À hora ou há ora?
À hora ou há ora? - perguntou o gramático, manhoso, como se os agás e os acentos, agudos ou graves, fossem visíveis nas conversas. - Há ora - respondeu o discípulo, mais convencido era impossível. - Há ora?!... - exaltou-se o gramático - Há ora?!?!... - ameaçou o gramático, entremeando os pontos de interrogação e de espantação, e insistindo perdigotamente nas velhas reticências. - Há ora, mestre - perseverou o discípulo, humilde porém seguro. - Há ora, mas e além disso...
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
O Céu pode esperar
Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...
O meu número é o E29, calhou-me, não sei em que número vai, mas, palavra de honra, estou sem pressa. Dou a vez.
quarta-feira, 8 de outubro de 2025
Cuidado com as carteiras!
Trabalho dignoLicenciou-se. Fez três mestrados, uma pós-graduação, uma pós-produção e uma pós-tulação. Arranjou trabalho num "call center". O pai, preocupava-o o pai: certamente desiludira o cota. O cota dizia-lhe que não: - Meu filho, qualquer emprego é bom desde que seja honesto. Ainda que assaltes bancos ou roubes velhinhas, se o fizeres honestamente, com o suor do teu rosto, serás sempre o meu orgulho.
Estais, portanto, avisados. E agora, uma coisa completamente diferente, tomai nota destes números. A PSP deteve 149 carteiristas no ano passado, o que representa um aumento de 43 por cento em relação a 2023. Sobre o número de crimes de furto por carteiristas, a Polícia registou 5.762 ocorrências em 2024, uma média de cerca de 16 crimes por dia, mais 11 por cento do que no ano anterior. Para as eleições do próximo domingo candidatam-se pelo menos 817 forças políticas e grupos de cidadãos, que apresentaram 12.860 listas. Os eleitores vão eleger 308 presidentes de câmaras municipais, os seus vereadores e assembleias municipais, bem como 3.259 assembleias de freguesia.
Até a chorar era bonito...
Vim com os ciganos
"Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Posto Médico e passavam pelo nosso largo diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu às vezes, realmente, mijava fora do penico -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos..."
"Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Posto Médico e passavam pelo nosso largo diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu às vezes, realmente, mijava fora do penico -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos..."
Este bocadinho escrevi-o num texto publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!, no dia 25 de Julho de 2014, repetido no meu blogue Fafismos, quase dez anos depois, e finalmente aqui nos Mistérios de Fafe, aparado e envernizado, no último mês de Abril. Aquilo da minha meninice passou-se há quase sessenta anos.
E quereis saber a melhor? O Adelino Teixeira, que faz questão de apresentar-se como "sobrinho do Toninho da Luísa", e só lhe fica bem, voltou a contactar-me, em finais de Maio do ano passado e, entre outras amabilidades, fez o favor de revelar-me o seguinte:
"Suponho que quem dizia que, quando eras pequeno, mesmo a chorar eras bonito, devia ser a minha tia Irene da Costa Novais, que mora no Bairro da Granja e hoje com 102 anos, pois passava pela vossa casa e ia para o Posto Médico, onde trabalhou toda a sua vida."
E é que era mesmo, pude confirmá-lo com a minha mãe. Era realmente a Senhora Dona Irene quem me mimava e gabava como menino chorão, aliás em curioso contraciclo com o seu feitio por regra mandão e absolutamente intolerante em relação a miúdos ou até graúdos mais exuberantes ou desalinhados, por assim dizer, que dessa parte também me lembro.
Fiquei tão contente por saber da senhora! Mandei-lhe um beijinho e o meu muito obrigado por fazer parte das minhas memórias. A Senhora Dona Irene, a Ireninha do Posto Médico, ainda festejou o seu 103.º aniversário, no passado mês de Maio, mas partiu em paz nos últimos dias de Setembro, soube-o agora, depois de uma vida longa e cheia. Mando um abraço ao amigo Adelino.
E quereis saber a melhor? O Adelino Teixeira, que faz questão de apresentar-se como "sobrinho do Toninho da Luísa", e só lhe fica bem, voltou a contactar-me, em finais de Maio do ano passado e, entre outras amabilidades, fez o favor de revelar-me o seguinte:
"Suponho que quem dizia que, quando eras pequeno, mesmo a chorar eras bonito, devia ser a minha tia Irene da Costa Novais, que mora no Bairro da Granja e hoje com 102 anos, pois passava pela vossa casa e ia para o Posto Médico, onde trabalhou toda a sua vida."
E é que era mesmo, pude confirmá-lo com a minha mãe. Era realmente a Senhora Dona Irene quem me mimava e gabava como menino chorão, aliás em curioso contraciclo com o seu feitio por regra mandão e absolutamente intolerante em relação a miúdos ou até graúdos mais exuberantes ou desalinhados, por assim dizer, que dessa parte também me lembro.
Fiquei tão contente por saber da senhora! Mandei-lhe um beijinho e o meu muito obrigado por fazer parte das minhas memórias. A Senhora Dona Irene, a Ireninha do Posto Médico, ainda festejou o seu 103.º aniversário, no passado mês de Maio, mas partiu em paz nos últimos dias de Setembro, soube-o agora, depois de uma vida longa e cheia. Mando um abraço ao amigo Adelino.
E a fotografia, é isso que perguntais? Bem, a fotografia não tem nada a ver com o assunto em questão, mas também me foi mandada pelo Adelino Teixeira, craque de outra geração, e é, mais uma vez, um documento interessantíssimo. Trata-se de uma das últimas linhas, se não mesmo a derradeira, do Futebol Clube de Fafe, nas vésperas da fusão com o Sporting Clube de Fafe e da consequente fundação da Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Isto é, a história antes da história.
Devo dizer, não sem uma ponta de orgulho, que identifiquei meia dúzia de nomes logo à primeira, uma vez que tive o privilégio de conhecer este povo todo, se bem que mais tarde, todos mais velhos e à paisana. Para mim, eram senhores. E eis os heróis. Atrás, de pé, da esquerda para a direita de que vê: António Von Doellinger, Toninho da Luísa, Mário Túbal, Miguel, Estafete e Agostinho. À frente, de joelhos, no mesmo sentido: Lemos, Mário Freitas, Mário Costa, Hernâni e Albano.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Até os mortos se salvaram
Os fiéis defuntosA vantagem dos fiéis defuntos, com o devido respeito, é que não se armam em mortos-vivos. E isso, hoje em dia, já é um descanso.
Passou-se um, passaram-se dois, três, quatro, cinco dias, e o galo ali, possivelmente já com o serviço feito e portanto sem mais poderes para gastar, mas nem assim alguém ousou sequer tocar-lhe. O pessoal da Junta de Freguesia, executivo e funcionários, reuniu extraordinariamente e foi unânime, cada um passou a encomenda para o que vinha atrás, ou abaixo, "Eu não, bruxedos comigo não", até que a vizinhança viva reclamou que já não aguentava com semelhante fedor, ciciando padres-nossos e ave-marias, de terço na mão e muitos sinais da cruz mas feitos ao contrário, não fosse o diabo tecê-las...
Ora, o fedor, como toda a gente sabe, é problemática que sobe a instância superior, à alçada camarária. Em conformidade, foram requisitados os serviços de limpeza da cidade, que chegaram ao local do sinistro tarde e a más horas e resolveram o assunto em três penadas. Isto é: não fizeram nada. "Eu também não, bruxedos comigo não", disseram os almeidas, que no Brasil são garis.
Perante o impasse, alguém tirou a mola de roupa do nariz e alvitrou que o Governo mobilizasse os Comandos da Amadora ou enviasse para o terreno o Grupo de Intervenção de Operações Especiais da GNR, outro pediu a presença da Brigada de Minas e Armadilhas da PSP, o espertalhão do costume recomendou o Putin ou o Netanyahu, se era para rebentar com aquilo tudo, um dos dois chegava e sobrava, e a Ermelindinha, catequista e sacristã derivado à escassez de mão-de-obra qualificada, ainda sugeriu que se mandasse chamar o Bruxo de Fafe para fazer a competente marcha-atrás à coisa, tornando seguro o seu manuseamento. Mas a Junta não dispunha de verba orçamentada para pagar a especialistas.
Foi quando um dos da Câmara se lembrou que o Canil Municipal tem um camião com um gancho hidráulico muito jeitoso, uma espécie de braço mandado que podia solucionar mecanicamente aquele problema bicudo, com os homens ao largo e, portanto, sem risco de contraírem agoiros, porque os agoiros, como é do conhecimento geral, têm um certo e determinado raio de acção, potente mas limitado. E assim foi. Ao sexto dia, o todo-poderoso veículo veio e levou a coisa, para sossego enfim de todos os moradores da zona, vivos e mortos, amém.
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domingo, 5 de outubro de 2025
Entre átonas e tónicas, eu é com gin
A fama tem um preço
Na rádio, Renascença por acaso, o reclame a uma telenovela da SIC avisa: - A fama tem um preço! Pois tem. E o arroz carolino também. E a massa-cotovelo e as batatas e os alhos e o azeite, que está pela hora de morte. As próprias pessoas, diz-se, também têm um preço. Algumas, melhor colocadas na vida, têm dois ou três...
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.
Por também ser verdade, tenho de acrescentar o seguinte: há coisa de uma ou duas semanas, ouvi na Antena 1 um spot a anunciar o relato de um jogo do Trofense. Sim, Trofense, disse a voz, por sinal excelente. Exultei de alegria!
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sexta-feira, 3 de outubro de 2025
Uma casa na padaria
Ainda me lembro...
Sou uma pessoa muito antiga. Eu sou do tempo em que padaria era uma loja que fabricava e vendia pão.
Sou uma pessoa muito antiga. Eu sou do tempo em que padaria era uma loja que fabricava e vendia pão.
Há uma senhora que mora na minha padaria. E não é a proprietária. Digo que mora na minha padaria porque, seja qual for a hora a que eu lá vá - oito, onze, meio-dia, quatro ou seis da tarde -, a senhora está lá, na mesa do canto, ao lado do balcão, quem vai para os lavabos. É exactamente para esse endereço que as Finanças lhe mandam as contas dos impostos: Dona Fulana de Tal, Mesa do Canto Ao Lado Do Balcão Quem Vai Para Os Lavabos, 4450-275 Matosinhos.
A nossa padaria em Fafe era na Rua Monsenhor Vieira de Castro, lado direito, com o Largo pelas costas e o cruzamento do Santo Velho mesmo à frente do nariz. Ficava por baixo da casa dos pais do Paulinho, que eram os donos do estabelecimento, entre as lojinhas da Dona Vitória capelista, que era uma santa, e da Aurorinha Maia, que era um vulcão, não desfazendo. Era a padaria do Sr. Rodrigues, mas, para todos os efeitos, chamava-se apenas Padaria. Depois tivemos de mudar para o Assento e a Padaria Moura ficou-nos mais à mão, mas nesse tempo já eu andava por fora a dar água sem caneco. Lembro-me, ainda assim, que as padarias vendiam bijus, bicas e pães-de-leite para os ricos, broa grossa, broa fina, às vezes sêmeas e regueifas ou roscas principalmente pela Páscoa. Enfim, vendiam pão. Isso eram as padarias.
Mas hoje em dia as padarias são tudo: café, salão de chá, pastelaria, cervejaria, restaurante, casa de pasto, tasco, pensão, centro de convívio, sociedade recreativa, quiosque, tabacaria, meeting point, posto de turismo, guiché de informações variadas. E vendem de tudo, até pão, o que é curioso. São os tempos que correm: o meu talho também vende ovos, azeite, queijo, vinho, peixe congelado, feijão, ananás e pêssego enlatados. E a minha frutaria apareceu ontem com o aviso - "Temos ostras".
Sendo tudo e muito concorrida, a minha padaria tem televisão e, portanto, milhões de opiniões. A campeã do palpite é a cliente residente, cuja, para mal dos meus pecados, padece de uma voz deveras agreste e guinchada uma oitava acima como se fosse comentadora desportiva na CMTV. Nunca a apanhei calada.
"Não. O meu filho não gosta de andar!...", anunciava um destes dias a senhora que mora na minha padaria. "Parabéns à prima!", disse eu cá para mim. "Um marmanjo com mais de trinta anos e não gosta de andar. Está bem, Alfreda! Se calhar quer colo, o menino...", continuei com os meus botões.
Mas ela insistia, repetia até à exaustão, cheia de orgulho no calaceiro: - O meu filho não gosta de andar. Não. Não gosta de andar...
Eu ia falar. Palavra de honra, eu ia dizer qualquer coisa a respeito do assunto e ia ser ali o fim mundo, uma epifania em cuecas. Porque, na minha padaria, eu passo por mudo. Há anos que está assim assente. Um velho mudo sorridente que sabe dizer "Bom dia!" e "Obrigado!", de resto peço por sinais e pago com dinheiro certo, que a minha mulher me dá. Eu ia destoar, estender-me ao comprido, dar cabo do meu tão precioso disfarce, quando a senhora que mora na minha padaria fez questão de rematar, mesmo em cima da hora: - Não gosta de andar. Uma casa, nem que fosse pequenina, mas com tudo, o meu filho preferia. Uma casinha. Andar, não!
Ai era isso! Ufa, safei-me por pouco...
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