não, bruxedos comigo não", até que a vizinhança viva reclamou que já não aguentava com semelhante fedor, ciciando padres-nossos e ave-marias, de terço na mão e muitos sinais da cruz mas feitos ao contrário, não fosse o diabo tecê-las...
Ora, o fedor, como toda a gente sabe, é problemática que sobe a instância superior, à alçada camarária. Em conformidade, foram requisitados os serviços de limpeza da cidade, que chegaram ao local do sinistro tarde e a más horas e resolveram o assunto em três penadas. Isto é: não fizeram nada. "Eu também não, bruxedos comigo não", disseram os almeidas, que no Brasil são garis.
Perante o impasse, alguém tirou a mola de roupa do nariz e alvitrou que o Governo mobilizasse os Comandos da Amadora ou enviasse para o terreno o Grupo de Intervenção de Operações Especiais da GNR, outro pediu a presença da Brigada de Minas e Armadilhas da PSP, o espertalhão do costume recomendou o Putin ou o Netanyahu, se era para rebentar com aquilo tudo, um dos dois chegava e sobrava, e a Ermelindinha, catequista e sacristã derivado à escassez de mão-de-obra qualificada, ainda sugeriu que se mandasse chamar o Bruxo de Fafe para fazer a competente marcha-atrás à coisa, tornando seguro o seu manuseamento. Mas a Junta não dispunha de verba orçamentada para pagar a especialistas.
Foi quando um dos da Câmara se lembrou que o Canil Municipal tem um camião com um gancho hidráulico muito jeitoso, uma espécie de braço mandado que podia solucionar mecanicamente aquele problema bicudo, com os homens ao largo e, portanto, sem risco de contraírem agoiros, porque os agoiros, como é do conhecimento geral, têm um certo e determinado raio de acção, potente mas limitado. E assim foi. Ao sexto dia, o todo-poderoso veículo veio e levou a coisa, para sossego enfim de todos os moradores da zona, vivos e mortos, amém.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Diálogos fafenses 14

A tensão, muita a tensão!
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O homem que se esqueceu de dizer virilhas

Se um elefante...
- E tive assim tipo uma reacção pélvica, passei-me...
- Reacção quê?
- Pélvica. Tipo à flor da pele, tás a ver? Pélvica.
- Queres dizer epidérmica?
- Não, essa cena é dos elefantes. Pélvica. Diz-se pélvica. Dããããã!...

O homem que se esqueceu de dizer virilhas sou eu, passe a imodéstia, e desculpai-me o spoiler descarado. Por razões que não vêm agora ao caso, mas eram boas, quer-se dizer, eu cuidava de alguém, houve uma larga temporada nos últimos anos em que precisei de usar assiduamente a palavra virilhas. Ora acontece que, quando a queria dizer, ela - a palavra, essa mesma, virilhas - não havia maneira de me sair, geralmente varria-se-me da memória, e nem sequer posso alegar que a tinha na ponta da língua, porque isso também não é coisa que se diga. Nessas delicadas ocasiões, vinham-me à cabeça a palavra narinas, sempre gostava de saber porquê, a palavra testículos, evidentemente, e a palavra ínguas, sobretudo a palavra ínguas, que emergia do meu antigamente fafense e parecia-me que andava por lá perto. Mas virilhas é que nada. E eu ficava envergonhadíssimo.
Que se segue: contei aos meus três amigos a aflição deste estúpido bloqueio, e um deles diz-me, com grande lata: - É normal na tua idade, pá. Sou mais novo e tenho às vezes o mesmo problema, mas com a palavra pevides. Não é grave.
Não é grave, vírgula - isto já sou eu outra vez. Porque não se pode comparar virilhas com pevides. E pevides de quê? Pevides secas ou frescas? Nacionais ou importadas? Para aperitivo ou sementeira? Por outro lado, quando eu precisava da palavra virilhas era geralmente para a dizer a senhoras, enfermeiras ou auxiliares. E, na angustiante ausência da palavra, acabava por acudir-me das mãos, do gesto e do sítio para conseguir explicar-me. Estais a ver onde me agarrava? E achais isso bonito?...

domingo, 13 de setembro de 2026

A vida era uma fotonovela

Pimenta na língua 
Cuidado com a comida picante! Isto é, comida para maiores de 18 anos, servida apenas em restaurantes com bolinha vermelha, de preferência à ceia, após a meia-noite.

Recuemos. À década de oitenta do século passado e ao cimo da mui portuense Rua de 31 de Janeiro, onde havia uma casa de jogos de máquinas de flippers e afins que tinha uma cave com um altifalante fanhoso que, de uns quantos em quantos minutos, gritava cá para fora a curiosa frase "Mudança de modelo". Lá em baixo parece que havia umas raparigas muito jeitosas e nuas a fazerem não sei o quê e umas cabinas individuais e sebentas com ranhura para a clientela meter a moeda como nas velhas jukeboxes de feira e espreitar por um vidro e fazer também não sei o quê. Sei muito pouco do assunto porque, palavra de honra, nunca lá pus os pés. Ou se calhar pus, lembro-me vagamente da situação, não juraria em tribunal, mas isso também não vem ao caso.

Informei-me. "Mudança de modelo", logo a seguir ao ding-dong de uma campainha de aeroporto, queria dizer, por exemplo, que a morena mamuda passava a pasta à loura pernalta e ia para os bastidores ler a Corín Tellado, e assim sucessivamente e vice-versa, mas decerto queria dizer também que os clientes tinham de fechar a braguilha e limpar as mãos o mais rapidamente possível e dar a vez a outros, que eram mais que as mães, sobretudo no intervalo de almoço. O speaker de serviço dizia "Mudaaaança de modeloooo" com um garbo só comparável ao do mestre-de-cerimónias do Circo Merito quando anunciava na Feira Velha de Fafe a sensacional "Maribelaaaa no seu rrrrrola-rolaaaa". Eu gostava: "Mudaaaança de modeloooo"! Parava em frente para ouvir, uma e outra vez, até à hora de voltar ao trabalho, um pouco mais à frente, no velho Primeiro de Janeiro da Rua de Santa Catarina. E ria-me. Quarenta anos depois, leio e ouço a moderna lengalenga da "mudança de paradigma". "Mudança de paradigma" acima, "mudança de paradigma" abaixo. "Mudança de paradigma" para aqui, "mudança de paradigma" para ali. Para quê? Para digma! E também me faz rir, confesso, mas não me arrebita. Falta-lhe sustância, ao paradigma...

Já agora, sobre Corín Tellado, espanhola que se chamava Maria del Socorro Tellado Lopez e morreu no dia 11 de Abril de 2009, aos 82 anos. Escritora, autora mais lida na língua de Cervantes logo atrás do próprio, publicou mais de quatro mil romances cor-de-rosa ao longo de uma carreira de quase 56 anos, vendendo acima de 400 milhões de exemplares, o que lhe valeu a entrada no Guinness em 1994. Em Portugal, e pelo menos em Fafe, antes do 25 de Abril, a senhora Corín Tellado ficou famosa pela melosíssima revista de fotonovelas a que emprestava o nome. As revistas eram disputadas, partilhadas, emprestadas, trocadas, rompiam-se de mão em mão, iam de casa em casa como o oratório da Sagrada Família mas com outros interesses. A televisão era a RTP e o mais parecido com uma telenovela era o TV Rural do engenheiro Sousa Veloso (1926-2014), que eu conheci muito bem. Ambos frequentávamos o lendário café Peludo. Ele dentro do televisor pendurado logo à entrada, do lado esquerdo, por cima dos bolos-reis previamente encomendados pelos clientes, com peso certo, e comprados em Guimarães para o Natal, e eu sentado no canto contrário, atento à TV e aos bolos, que também só conhecia de vista, ouvindo uma e desejando os outros, nem que fosse só um bocadinho, uma migalha, uma tona. No final, o Senhor Engenheiro dizia, num largo sorriso, já em cima da música toda folclórica: "Despeço-me com amizade, até ao próximo programa". E era para mim. Noutras ondas, o "Simplesmente Maria", folhetim radiofónico, chegou à Renascença apenas em Março de 1973, e o país desfez-se em lágrimas, como se houvera inundações. Já disse: era assim em Portugal e pelo menos em Fafe. A parte de Fafe do rés-do-chão, da esfregona e da costura. A parte de Fafe de que sou. Era triste mas era isto: a vida era uma fotonovela.
E depois chegou a Gina.

sábado, 12 de setembro de 2026

Os fujões

O fim do mundo
Como diziam os antigos, e os antigos é que sabem: "Aos dois mil chegarás, dos dois mil não passarás". E que se segue? Há 26 anos que o mundo acabou, e eu, francamente, não me parece que isto tenha melhorado...

Os fujões fugiam. E até mais do que uma vez. Fugiam sempre que podiam. Por isso é que eram fujões, frequentemente apontados a dedo. Fugiam do seminário, que é o que eu sei, ou de colégios internos, rígidos, eram alunos do primeiro ano, crianças de dez ou onze anos em choque de desmame, longe de casa, cheios de saudades, inadaptados à severidade das regras, à disciplina apertada, musculada, ao silêncio, aos horários, à solidão, à exigência escolar, à comida, à cama, ao gozo e abuso dos mais velhos ou mais fortes, à mão lampeira e pesada de professores, prefeitos ou outros alegados guardiões ou superiores.
Aproveitavam geralmente a confusão do recreio para fugir, escalando o portão escondido atrás da esquina, sem vigilância, e até era um portão que metia respeito. Chegavam à rua e não sabiam o que fazer à vida. Não iam longe. Choravam baba e ranho, perdidos, atarantados, assustados, culpados, como se levassem ao peito um enorme letreiro a dizer "Fujão", os vizinhos já sabiam o que ali se passava, tantas vezes que viram, e corriam logo a tocar à sineta da portaria, a avisar quem de direito, geralmente não chegava a ser preciso organizar grandes operações de busca.
Imaginai: um puto de São Lourenço da Montaria, Viana do Castelo, entregue a si próprio em plena Rua de São Domingos, esconsa mas quase no centro da cidade de Braga, sem dinheiro nem mundo, e sem sentido de orientação, os pequenos olhos turvos, pisqueiros, rasos de água, como é que ele havia de saber o caminho para casa, para a serra?
Depois de apanhado, o fujão era exibido no salão de estudo e castigado em público para servir de exemplo. Um bom fujão, é preciso que se diga, normalmente insistia no dia seguinte, nos dias seguintes. E as cenas tristes repetiam-se, cada vez piores. Após a segunda ou terceira tentativa de fuga e consequentes sovas, os pais do fujão eram também chamados à pedra. Vinham de camioneta, fazia-lhes diferença. Chegavam envergonhados, num desgosto que só visto, e ouviam das que não queriam. Que resolvessem de vez o assunto, à pancada era o mais indicado! Às vezes, porém, os pais condoíam-se da evidente infelicidade do filho, daquela dor de alma, principalmente a mãe, pediam muitas desculpas aos senhores padres, tão bons educadores, pagavam "a conta" com língua de palmo e levavam a criança enfim para casa. Era mais uma "vocação" que se perdia.

Isto os fujões. Claro que também havia os mijões, que por acaso, não raras vezes, coincidiam, isto é, acumulavam. Os mijões eram mijões porque faziam chichi na cama, e também havia normas quanto a eles. Eram vários e cheiravam bastante. À noite, no enorme dormitório, quando, após as orações, as luzes se apagavam de vez e os fujões e candidatos a fujões se entregavam finalmente à liberdade, na paz dos sonhos, os meninos que faziam chichi na cama davam um nó à toalha na cabeceira de ferro e esse era o sinal para o senhor guarda-nocturno saber que ali estava mais um que necessitava de ser chamado, nas rondas habituais. O senhor guarda-nocturno nascera realmente para aquilo ou então alguém o ensinou muito bem, era meticuloso e eficiente, chegava-se à beira da cama marcada, abanava o desgraçado aos safanões e rosnava, palavra de honra: - Ó mijão, acorda!...

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O amoitado

Insondáveis são
Quando tirou a última pedra do caminho, enterrou-se em lama até aos tornozelos.

Amoitar quer dizer meter ou meter-se em moita, ocultar, esconder ou esconder-se. Isto é o geral, o que vem nos livros. Mas em Fafe, naquele tempo, amoitar era faltar à escola, fazer gazeta, gazetear, gazear, dar o tiro, matar as aulas, baldar-se. O rapazinho que saía de casa a tempo e horas para ir para a escola mas não chegava ao destino, desaparecendo algures a meio do caminho por vontade própria, era o amoitado. Isso, o amoitado. Talvez por medo ao professor, se calhar por causa de algum colega mais rufia ou simplesmente por preguiça ou toléria momentânea ou premeditada, o rapazinho escondia-se, não comparecia à lição. Nas aldeias e pequenas vilas do Minho antigo, rural, profundo, não havia transportes, cinemas, cafés, parques, jardins ou shoppings. Mas havia montes, bouças e campos. Havia caminhos de cabras, havia mato, havia moitas. E era aí que o rapazinho se enfiava, atrás dos arbustos, amoitava-se de tudo e de todos, calado como um rato, quieto como um retrato, deixando passar o tempo à sua livre vontade. Esta é a verdadeira origem da coisa, foi assim que começou a lenda. Dizia-se, por todo o lado, a esse respeito: - O estepor amoitou-se à escola!...
No fim do dia, à hora certa, o rapazinho voltava a casa como se nada fosse, apanhava a coça da ordem, de cinto, tivesse ele ido à escola ou não, portanto não lhe fazia diferença, e no dia seguinte, o tolo, se caía na asneira de apresentar-se arrependido ao professor, a pedir desculpa, "eu não fiz nada", e realmente não, levava com a segunda prestação no focinho, mas agora de régua e esquadro e talvez cana, diversos puxões de orelhas e múltiplos estaladões, que "era para aprender".
E assim foi. Quer-se dizer. Entre uma sova e outra, o rapazinho começou a perceber que, já agora, mais valia amoitar-se por uma boa causa, em vez de ficar ali aquelas horas todas encafuado, sentado no chão, tantas vezes húmido, de pernas cruzadas, sem fazer nada, como um rato, como um retrato, e em risco de constipar-se. Continuou a amoitar-se, evidentemente, mas daí em diante sempre com um propósito razoável, como, por exemplo, jogar à bola com outros que tais, ir para o rio dar banho à minhoca ou acompanhar a par e passo a instalação do circo. E deixou de ter problemas. Aquilo já não era amoitamento, eram faltas justificadas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O pior que se podia fazer a um filho

O filho do meio
O Dia do Filho do Meio existe e celebra-se a 12 de Agosto. Quer-se dizer. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.

Belos tempos. Em Fafe ninguém se divorciava. O divórcio pura e simplesmente não existia na nossa terra, embora 1910 já tivesse sido há um ror de anos. Já agora: o divórcio foi legalizado em Portugal no dia 3 de Novembro de 1910, logo após a implantação da República. Continuando. Apesar de legal, a palavra divórcio era como o palavra cancro - não fazia parte do léxico fafense, graças a Deus, éramos bastante monárquicos a esse respeito. Curiosamente, não me lembro que, entre nós, a palavra amor tivesse também grande uso por aquela altura. Divórcio não se dizia nem se pensava, era pecado. E, definitivamente, não se praticava. Quem ousasse, ficava marcado, nunca mais seria pessoa de bem, aceite pela sociedade local, mais valia pegar nos tarecos e ir para o mais longe possível, para o fim do mundo, lá para o Porto, onde havia noite e a moral já não era precisa. A mulher fugia de casa, desaparecia, o homem deixava a mulher, atravessava a rua, ia morar com outra, isso acontecia regularmente em Fafe, era aceitável, mas divórcio não, que parecia mal. Estava-se fora da mulher, estava-se fora do homem, como dizia o povo, tudo dentro dos conformes, mas sem papel. Marido e esposa encornavam-se entusiasticamente, odiavam-se com todo o zelo, mas não se divorciavam, porque, os antigos sabiam-no bem, o casamento é sagrado. Ele enchia-a de porrada todos os dias, quer-se dizer, todas as noites, quando se viam, e ela às vezes enchia-o de porrada a ele, mas que lindo que era festejar as bodas de prata e as bodas de ouro pelo menos, sempre na igreja, com a bênção e muitos elogios e conselhos do senhor padre, que não percebia nada de casamento e conjugalidade, por falta de comparência, mas achava que sim. Divórcio nunca, meu Deus! Isso não se fazia. Por causa das crianças, dos filhinhos, coitadinhos, marmanjos e marmanjas com quase 50 anos, casados, mal casados, divorciados e ajuntados, já com os seus próprios filhos, das mais diversas proveniências, mas que também gostavam muito de ver os velhotes juntinhos. E viviam no Porto.

O famoso psicólogo Eduardo Sá declarou uma vez no jornal Diário de Notícias que "divórcio" é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho. Eu, sem o saber e a experiência do Prof. Doutor Eduardo Sá, não concordo, embora ninguém me tenha perguntado nada. A mim parece-me que "sopa" é que é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho.
Aliás, para além de "sopa", há outras coisas mais violentas do que "divórcio" que se podem dizer a um filho. A saber: "cama, já!", "esse telemóvel serve muito bem!", "uma semana sem sair!", "um mês sem tablet!", "meio ano sem gomas!", "foste deixado cá em casa pelos ciganos", "come uma banana!", "peixe é bom", "não, ela não pode dormir cá!", "acabou-se a mesada!", "podes ajudar aqui?", "empresta à tua irmã!", "dá um beijinho à avó!",  "pergunta ao pai!", "pergunta à mãe!", "o pai morreu", "a mãe morreu".