A última ceia
Português, desempregado, 45 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um "part-time" como homem-sanduíche, chegou a casa e deu-se de comer aos filhos.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Jesus Cristo morreu em Fafe
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quarta-feira, 1 de abril de 2026
Quando Ben-Hur foi impedido de entrar no presépio
A conversão do penálti
Foi uma conversão muito difícil, um processo doloroso e demorado. Perceba-se: era um penálti ateu desde pequenino, e burro velho não toma andadura. Mas, pronto, vai ser baptizado no próximo domingo, logo após a missa das sete.
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Era o dia dos enganos
Sinceramente
"Mente-me, que eu gosto", disse ela. "Por isso é que te amo tanto", disse ele.
Quase que passa despercebido, mas 1 de Abril ainda é Dia dos Enganos, como antigamente se chamava em Fafe ao Dia das Mentiras. Com isto da política e da guerra, das redes sociais, do jornalismo de telemóvel, a mentira foi sorrateiramente metida a cotio, normalizada, e agora todos os dias são dia das mentiras, embora se chamem fake news, para não darem muito nas vistas. Resultado: com tanta mentira e tanto mentiroso, quase nem damos fé da velhinha efeméride residente do primeiro de Abril. Mas quereis saber?
Fafe daquele tempo celebrava entusiasticamente datas assim importantes para a sociedade em geral, como, por exemplo, o Dia dos Enganos. Datas patrióticas e etnográficas, civilizacionais. Havia respeito pela História e pela tradição. Brincavam-se brincadeiras educativas, nacionalistas e saudáveis, muito bem aprendidas, éramos a mocidade que passa.
Pregavam-se partidas tão engraçadas! No Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no nosso Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava:Fafe daquele tempo celebrava entusiasticamente datas assim importantes para a sociedade em geral, como, por exemplo, o Dia dos Enganos. Datas patrióticas e etnográficas, civilizacionais. Havia respeito pela História e pela tradição. Brincavam-se brincadeiras educativas, nacionalistas e saudáveis, muito bem aprendidas, éramos a mocidade que passa.
- Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
E o senhor, que podia muito bem ser uma senhora, mas geralmente era um moço ou uma rapariga mais ou menos da nossa idade, o senhor respondia, rimando:
E o senhor, que podia muito bem ser uma senhora, mas geralmente era um moço ou uma rapariga mais ou menos da nossa idade, o senhor respondia, rimando:
- Foi um peido que me fugiu...
Quer-se dizer: olhe o que lhe caiu - foi um peido que me fugiu. Estais a ver a piada? Estais a ver o sainete? Aquilo é que era, antigamente! Era assim todos os anos, à esquina, que bem que passávamos o Dia dos Enganos! Era de rir. Ríamo-nos muito com divertimentos assim jeitosos ali no nosso cantinho, para que é que precisávamos de brinquedos a sério e de mundo?
Para além disso, tínhamos a velha nota de vinte escudos largada no passeio como que perdida e presa por uma invisível sediela que, escondidos, puxávamos repentinamente e às prestações mal algum transeunte ensaiava o gesto para apanhá-la, em frente à porta envidraçada do novíssimo Café Chinês. Ele a baixar-se e a nota a fugir-lhe à frente dos pés, parava a nota, e ele a baixar-se outra vez e ela a fugir-lhe outra vez, aos saltinhos, como se fosse viva, e outra vez, e outra vez, como num filme do Charlot ou do Pamplinas mas ao vivo e a cores. Ai, era realmente uma risota! Claro que também era um risco: os vinte paus deviam ser devolvidos a casa, de onde alguém os desencaminhara sorrateiramente, e às vezes nunca se sabe. Era a nota mais pequena, vinte escudos, muito dinheiro para quem não tinha nada. Vinte escudos desaparecidos, perdidos, era como hoje um desfalque de milhões. Vinte escudos davam para muito pão, e o pão era importante. Havia fome e a pobreza morava com a gente.
Quer-se dizer: olhe o que lhe caiu - foi um peido que me fugiu. Estais a ver a piada? Estais a ver o sainete? Aquilo é que era, antigamente! Era assim todos os anos, à esquina, que bem que passávamos o Dia dos Enganos! Era de rir. Ríamo-nos muito com divertimentos assim jeitosos ali no nosso cantinho, para que é que precisávamos de brinquedos a sério e de mundo?
Para além disso, tínhamos a velha nota de vinte escudos largada no passeio como que perdida e presa por uma invisível sediela que, escondidos, puxávamos repentinamente e às prestações mal algum transeunte ensaiava o gesto para apanhá-la, em frente à porta envidraçada do novíssimo Café Chinês. Ele a baixar-se e a nota a fugir-lhe à frente dos pés, parava a nota, e ele a baixar-se outra vez e ela a fugir-lhe outra vez, aos saltinhos, como se fosse viva, e outra vez, e outra vez, como num filme do Charlot ou do Pamplinas mas ao vivo e a cores. Ai, era realmente uma risota! Claro que também era um risco: os vinte paus deviam ser devolvidos a casa, de onde alguém os desencaminhara sorrateiramente, e às vezes nunca se sabe. Era a nota mais pequena, vinte escudos, muito dinheiro para quem não tinha nada. Vinte escudos desaparecidos, perdidos, era como hoje um desfalque de milhões. Vinte escudos davam para muito pão, e o pão era importante. Havia fome e a pobreza morava com a gente.
Ah, o Dia dos Enganos! Era tão bonito! Agora é todos os dias, e já ninguém liga.
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Zé Manco
terça-feira, 31 de março de 2026
O sexo e outras modernices
Uma questão de compasso
- "Une valse à mille temps..." - disse ela, prometedora e coquete, fazendo rodar a saia plissada. - Eu não! - disse ele, apressado e javardo, arriando calças e cuecas...
"Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", resmungou a velha senhora, sem mais nem menos, ou como quem simplesmente dá os bons-dias. Era deveras uma senhora vetusta, recatadamente vestida e calçada, mas com aprumo, assim a modos de irmã da caridade à paisana. O cabelo curto, arcaico, pretíssimo como só ao alcance do Restaurador Olex, as mãos cansadas e a voz decidida. "Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", foi o que ela disse e redisse, num veemente protesto saído do nada, acrescentando em tom menor, enquanto tentava abrir o porta-moedas: - Quanto é?...
Estávamos na padaria, com efeito. Ao balcão. Para além do desabafo, bem ensaiado, a velha senhora também queria pagar os dois bijus que já guardara na saca de pano com bordados de Viana. Atrás, na fila para a máquina registadora, uma senhora um bocado menos idosa e aparentemente mais arejada deu ideia de não ter gostado muito daquilo do "Isto agora" e retrucou, numa censura mansa:
- É por isso que no tempo da senhora as raparigas solteiras não apareciam grávidas sem se saber de quem...
- Mas eu nunca! Sabe quantos anos tenho? No-ven-ta! Noventa anos, e eu nunca!... - explodiu teatralmente a velha senhora, que encontrara enfim o que de facto viera buscar: uma discussão. Para isso saíra de casa.
- A senhora não, mas outras sim... - devolveu-lhe a senhora um bocado menos idosa.
- Não se compara! - atirou a velha senhora. - Agora não querem outra coisa, ainda ontem, ali na esquina do Cinema, um rapaz e uma rapariga naquilo, aos beijos e abraços, sempre naquilo, a fazerem sexo, pareciam cães, e a televisão é só sexo, sexo, sexo, de manhã à noite e pela noite dentro, sexo, sexo, sexo, que eu bem vejo... - e de repente ia-lhe faltando o ar, coitadinha, ou então o chilique também fazia parte.
Acudiu-lhe a senhora um bocado menos idosa:
- Olhe, minha senhora, faça como eu, não veja televisão. Na verdade, algumas notícias metem mesmo nojo. E com isto da pedofilia, dos abusos dos padres, dos bispos que esconderam tudo, até já nem sei se meta a minha netinha na catequese...
- Meta, meta! - mandou a velha senhora, voz da vida e da experiência, saudosa do respeito de antanho. - Isso não faz mal nenhum... - explicou. - Isso dos padres é uma coisa muito antiga. Eu era pequena, ao tempo que isso vai, e o nosso padre já andava metido com a minha catequista. Com ela e com outras, que ele levava tudo a eito. Mas não faz mal...
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O compasso
E assim sucessivamenteA primeira vez, o segundo galarza, o terceiro homem, o quarto poder, a quinta dimensão, o sexto sentido, o sétimo céu, a oitava maravilha, a nona sinfonia, o décimo mandamento, o décimo primeiro alien, o décimo segundo jogador, o décimo terceiro mês, a décima quarta temporada, a décima quinta edição, o décimo sexto colosso, o décimo sétimo andar, a décima oitava emenda, o décimo nono arcano, o vigésimo da lotaria, o vigésimo primeiro batalhão, o vigésimo segundo aminoácido, o vigésimo terceiro álbum, a vigésima quarta hora, e assim sucessivamente.
Em Fafe de boa memória, era na Casa do Santo Velho que se reuniam todas as cruzes no fim tardeiro do compasso, já quase noite, seguindo depois para a Igreja Nova, em galhofeira procissão de sinetas exaustas e descompassadas, nas últimas. Rebentavam foguetes com uma violência desnecessária, desproporcional, amoucando-me os ouvidos e estremecendo-me as entranhas, e a mim parecia-me que a ressurreição do Senhor podia muito bem ser melhor festejada com bichas-de-rabiar, não desfazendo, mas ninguém me ligava...
segunda-feira, 30 de março de 2026
Cachicha!
As palavrasAs palavras, regra geral, não são para levar à letra.
Trago uma Páscoa no ouvido
Já não chove!
Noé, como todos os homens especialmente abençoados por Deus, era um incorrigível optimista. De hora a hora, dia após dia, durante quarenta dias, espreitava à janela da Arca, desviando a cortininha de chita estampada em degradê, e dizia à mulher: "É só um aguaceiro"...
Noé, como todos os homens especialmente abençoados por Deus, era um incorrigível optimista. De hora a hora, dia após dia, durante quarenta dias, espreitava à janela da Arca, desviando a cortininha de chita estampada em degradê, e dizia à mulher: "É só um aguaceiro"...
Só que. Já disse: era seminário, Braga e Semana Santa, véspera à noite do Domingo de Ramos. Portanto: só que, na hora da votação, a parte talvez mais emocionante, os do orfeão, à inapelável voz de comando, tocados como gado, desatámos a descer por umas escadas de que nem sabíamos a existência e, num lampo, chegámos à rua por uma porta dos fundos ou, por outra, dos lados. Ia passar a procissão. O Paulo de Carvalho que nos desculpasse, mas era a nossa vez de cantar. O estrado com degraus estava montado logo ao pé da porta, no cantinho do Largo de Santiago, defronte do Governo Civil. Cantámos o "Miserere", como mandava a tradição. E era digno de ser ouvido, minhas senhoras e meus senhores: nós cantávamos a cores.
Cantámos numa fervurinha mas como querubins, como querubins apressados, a procissão parou e passou, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo amém, e toca a galgar a escadaria (que já não era secreta) com o coração aos saltos, quem é que ganhou, quem é que ganhou, mas afinal quem é que ganhou? Foi o Paulo de Carvalho? Foi Portugal? Evidentemente que foi Portugal. Ganhámos, de certeza que ganhámos...
(Ao contrário do que alguém possa ainda pensar, por causa da história das senhas radiofónicas do 25 de Abril, "E Depois do Adeus" é apenas uma notável balada de dor de corno, sem qualquer submensagem política. Muito bem cantada, isso sim, letra de José Niza e com uma orquestração - do maestro José Calvário, também autor da excelentíssima música - do melhor que alguma vez se fez ou virá a fazer no nosso país.)
Mas não. Não ganhámos. Portugal não ganhou e Paulo de Carvalho também não. Ganharam os Abba, com "Waterloo". A nossa canção, "E Depois do Adeus", desenrascou apenas três pontos e ficou em último lugar, empatada com a Alemanha, a Suíça e a Noruega. E vá lá, que a companhia podia ser pior.
Que se segue. Há cinquenta anos que ando com esta Páscoa no ouvido. E não por causa dos Abba nem pela bela canção do Paulo de Carvalho. É o "Miserere". O "Miserere" ensinado e dirigido pelo bom padre José Sousa Marques, se não erro no nome, chamado entre nós o Galinhola por causa dos seus meneios e ademanes. O "Miserere" que ainda sei de cor aos retalhos e com o qual, volta e meia, puxando pelo lamentável baixo-barítono que sobrevive dentro de mim, atazano o orelhame do pessoal cá de casa.
As saudades fizeram-me isto: lancei-me à procura do meu "Miserere" no YouTube e não o encontrei. Quem sou eu para desgostar do sublime "Miserere" de Allegri, que está em todo o lado como Deus Nosso Senhor e a CMTV, mas - deu-me para aqui -, de momento o "Miserere" bracarense, completo, integral, pungente, é que me convinha. E não sei dele.
E que mais? O maestro José Calvário, que morreu em 2009, com apenas 58 anos. Extraordinária figura, conhecido sobretudo da televisão, cheguei a vê-lo algumas vezes em Fafe, o que me enchia de orgulho e emoção. Eu era fã, sabia-o de cor. Sabia das suas gravações com a London Philharmonic Orchestra, com a London Symphony Orchestra, com a Orquestra Sinfónica do Estado Húngaro. Eu sabia do jazz, dos Psico, dos trabalhos com ou para Adriano Correia de Oliveira, António Gedeão, Carlos Mendes, Fernando Tordo, Tonicha, da sua pluralidade e excelência musical. Via-o a passar de carro, sem parar e evidentemente sem me reparar, mas para mim bastava. A família - "os Calvários", que creio que eram do Porto - tinha uma fábrica em Fafe, na Recta, actual Avenida de São Jorge, um pouco depois da Parefa, como quem vai para Armil sem cruzamentos rotundos e semáforos preguiçosos. Eu ligava aquela gente, não sei dizer porquê, ao nosso Jardim do Calvário, e por isso achava que eles, apesar de ricos, famosos, distantes e inacessíveis, também eram nossa gente, embora todas as noites fossem dormir a casa, pelo menos nunca se me constou o contrário nem lhes sei de filhos suplementares e fafenses. A fábrica chamava-se Coral, Malhas Coral, e mandou uma equipa ao primeiro torneio de futebol de salão de Fafe, em 1977, organizado de raiz pelo Grupo Nun'Álvares, com o Chester à frente. E a equipa deu nas vistas vestindo camisola e calção numa cor nova e inusitada para o tempo, algo entre o vermelho, o laranja e o rosa, certamente coral como o próprio nome indica, espero não estar a dizer asneira, ou então sonhei isto tudo.
domingo, 29 de março de 2026
Nostradamus, vostradais, elestradão
O cigano e o sapo
Havia aquele cigano, espírito de contradição, que só entrava em estabelecimentos que tivessem um sapo de louça a servir de porteiro.
Eu sou de Fafe. Com muito gosto! E a sina, em Fafe, era lida por umas senhoras ciganas às quartas-feiras em cima da Arcada, sempre com um olho na mão e outro na polícia. A alternativa mais académica e legal era a balança colocada à porta do "escritório" das camionetas do João Carlos Soares, mesmo em frente ao Café Avenida. Subia-se para a balança, metia-se a moeda e saía um cartãozinho com o peso mais ou menos e o horóscopo resumido. Quem não ficasse satisfeito, era só pesar-se outra vez e o futuro mudava imediatamente. O peso às vezes também...
Fafe era terra aberta aos ciganos. Os ciganos de Fafe eram fafenses sem discussão, fafenses iguais entre todos os fafenses, aprendi isso desde pequeno. Em Fafe, os ciganos eram uns de nós. Em nossa casa, no Santo e depois no Assento, onde vinham amiúde buscar roupa usada ou pedir conselho à minha mãe, os ciganos comiam à nossa mesa, connosco, e eram tratados pelo nome de cada qual, não por ciganos. Quer-se dizer, não eram ciganos, eram, repito, uns de nós - o que sempre me pareceu a coisa mais natural do mundo.
Não sei como é agora em Fafe com os ciganos, mas quero acreditar que está tudo nos conformes. Fafe - que, entre outros não menos honrosos galhardetes, é Zona Livre de Armas Nucleares, recebeu o selo de mérito RACCI, categoria prata, e foi reconhecida pela ONU, ó meu Deus pela ONU, como Cidade Resiliente 2030 - só pode continuar a ser uma terra aberta aos ciganos. Um destes dias, tenho a certeza, o Município ainda vai pedir o respectivo diploma.
Não sei como é agora em Fafe com os ciganos, mas quero acreditar que está tudo nos conformes. Fafe - que, entre outros não menos honrosos galhardetes, é Zona Livre de Armas Nucleares, recebeu o selo de mérito RACCI, categoria prata, e foi reconhecida pela ONU, ó meu Deus pela ONU, como Cidade Resiliente 2030 - só pode continuar a ser uma terra aberta aos ciganos. Um destes dias, tenho a certeza, o Município ainda vai pedir o respectivo diploma.
Nostradamus, nome latino e artístico, padecia de epilepsia psíquica, de gota e de insuficiência cardíaca. Se a isto tudo somarmos a habilidade para a leitura dos astros e das cartas de tarô, facilmente perceberemos que o artista viveu e morreu antes do tempo. O nosso Miguel seria o convidado ideal, diário, bidiário, ou talvez até terciário, para todos os programas das manhãs e das tardes das televisões generalistas portuguesas de hoje em dia.
A mais eficaz profecia de Nostradamus acabou por ser, lamentavelmente, a do seu próprio falecimento. Em 1566, dia 1 de Julho, inesperada véspera do definitivo dia 2 de Julho, estava o profeta cada vez mais à rasca derivado ao dramático agravamento da gota e da artrite, chamou o seu secretário e, entre trovões e relâmpagos e talvez sarças ardentes de febre, disse-lhe o que já lhe dissera mais do que uma vez: de amanhã não passo. E finalmente acertou.
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A problemática do bairro problemático
Prò maneta
Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.
Não se pode dizer negro, não se pode dizer cigano, não se pode dizer anão, não se pode dizer maneta, não se pode dizer drogado, não se pode dizer gatuno, não se pode dizer pedinte, não se pode dizer pistoleiro, não se pode dizer sexo. Mas problemático pode dizer-se. A CMTV é especialista em problemático, sabe tudo sobre a problemática do problemático, e as outras cmtv também. Ainda agora, agora mesmo, olhei para a televisão e verifiquei que foi falecido a tiro um jovem de 24 anos num "bairro problemático". Um bairro problemático, querem eles dizer, é um bairro onde moram negros, ciganos, anões, manetas, drogados, gatunos, pedintes, pistoleiros e gajos e gajas que se dedicam à indústria do género. Mas isto que não saia daqui.
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sábado, 28 de março de 2026
Os paliteiros do Miranda
Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades
Portugal, país de poetas e marinheiros? Bah! Isso foi chão que já deu uvas. Agora é: Portugal, país de fadistas e "chefs" de cozinha. E quem não for uma coisa ou outra, ou as duas - ou, vá lá, pelo menos comentador televisivo ou escritor de calhamaços -, então é porque não é bom português. Eu, por exemplo.
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Aristeu, do Olimpo à Loja Nova
A diferença
A diferença entre os centros históricos e os centros histéricos está sobretudo na compostura. E na vogal do meio.
Aristeu era filho de Apolo com Cirene. Foi criado por ninfas na Líbia, aprendeu a coalhar leite e tornou-se pastor, sendo adorado como protector de caçadores e rebanhos e considerado o inventor da apicultura e do olival. É representado como um jovem pastor com um cordeiro, mais ou menos à maneira do nosso São João, mas de manjerico e pirilau ao léu.
Cansado de ser um deus menor, Aristeu aprendeu a contar pelos dedos e dedicou-se às matemáticas, adoptando o astuto cognome de o Velho - Aristeu, o Velho -, isto já para aí trezentos anos antes de Cristo ter vindo ao mundo. Mais de vinte séculos depois meteu-se no comboio e estabeleceu-se em Fafe, com a Loja Nova, extraordinária catedral de mercearia fina e grossa, drogaria e bebidas várias, alfaias agrícolas, verguinha e outro material de construção, louças e todo o tipo de ferragens, que ocupava quase um quarteirão inteiro, ao lado do Peludo e em frente à Casa da Cera, com a Feira das Galinhas atrás. O Senhor Aristeu da Loja Nova, fafense excelentíssimo, era um vivaço. Gentil, elegante, conservador e culto, molageiro com as mulheres, às vezes, talvez em raros dias de inventário e balanço, vestia bata de cotim no trabalho, imitando o irmão João, o Joãozinho da Loja Nova, e tinha sempre uma boa piada na ponta da língua. A Loja Nova morreu de velha.
Cansado de ser um deus menor, Aristeu aprendeu a contar pelos dedos e dedicou-se às matemáticas, adoptando o astuto cognome de o Velho - Aristeu, o Velho -, isto já para aí trezentos anos antes de Cristo ter vindo ao mundo. Mais de vinte séculos depois meteu-se no comboio e estabeleceu-se em Fafe, com a Loja Nova, extraordinária catedral de mercearia fina e grossa, drogaria e bebidas várias, alfaias agrícolas, verguinha e outro material de construção, louças e todo o tipo de ferragens, que ocupava quase um quarteirão inteiro, ao lado do Peludo e em frente à Casa da Cera, com a Feira das Galinhas atrás. O Senhor Aristeu da Loja Nova, fafense excelentíssimo, era um vivaço. Gentil, elegante, conservador e culto, molageiro com as mulheres, às vezes, talvez em raros dias de inventário e balanço, vestia bata de cotim no trabalho, imitando o irmão João, o Joãozinho da Loja Nova, e tinha sempre uma boa piada na ponta da língua. A Loja Nova morreu de velha.
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O terraplanista
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| Desenho Nestinho |
O corredor ecológico
Era um corredor verdadeiramente ecológico. Corria em bicos de pés, em pezinhos de lã, quer-se dizer, de carapins. Para reduzir a pegada.
A Terra tem diversos movimentos. Os mais famosos movimentos da Terra são o movimento de rotação, que é a Terra a andar egocentricamente à volta de si mesma - tipo Jorge Jesus ou André Ventura, sem ofensa para o primeiro -, e o movimento de translação, que é a Terra, agora modesta e submissa, hipnotizada, a andar à volta do Sol, qual aborboletinha avoando em torno dos afilamentos das alâmpadas, como diria o outro, o das imitações. Ora bem. O que me espanta é que tanto safanão não desequilibre a Terra nem a faça entornar os oceanos ou despencar por aí abaixo os desgraçados habitantes do hemisfério sul, que praticam o pino durante o ano inteiro. Quer-se dizer: não desequilibra mas incomoda. E por estas e por outras é que a Terra anda ligeiramente chateada nos pólos.
Posto isto. O desenho, feito de encomenda, é obra do Nestinho, Ernesto Brochado, um verdadeiro apaixonado por Fafe, ou fafense amador, provavelmente a figura mais conhecida e respeitada do mototurismo nacional, dirigente do Moto Clube do Porto e da Federação de Motociclismo de Portugal, alma mater e organizador crónico do extraordinário Lés-a-Lés e de dezenas de outras iniciativas do género e de menor dimensão. O Nestinho, que é cicloturista e ex-ciclista, que é atletista e maratonista bissexto, que é eminente motociclista, evidentemente mototurista, raramente motorista e às vezes motosserrista, que é maquetista, cartunista, desenhista, ecologista e portista, que aprendeu comigo a gostar de Fafe, e gosta muito, que é provavelmente uma das cinco melhores pessoas do mundo, e, tenho de dizer, eu nunca soube das outras quatro.
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sexta-feira, 27 de março de 2026
Like an angel
Velhos tempos
Chamava-se Glória Dias, morava em Teibães e garantia que, no seu tempo, fora a musa inspiradora de Bruce Springsteen.
Deus lhe conserve a vistinha!
Órgãos no mercado
Comprar órgãos no mercado, embora possa salvar vidas, é crime, dá dez anos de prisão. Concertinas ou acordeões, vá que não vá...
Comprar órgãos no mercado, embora possa salvar vidas, é crime, dá dez anos de prisão. Concertinas ou acordeões, vá que não vá...
Vinham o cego e a mobília, isto é, a bengala de madeira pintada às listas brancas e vermelhas como a camisola do Leixões, mas na horizontal, um banco velho e o acordeão. Era um cego cantor. Cantor, pobre e pedinte, como a maioria dos cegos portugueses daquele tempo. O nosso prodigioso Augusto Fera, poeta e telefonista, era uma honrosa excepção. E o nosso Belinho, empresário e campeão do rockabilly, outro que tal. De resto, as saídas profissionais dos cegos, naquela altura, resumiam-se, regra geral e lotarias à parte, às esquinas e às cantigas, de preferência acompanhadas à sanfona. O acordeão fazia parte do curso de cego. O cego das nossas quartas-feiras cantava em tons trágicos e rima fácil aquelas estórias de amor e ciúme, faca e alguidar, que anos mais tarde são agora o ganha-pão das nossas televisões e dos nossos jornais. E, se bem me lembro, vendia folhetos impressos com os tenebrosos versos das tragédias reveladas e ainda com mais pormenores, mais desenvolvimento, a papelada presa por alfinetes ao casaco remendado e grande. Era o cordel, como ainda hoje se usa no Brasil.
Muito gostava eu de o ouvir! Éramos praticamente amigos, eu e o cego. Falávamos. Sabia-lhe as cantorias todas de cor, menos as novas, sempre dependentes da mais recente e escabrosa actividade criminal. O cego era, à sua maneira e para meu enlevo, mais uma atracção de feira, um espectáculo, Deus me perdoe. E apreciava-lhe também os intervalos repentinos, cirúrgicos, mal se precatava de passos à distância, e então, teatralmente, estendia a mão à caridade e declamava em voz arrastada, dramática, pungente, martelando sílaba a sílaba, e com potência de megafone: - Uma esmolinha ao ceguinho! Uma esmolinha!! Senhor! Senhora! Olhe que é muito triste não poder ver...
Caía a esmola ou não, o cego às vezes não sabia, por razão de força maior, mas rematava sempre, num golpe de mestre: - Muito obrigado, senhor! Muito obrigado, senhora! Deus lhe conserve a vistinha!
Eu apetecia-me aplaudir. E, mais, já tinha visto Laurence Olivier trabalhar no cinema e na televisão.
Ceguinho. Isso. O cego dizia "olhe", molageiro. Provocador, castigador. "Olhe", porque pode, eu é que não - sou cego. A minha mãe tinha razão. A minha mãe tinha sempre razão, e agora ainda tem mais, derivado à idade, e portanto nem admite contraditório seja do que for, e eu para lá vou. Mas então. A minha mãe não me deixava chamar cego ao cego, era O Ceguinho, olha o respeito!, e quem for de Fafe sabe muito bem a estima que colocamos no sufixo inho/inha, que tão amiúde utilizamos ou pelos menos utilizávamos. Até O Ceguinho, coitadinho, dizia que era cego, ceguinho, mas hoje em dia estaria enganado e seria severamente corrigido, parece tolo o raio do cego! Não. Pessoas de bem, modernas, civilizadas, cultas, vigilantes, palavristas, dir-lhe-iam que agora é invisual, não há cá cegos nem ceguinhos, isso só para os árbitros de futebol e devagarinho.
Dizem-me que o cego é invisual, e eu não me acredito. Ou então, se o cego é invisual, o surdo é insonoro, sim, insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual. É! Uma geral, nem mais nem menos. Aqui não há filhos e enteados. Esta terra de invisuais e quem possui um olho é monarca, já foi chão que deu uvas. Ou há moralidade ou comem todos. E só não vê isto quem não quer. Mas lá está, como diz o povo e com razão, o pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar.
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quinta-feira, 26 de março de 2026
Kafka, só para destoar
Dos livros
Isto só lá vai à lombada. É dos livros.
Entro no autocarro. Sento-me num daqueles bancos frente a frente, éramos quatro, dois de cada lado e, se fosse futebol, a bola seria redonda. Ninguém conhecia ninguém. Os dois rapazes e a rapariga, os três mais para os trinta do que para os vinte, cabeças para baixo e graves, rapam dos bolsos os respectivos telemóveis como se se conhecessem de outras encarnações e estivessem combinados, e jogam, ela, e mensajam, eles, automaticamente, ignorantes uns dos outros, numa simbiose perfeita. Eu vou à mochila e tiro o livro. "Kafka à Beira-Mar", de Haruki Murakami. Pensei: é o que diz a minha mãe - sempre a destoar, eu.
Deixei o cego a falar sozinho
Quem não sabe é como quem não vê
Sabeis que há o Dia Mundial da Bengala Branca. Claro que sabeis. Branca, a bengala. Branca e apenas branca. Ainda por cima, branca. E eu parece-me que há aqui qualquer coisa que não bate certo, mas a verdade é que os modernos entendidos, os intrépidos vigilantes das palavras e do palavrismo, os mui respeitáveis fiscais do arco-íris, os anti-racistas desde pequeninos e benévolos defensores das pessoas-portadoras-de, ainda não disseram nada. Nadinha! O que se me afigura manifestamente extraordinário.
Para além de ser pelo Benfica, vendedor de lotaria e campeão da malcriadez, o cego ouvia as notícias num transístor em altos berros, próprio certamente para surdos, e aqui atrasado, já lá vai um tempinho, estávamos na paragem de autocarro, o aparelho falava da Grécia, da tentativa de primavera grega que agitou a Europa durante mais de cinco anos. A reportagem ainda ia a meio, mas o cego, sem que eu lho pedisse, resumiu-me imediata e cientificamente a questão: "Se se fossem mas é foder, filhos da puta do caralho, se querem chupar que chupem piças, era fodê-los, era fodê-los"...
Eu, para não mandar o cego àquela parte, que não se faz, pelo menos sem indicações precisas e talvez levado pelo braço, ia-lhe debitando os números dos autocarros que se aproximavam da paragem, como se estivesse a "cantar o quino" no café Peludo por alturas do Natal, marcando com milho os cartões escarrapachados em cima das mesas de bilhar cobertas com lençóis sebentos e felizmente fora de uso. Informei-o do 111. "A mim só me interessam o 500 e o 502", respondeu-me, com maus modos, como se a culpa fosse minha. Já agora, culpa de quê? "O 502 passou há um bocadinho, perdi-o por pouco", expliquei eu, a ver se amenizava a coisa. "Há um bocadinho não, que eu estou aqui há um pedaço e ele não passou", atirou-me o cego, mais ríspido era imposível. Acreditai em mim, por favor: eu tinha chegado à paragem há cinco minutos, não mais, o cego chegara há três minutos. Fiquei invisual com a desconfiança e com a falta de educação do homem, e então afastei-me, amuado, para não ter de lhe responder torto.
Deixei-o a falar sozinho, literalmente a falar sozinho, porque ele continuou a comentar as notícias, caralho acima, quem os fodesse abaixo, aparentemente virado para mim, imaginando-me ao seu lado, mas eu estava a mais de quinze metros de distância e, confesso, a começar a sentir-me mal com a situação, comigo. Não se faz, deixar um cego a falar sozinho.
(Lembrei-me do "meu" cego das quartas-feiras em Fafe, lá longe na infância, o que cantava tragédias tão bonitas naquele ponto estratégico entre o tasco do Zé Manco e as portas enormes da velha loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, quase em frente ao Palacete. Funcionávamos a meias: ele cantava e eu ouvia. Eu era o seu melhor espectador, embora raramente contribuinte. Conversávamos às vezes, éramos quase amigos. Eu respeitava-o muito, admirava-o tanto! E tive vergonha de mim, do que estava a fazer a "este"...)
Reaproximei-me quando chegava mais um autocarro. Um rapazinho avisa o cego, "É o 523". O rapaz confundiu-se, viu mal, era o 123, o 523 não existe, e o cego, que sabe os autocarros de cor e salteado, aproveita para dar uma desanda ao miúdo. Vem finalmente o 500 e o jovem, ainda cheio de boas intenções apesar do raspanete, alerta, satisfeitíssimo, "É o 500, é o 500". O autocarro pára e abre a porta. O cego pergunta lá para dentro, ao motorista, "É o 500?", "É o 500", confirma o motorista. Da paragem, corado de vergonha e tristeza, o rapazinho queixa-se ao cego, "Não acredita em mim?", e o cego responde, "Acreditar em quem, caralho, tu até inventas números..."
Não renego o meu fardo judaico-cristão, mas os remorsos passaram-me todos logo ali de repente, como que por milagre. Sim, deixei o cego a falar sozinho - e, sabeis que mais, não me arrependo!
Não renego o meu fardo judaico-cristão, mas os remorsos passaram-me todos logo ali de repente, como que por milagre. Sim, deixei o cego a falar sozinho - e, sabeis que mais, não me arrependo!
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quarta-feira, 25 de março de 2026
Vai-se o Minho, passo a passo...
Fontes & fontesFonte baptismal, fonte de vida, fonte luminosa, fonte milagrosa, fonte de alimentação, fonte de ignição, fonte da juventude, fonte de inspiração, fonte de transpiração, fonte termal, fonte de tráfego, fonte tipográfica, Fontes de Onor, Fonte Arcada, Sete Fontes, Fonte da Telha, Fonte das Sete Bicas, Fonte da Moura, Fonte do Bastardo, Fonte do Santo, Fonte da Cana, Fonte de Jacob, José Fonte, Fontes Pereira de Melo, Fontes Rocha, Fontes de Alencar, Águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar, Adios rios adios fontes.
Volta a colocar-se a velha questão: quem é o indivíduo sem óculos ao lado do Tomás? E, sem mais delongas, eu passo a esclarecer: o indivíduo sem óculos aos lado do Tomás é o Rocha. O Rocha da IL, isto é, Rui Rocha, então presidente da Iniciativa Liberal e actual vereador na Câmara de Braga, e que, ainda assim, quase ninguém sabe quem é, porque uma coisa é o país que dá na televisão, o país dos políticos, do futebol e dos desastres, e outra, muito diferente, o país das pessoas, o povo, o país de carne e osso, ou melhor dizendo, o país de pele e osso.
Ou por outra. Votei no Tomás, mas não adiantou nada. Passaram apenas dois anos, nem tanto, e o histórico Café Central, em Caminha, vai fechar portas, de vez, no próximo dia 6 de Abril, segunda-feira de Páscoa. Dizem que o Central tem quase um século de vida, mais de três décadas nas mãos sábias de Tomás & Alexandre, que até parece nome de dupla sertaneja, e acaba por desaparecer como se nada fosse. Assim, num estalar de dedos, ou talvez num acordo em tribunal. Algures por 2014/2015, em Paredes de Coura, perdi o Restaurante Conselheiro, do querido e saudoso amigo Manuel Vilaça Pinto, e para a semana roubam-me aquela horinha santa das onze ao meio-dia, ao sábado, encostado ao velho Chafariz do Terreiro, namorando a Mi, folheando O Jogo e fingindo de rico. O que é que eu faço agora ao "até logo", que me ficava tão bem? Caramba, estão a ir-se as minhas referências alto-minhotas...
Quanto ao Tomás, Tomás Capela, Sr. Tomás para mim e para a Mi, é um dos principais ex-líbris da vila de Caminha, toda a gente sabe, um ícone, património a preservar, um monumento vivo em plena esplanada do Terreiro, príncipe do gin-tónico e duque do rissol de camarão, folha de rosto e alma do famoso Café Central, ele e o sócio, Alexandre, aliás Alexandre Fernandes, para nós respeitosamente Sr. Alexandre, o homem da casa das máquinas e dos sete instrumentos, a franqueza em pessoa e um amigo que ali tenho, segundo parece, porque é assim que avisam da minha chegada, "o amigo do Alexandre!", "Alexandre, o teu amigo!"...
Eu e a Mi, "a esposa", "a senhora", fazemos parte da mobília do café, por assim dizer, temos direito aos nossos próprios mimos, que, verdade seja dita, nunca reclamámos. Mal aparecemos à vista na Rua de São João, o serviço salta imediatamente para a melhor mesa disponível, ou então inventa-se uma mesa, geralmente ao sol, se manso, que é o que nos convém. Sabem-nos de cor e salteado, menos o nome e tudo o resto a nosso respeito. Apreciamos a discrição e agradecemos o obséquio. Retribuímos com a nossa natural simpatia, dois dedos de conversa de chacha e boa educação. Nunca venho embora sem antes ir lá dentro cumprimentar o Sr. Alexandre, perguntamo-nos pela saúde da família, apenas porque sim, certamente vem daí a história do "amigo", e faço muito gosto. Despeço-me sempre com um "até logo".
A esplanada do Central é há muitos anos o meu Shangri-La de fim-de-semana e, tirante eu, um sítio de alta frequência em Caminha. Para além da melhor burguesia local, galegos incluídos, das pombas que também são da casa, de jovens ciclistas em cuecas e dos cagões anónimos do Porto, sobretudo da Foz, gente fina que por ali dispõe de segunda ou terceira habitação, casas de férias, como se a Foz não prestasse no Verão, ou só preste para o pé-rapado, tipos como Durão Barroso, Santos Silva ou Teixeira dos Santos já por aqui romperam cadeiras, figuras nacionais das artes e dos negócios e outros cabeçudos, muitos e diversos, de que já nem me lembro das caras nem dos nomes, tudo pessoal importante e requintado, de primeira, e parece que só eu e a minha mulher é que destoamos, tesos mas compostinhos, e sem contas por pagar.
Já por ali deixaram registo também o maestro António Victorino d'Almeida, Parcídio Summavielle, Francisco José Viegas, Elisa Ferreira, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, mais outro Marcello, segundo consta, o Mastroianni (1924-1996), astro italiano do cinema mundial. E foi por Caminha e pelo Terreiro que a IL andou em campanha para as eleições europeias na manhã de uma quinta-feira do ano da graça de 2024, feriado do Corpo de Deus, não sem antes deixar em Matosinhos, junto à Anémona, em cima do passeio, um velho autocarro publicitário a marcar lugar para as actividades da tarde. E o autocarro, ali plantado a coberto da noite, roubou o posto de trabalho aos dois profissionais liberais que costumam montar banca todos os dias naquele exacto local, o vendedor de óculos de sol e o vendedor de toalhas, bolas, brinquedos e outras bugigangas de praia. Ficaram ambos com os tarecos debaixo do braço e o protesto na ponta da língua, sem saber o que fazer à vida e às trezentas sacas esbordantes de tralha, a olhar para a merda do autocarro e a encher de nomes feios o senhor de barbas muito bem aparadas que tinha lá o retrato colado e que se chama Cotrim.
Cotrim de Figueiredo, que andava a treinar para as presidenciais, fez muito bem campanha em Caminha. Para os jornalistas, sobretudo para as câmara das televisões, que para isso é que se fazem as campanhas eleitorais. Para os jornalistas. Embora os jornalistas, regra geral, não saibam. E sei muito bem do que falo. Cotrim de Figueiredo lá ia de plano em plano, como se a rua fosse uma sucessão de plateaux, dizendo coisas importantíssimas e definitivas para o país e para o mundo, isto é, para os jornalistas, nanja para o povo, que nem o vi, e Rui Rocha quase sempre ao largo, certamente para não roubar protagonismo ao seu cabeça de lista. Rui Rocha, aliás, como se pôde comprovar numa das mesas da esplanada do Café Central, e apenas numa, é um extraordinário caso de popularidade junto de familiares e amigos.
Pronto, foi assim aquela quinta da IL. E o meu encontro involuntário com a campanha eleitoral, episódio felizmente único nos últimos anos, que bem que se está na reforma! Mas claro que fui votar. Fomos votar. Por antecipação, como de costume, para evitar confusões. E se quereis saber: votei no Tomás, evidentemente!
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terça-feira, 24 de março de 2026
Tramado pelas Grilas
Como as cobrasEle era mau como as cobras. E como as moscas tsé-tsé e como os cães e como os escorpiões e como os crocodilos e como os hipopótamos e como os elefantes e como os tigres e como os leões. Era realmente do piorio.
As Grilas eram mesmo ao lado do prédio do Café Chinês, que então se construía na Rua Monsenhor Vieira de Castro. Irmãs, creio que duas, velhas, na minha ideia de miúdo, solteiras e desgrenhadas, professoras, dizia-se, e misteriosas. Raramente vistas na rua, espreitavam apenas à porta, defendida por um portão baixinho em ferro forjado. Eu morava ali à beira, ao dobrar da esquina, no Santo Velho, e as senhoras até gostavam de mim. Mesmo depois da tratantada que lhes perpetrei e que, graças a Deus, nunca lhes chegou aos ouvidos. Sabiam que eu era filho da "viúva da Bomba" e isso valia muito em Fafe. Quando eu passava, as Grilas diziam-me sempre qualquer coisa simpática, só com a guedelha grisalha e o nariz de fora, e uma vez deram-me um santinho. Obviamente não mereciam a traição que lhes cometi.
Mas que se segue: o prédio do Café Chinês estava a ser construído e as Grilas, que já lá moravam resvés, queixavam-se das obras e dos operários. Queixavam-se do barulho e da insegurança, de tudo e de nada, barafustavam que a casa ia abaixo, era berraria o dia inteiro, guinchos de um lado e palavrões do outro, que até foi preciso chamar a Polícia. A Polícia veio e ficou. Dias e dias. Um agente sempre a rondar e a deitar os olhos ao conflito durante as horas de expediente, não fosse a coisa passar a vias de facto.
Ora, foi exactamente o desprezo por este pequeno pormenor que me tramou. Quando o toco de giz me apareceu aos pés a tentar-me e eu não resisti a apanhá-lo e a sarrabiscar "Senhoras Donas Grilas" na parede das ditas, palavras não eram escritas e já estava a ser levantado por um potente garibalde que me agarrou em tenaz pelo cachaço e perguntou: - O que é que o senhor está a fazer?
Olhei para trás e o garibalde era um polícia. O senhor era eu mais os meus onze anos, o que me fez imediatamente desconfiar que estava metido em caso sério. Com o giz na mão e a última perninha do "s" final ainda a fumegar, respondi: - Nada... - e ainda hoje acho que respondi com grande categoria.
E o polícia: - Onde é que o senhor mora? E eu, que não queria a minha mãe metida na ocorrência, até porque era melhor para mim: - Moro longe. E ele: - Então, vamos para a esquadra. E eu, sabendo que já naquele tempo os móveis das esquadras eram extremamente perigosos: - Enganei-me, senhor polícia, desculpe, moro já aqui no Santo...
Ora, foi exactamente o desprezo por este pequeno pormenor que me tramou. Quando o toco de giz me apareceu aos pés a tentar-me e eu não resisti a apanhá-lo e a sarrabiscar "Senhoras Donas Grilas" na parede das ditas, palavras não eram escritas e já estava a ser levantado por um potente garibalde que me agarrou em tenaz pelo cachaço e perguntou: - O que é que o senhor está a fazer?
Olhei para trás e o garibalde era um polícia. O senhor era eu mais os meus onze anos, o que me fez imediatamente desconfiar que estava metido em caso sério. Com o giz na mão e a última perninha do "s" final ainda a fumegar, respondi: - Nada... - e ainda hoje acho que respondi com grande categoria.
E o polícia: - Onde é que o senhor mora? E eu, que não queria a minha mãe metida na ocorrência, até porque era melhor para mim: - Moro longe. E ele: - Então, vamos para a esquadra. E eu, sabendo que já naquele tempo os móveis das esquadras eram extremamente perigosos: - Enganei-me, senhor polícia, desculpe, moro já aqui no Santo...
O polícia deixou-me finalmente aterrar, empurrou-me para casa, ainda com a tenaz no meu cachaço, o João do Zé Manco viu, veio a correr acudir por mim e foi à frente prevenir a minha mãe, repetindo sem cessar: - Sinha Alexandrina, ele não fez mal nenhum! Ele não fez mal nenhum! Fiquei a dever uma ao João, até hoje, e já não sei dele há mais de quatrocentos anos. Dessa vez a minha mãe não me bateu. E ainda agora me diz que, para além da cunha do João, levou em devida conta, como atenuante, o facto de eu ter escrito "Senhoras Donas Grilas" e não "Grilas" simplesmente. "Senhoras", com toda a consideração. Para a minha mãe, respeito e educação acima de tudo, mesmo em plena patifaria.
Fui condenado a limpar a parede das Grilas com um pano molhado, cumpri pena e segui para a escola, de coração a mil e tremente como varas verdes. Curiosamente, as varas verdes eram também uma vigorosa especialidade da minha querida mãe. Percebeis então do que me livrei e os perigos que corri?
Fui condenado a limpar a parede das Grilas com um pano molhado, cumpri pena e segui para a escola, de coração a mil e tremente como varas verdes. Curiosamente, as varas verdes eram também uma vigorosa especialidade da minha querida mãe. Percebeis então do que me livrei e os perigos que corri?
segunda-feira, 23 de março de 2026
As Turicas e um par de mamas
Poema
Seios
sei-os
ceio-os.
Mas as Turicas, que foi ao que eu vim. As Turicas também eram irmãs e também eram duas, tanto quanto me lembro. Pequeninas e idosas, resmungonas e prendadas para os mais delicados lavores, faziam renda de bilros sentadas num banquinho junto às imponentes portadas que davam para a rua. Rendas de bilros, isso mesmo. No rés-do-chão do ancestral casarão, as Turicas entretinham-se com uma loja mais antiga do que elas e que cheirava a um mofo muito bom. Vendiam botões e tafetás, fitas de nastro, fechos, colchetes, linhas, lãs, chitas, agulhas e flanelas, sobretudo monos, tudo armazenado há que séculos numas prateleiras altas, enegrecidas e carunchosas. E davam conselhos. Sorrateiramente, vendiam também vinho ao garrafão nas traseiras do estabelecimento, com vistas para um exuberante quintal sem fundo. As boas senhoras, certamente latifundiárias não sei onde, mantinham uma "criadita" que abria a porta a quem ia comprar vinho. E a miúda tinha umas mamas. Uma vez a minha mãe mandou-me ao vinho com dinheiro certo e tempo contado, e eu pedi à rapariga se me deixava apalpar-lhe as mamas numa pressinha. Ela não deixou e eu apalpei. As mamas eram de papel e foi-me um desgosto muito grande. Até hoje.
domingo, 22 de março de 2026
Uma mão lava a outra
Outra limpezaÁgua vai!, dizia-se antigamente. Mas vinho ainda ia melhor...
Uma mão lava a outra. E as duas lavam os pés. E lavam as pernas e os braços e os sovacos e a barriga e as costas e as partes e o pescoço e as orelhas e a cara e o cabelo ou a careca. É. Uma mão lava a outra.
Era fresca e doce
O génio da água destilada
Tinha um comportamento aparentemente excêntrico em dias de invernada: saía à rua com o guarda-chuva aberto mas virado ao contrário. As pessoas riam-se. Não sabiam que ele era recarregador de baterias...
Fafe funcionava assim. Eu, que nunca provei pirolito, por falta de dinheiro e de coragem para assaltar o Banco, que era apenas um e por isso se dizia com letra maiúscula e ficava entalado entre o Martins Relojoeiro e o Nelo da Electra, eu, que só sabia dos gelados nas mãos dos outros, bebi uma ou duas vezes um daqueles copinhos, evidentemente mais em conta e decerto prenda extraordinária já não sei de quem nem porquê. E quereis saber? Era realmente fresca e doce, a água, como dizia a publicidade popular, e, palavra de honra, soube-me pela vida!
Já quentes e boas eram as castanhas, assim chamadas derivado à própria cor. No último Inverno por acaso até só foram quentes, às vezes nem isso, de resto apresentaram-se geralmente uma boa merda - secas, bichosas, bolorentas até. Mas ao que interessa: o pregão era, e ainda é, "Quentes e boas!", ou, como também se dizia em Fafe, "Castanhas assadas a vapor, ó que boas, ó que boas!..."
Quereis saber mais? Quem as vendia, às castanhas, ali no Santo Velho à beira do tasco do Zé Manco, era a Maria Barraca, que morava com as Ferreira Leite, na casa de rés-do-chão e primeiro andar quase em frente, isto antes de juntar dinheiro para abrir uma lojinha de plásticos e outras utilidades caseiras, uma portinha apenas, um bocado mais abaixo na Rua Monsenhor Vieira de Castro, um pouco antes do Ponto Final, mas do outro lado da estrada, depois das Turicas, encostada ao casarão do ricaço e benemérito encartado Zé de Freitas que desapareceu não sei para onde e hoje em dia parece que é o supermercado do Aldi. O casarão. Quanto à Maria Barraca, casou-se. Tarde, era o que constava, mas decerto muito a tempo.
Naquele mesmo correr, no terreiro do Santo face à estrada para o Picotalho, aproveitando a passagem obrigatória do povo em barda que trabalhava na Fábrica do Ferro, montavam banca também a Mocha e a D. Filomena, sardinheiras de categoria, e a Marrequinha da Recta, que curtia e vendia tremoços. Os tremoços da Marrequinha gozavam de muita fama e tinham um segredo. Dizia-se que eram a especialidade que eram porque a boa senhora lhes mijava regularmente durante a demolha.
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sábado, 21 de março de 2026
Coisas do carvalho
A landreA landre, é preciso que se note, já serviu para a nossa alimentação. O povo - isto é, o pobo - chamava-lhe também bolota ou glande. E há quem agarre na glande e dela faça carvalho.
Há quem diga que Fafe tem a maior mancha contínua de carvalhal da Península Ibérica, e até quem, achando pouco, acrescente que é a maior mancha contínua de carvalhal de toda a Europa. O fenómeno será ali por aquela corda de Aboim e Várzea Cova, realmente carvalhal até dar com um pau - muito ainda para arder, como costuma dizer o meu amigo Lopes.
Na vila antiga também tínhamos o nosso Carvalhal, assim com maiúscula inicial porque era nome de sítio, entre a Fábrica do Papelão e o Picotalho, ladeando o rio Ferro e estendendo-se aos pés do extinto monte de Castelhão até Cavadas, onde agora vicejam campos de futebol, rotundas e supermercados. Chamávamos-lhe Carvalhal porque tinha carvalhas, bem jeitosas para fazer baloiços de pneu e outras brincadeiras, chão ervado e limpo, sombreado, um mimo para passar tardes de sábados e domingos à roda de um bom merendeiro, famílias, grupos de amigos ou bandos de moços aos cobóis, com todo o respeito pelos campos cultivados ali à beira. Era o verdadeiro "parque da cidade", mas nem fazíamos ideia. E em São Gemil havia outro. E mais dois ou três sítios assim, bouças e carvalhais, conforme vieram ao mundo e de usufruto universal. Vivíamos no paraíso, inocentes e despreocupados, sem fazer caso, sem dar valor. Até que um dia.
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Jardins perdidos
Traz uma árvore também
Era uma localidade um bocadinho estranha, naturalmente austera porém exuberantemente moderna e cosmopolita. Nas suas principais entradas, a autarquia colocara frondosas tabuletas que avisavam os forasteiros: "Se quiser sombra, traga a sua própria árvore".
E corria tudo bem no Paraíso. Quer-se dizer: corria tudo na paz do Senhor. Poder-se-ia até afirmar, creio que sem forçar demasiado a nota, que o Paraíso era, naquele tempo, um autêntico paraíso. Estava escrito, porém, que Adão e Eva tinham de asnear. Podiam ter cometido um pecado qualquer, um pecadinho de nada, um pecado repetido, copiado, um que estivesse na moda. Mas não! - quiseram ser originais. E foram. Adão e Eva cometeram o pecado original e deu na merda que deu. Até hoje.
Eu sou desse tempo. Do tempo em que ainda havia jardins. Não se sabe bem se foi por causa dos traques dos dinossauros ou derivado ao impacto de um asteróide gigante, eventualmente do tamanho de uma cidade, a verdade é que coisas antigas como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides, os jardins e assim foram regra geral varridas da face da Terra, restando hoje em dia apenas algumas amostras assumidamente raras e razoavelmente arqueológicas.
Para que a Humanidade tenha pelo menos uma vaga ideia de como era o mundo em Portugal antes do apocalipse é que Portugal descobriu Vila Nova de Foz Côa, por exemplo, e Fafe mantém às vezes de porta aberta o vetusto Jardim do Calvário, que nos seus tempos mais pré-históricos até teve crocodilos, e bem barulhentos, isso toda a gente sabe.
Os jardins antigos, os jardins entretanto desaparecidos, foram substituídos por urbanismo, é assim que se chama a nova coisa. E como é que isso se fez? Como é que isso se faz?
Desta maneira simples. Pegue-se num bom pedaço de terreno relvado, com árvores e com sombras, e arrase-se tudo. O terreno, a relva, as árvores e as sombras. O urbanismo não quer sombras. Encha-se o espaço de alcatrão, cimento, placas de granito e mármore, pedregulhos aparelhados fazendo de conta de bancos e estacas de alumínio a imitarem árvores ou, quem sabe, a imitarem esculturas muito inteligentes e indecifráveis, de preferência com esguichos mas sem água derivado à seca e à poupança. Isto é urbanismo! Pegue-se no jardim da cidade, arranquem-se as flores e os arbustos, envenene-se o verde, construam-se desertos em forma de praça e mandem-se as pessoas para casa. Isto é urbanismo! Pegue-se num monte, sítio de memórias, de brincadeiras da infância, santuário de locais secretos e míticos, reserva de saúde e natureza, e corte-se-lhe a crista, cape-se, desarborize-se, desfaune-se, terraplene-se, enxote-se a bicharada, cale-se o incómodo do chilreio dos pássaros, ergam-se moradias de preferência com feitio de caixote, altas, pegadas e muitas, fechadas, e muros e portões e alarmes e estradas e carros e escapes e buzinas e estampanços e atropelamentos e antenas parabólicas e fios e postes de alta ou remediada tensão. Isto é urbanismo!
Resumindo e concluindo: roubam-nos os jardins e dão-nos esplanadas desamparadas e escaldantes, arrancam-nos as árvores e impingem-nos guarda-sóis publicitários. E, se nos queixamos, dizem-nos que não percebemos nada do assunto. Mas qual assunto? Viver?...
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sexta-feira, 20 de março de 2026
Pagar o patau
Do piorio!A vingança serve-se fria. E, se possível, salgada. E em pratos esbotenados e sebentos...
As rosas do coveiro Gusto Sardão
O caminho da Felicidade
É fácil, facilíssimo. Sempre em frente até ao largo da igreja, vira à direita pela rua com árvores, passa pelo campo da bola e pela sede, torna à esquerda e logo na esquina, encostada ao café e depois do funileiro, há uma casa pequenina com porta vermelha e vasinhos floridos na janela: é aí que ela mora. Ela e os dois filhos. Cuidado com o cão!
No jardim dos meus sogros havia meia dúzia de roseiras razoavelmente produtivas e formiguentas. As flores vinham sempre cá para casa, as formigas às vezes também. Cinco das seis roseiras do jardim dos meus sogros davam rosas vermelhas, mas daquele vermelho sanguíneo, belíssimo, rosas de livro, de cartaz e de filme, e cheiravam a nada, coisa nenhuma, como se fossem de supermercado, de plástico. A outra roseira, exemplar único, logo à entrada, dava umas rosas cor-das-mesmas, numa corzinha envergonhada e pálida, quase pedindo desculpa, e porém mandava-me cá para fora um perfume que inebriava a léguas.
Era um cheiro bom que eu já conhecia e me tornava a Fafe, aos meus aromas de infância, enchia-me de saudades. Havia umas rosas assim, selvagens e vibrantes, ao fundo do esmerado quintal da Dona Maria Margarida, na espécie de alameda que descia a propriedade desde a Rua Monsenhor Vieira de Castro, partilhando muro com os terrenos do casarão do Zé de Freitas, que agora é o Aldi, e ia desembocar à Quelha, evidentemente com portão no fim, sempre fechado, quase em frente à velha nora de alcatruzes às vezes movida por boi ou vaca, por inexplicável falta de burros. Que bem que cheiravam aquelas rosas! E logo ali ao lado, na senhorial entrada da Casa do Santo, no pátio empedrado após o portal com brasão, eram as glicínias que emprestavam o seu perfume doce ao ambiente. Que bem que cheirava geralmente a Quelha, sítio de prazeres, amor, pecado e outras necessidades! Que tempos! Entretanto, a casa da Dona Maria Margarida, com vista, foi depois casa do Chiquinho Gonçalves, sem vista, e consta por lá hoje em dia o McDonald's, se não me engano. São outros cheiros...
Mas a nossa roseira. A roseira perfumosa, extraordinária, fora oferecida ao meu sogro, há muitos muitos anos, pelo Gusto Sardão, então coveiro titular do cemitério da então freguesia de Nevogilde, Foz rica, concelho do Porto. Para os registos: Augusto Francisco da Costa Almeida, enterrador de categoria e decilitrador condecorado, creio que uma coisa tinha a ver com a outra, pelo menos antigamente. O Senhor Augusto - Senhor, para mim, com todo o respeito - era um homem pequeno, queimado, irrequieto, malandro, tinha a voz mais bagaceira que Deus ao mundo botou, muito mais completa do que a do incompreendido disc jockey Bruno de Carvalho ou a do incompreensível actor Joaquim de Almeida, parece que ainda o estou a ouvir, ao coveiro, o que é tecnicamente impossível. Com efeito, um dia o Senhor Augusto resolveu seguir as pisadas da clientela, faleceu ele próprio para não empecilhar o negócio, e actualmente confraterniza com os seus antigos ossos do ofício. Isto é: continua ao serviço, mas agora do lado de dentro. Não sei como nem quem lhe paga a féria. O bom Gusto Sardão era, ou por outra, podia ter sido, penso-o agora, uma figura típica de Fafe, um cromo dos nossos tascos, do Chupiu, do Peludo, parece impossível como é que só vim a conhecê-lo no Porto.
Quando o nosso Kiko nasceu, o Senhor Augusto ofereceu logo mil escudos para a conta que a Mi e eu haveríamos de abrir para o menino, e abrimos. O Gusto foi o primeiro dador, no dia 1 de Maio de 1984, antes ainda da Dona Senhorinha Bastos e do abono, está tudo registado no livrinho. Eu não sabia deste uso pós-natal, e, confesso, aquilo, na altura, comoveu-me bastante.
Mas a roseira. A roseira extraordinária, delicada e odorosa, veio exactamente do cemitério, e isso é que eu ainda não tinha contado, e isso é que a torna realmente extraordinária. Do cemitério de Nevogilde, lugar do "santo" Menino Quim, de bruxedos ao portão e de outros espantos. As rosas, por exemplo. Rosas que não alcançavam a exuberância cardiofálica e escandalosa dos antúrios de ficção do fotógrafo Jorge Tadeu, na telenovela brasileira Pedra Sobre Pedra, mas que, na sua modéstia, se ofereciam abertas e feminis, reais, a quem as quisesse e soubesse desfrutar.
Abençoado cemitério que semelhantes rosas deu. Abençoado. Um cemitério assim é uma provocação, um desafio lançado a quem não acredita em nada para além do óbito. Um cemitério como o do coveiro Gusto Sardão dá sentido e utilidade ao serviço pós-morte, mesmo ao pós-vida dos incréus. Deve ser um conforto morrer sabendo que ao menos seremos estrume. E de rosas. Rosas subtis e perfumadas, rosas extraordinárias.
Abençoado cemitério que semelhantes rosas deu. Abençoado. Um cemitério assim é uma provocação, um desafio lançado a quem não acredita em nada para além do óbito. Um cemitério como o do coveiro Gusto Sardão dá sentido e utilidade ao serviço pós-morte, mesmo ao pós-vida dos incréus. Deve ser um conforto morrer sabendo que ao menos seremos estrume. E de rosas. Rosas subtis e perfumadas, rosas extraordinárias.
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quinta-feira, 19 de março de 2026
Em Cima da Arcada, à coca
Macaquinhos no sótãoEle tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...
quarta-feira, 18 de março de 2026
A vidinha a andar para trás
Em dois sítios
Ele era um tipo manifestamente azarado. Caiu e partiu o braço em dois sítios: mais precisamente em Mirandela, há coisa de dez anos, e no Sabugal, fará amanhã quinze dias.
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terça-feira, 17 de março de 2026
Flores ao solheiro
A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?
Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.
O passeio do jovem ciclista em cuecas
O ciclista isolado
Era um ciclista que se isolava com frequência. E também com fita preta Advance desde 1,44 sem IVA.
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segunda-feira, 16 de março de 2026
Rabichas, foguetes e foguetões
Cheira a Natal
Já cheira a Natal - alguém disse. Ele, atrapalhado, explicou - Não fui eu.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão - na televisão evidentemente a preto e branco do café Peludo - que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como o velho comboio Porto-Lisboa que era praticamente um luxo e chegava aos cem à hora. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por cá se chamavam. Foguete. E outro especialista em foguetes e apetrechos correlativos era o nosso Rates, raríssimo cromo de almanaque. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo, coisa gasosa, eventualmente sonora e, por norma, fedorenta. Quer-se dizer: um peido, uma bufa, um traque, um flato, uma farpa, um pum, com vossa repetida licença, e isso já seria matéria da alçada do nosso Moisés...
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O enchousado
Advérbios- Sobretudo ou principalmente?- Com este frio, sobretudo!
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domingo, 15 de março de 2026
O pinto-calçudo e o caga-na-saquinha
Haja decoro!A gente chama a casa um técnico da tv cabo, um electricista, um picheleiro, um trolha, e o que é que nos aparece? Um homem que se aninha, que se estica, que se dobra, que se deita e que nos mostra o rego do cu. Insistentemente o rego do cu. Indecentemente o rego do cu. Havia necessidade? Porque é que as respectivas entidades patronais não lhes dão fardas recatadas, por medida, com calças de cinta alta e camisas de fralda comprida? Ou então mandem-me raparigas do sexo feminino, valha-me Deus!...
Portanto, pinto-calçudo e caga-na-saquinha, duas filosofias de vida essencialmente diversas: o pinto-calçudo é uma coisa, questão de aspecto, e o caga-na-saquinha é outra coisa, questão de carácter. Evidentemente há quem acumule. Isto é: quem seja, por um lado e por outro, pinto-calçudo e caga-na-saquinha. Em Fafe tínhamos desses.
sábado, 14 de março de 2026
No urinol, o telemóvel (não) pode esperar
Óculos sem bateria
É desagradável. Pousar os óculos e depois não saber onde. E precisar deles para os procurar. E pegar no telemóvel para lhes ligar, obrigando-os a darem sinal de si. E então lembrar-me de que nunca pus os óculos a carregar.
É desagradável. Pousar os óculos e depois não saber onde. E precisar deles para os procurar. E pegar no telemóvel para lhes ligar, obrigando-os a darem sinal de si. E então lembrar-me de que nunca pus os óculos a carregar.
Pespontamento
Provador de factos
Ele era um desses modernos verificadores de factos. Trabalhava numa alfaiataria.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Os monos
Mulher amiga...
Com aquela caloraça, a mulher comprou-lhe um pijama de Verão, levezinho, de calça curta,
por acaso bem jeitoso. Chamou-o ao quarto, abriu o gavetão e disse-lhe: - Estás a ver? Gostas? Fica aqui guardado para quando fores para o hospital...
Em Fafe havia um excelente conjunto de lojas de monos, sobretudo no sector do vestuário, a mais interessante das quais seria, se não me engano, o Martins da Avenida nos seus últimos anos. O Martins da Avenida tinha, para além do mais, uma máquina registadora que valia a pena visitar. Era ela própria um mono, ou talvez uma relíquia, uma preciosidade, mas eu preferia vê-la - enorme, prateada, desnecessária, toda cheia de arabescos - como se fosse a verdadeira máquina do tempo de H. G. Wells, se por acaso funcionasse. Fui freguês dessa época do Martins da Avenida, já só lá estava o Quim, o grande Sousa, meu querido amigo. Era a minha fase tardo-hippie, pós-seminário, e alguns daqueles monos, ainda por cima ao preço da uva mijona, serviram-me às mil maravilhas para compor aquele ar tão coisa e tal, criteriosamente desalinhado, desprendido e cheio de "paz e amor", aquele arzinho que eu tanto queria parecer e, segundo consta, pareci...
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quinta-feira, 12 de março de 2026
O borra-botas e o cagão
Une petite différence
A diferença entre "panache" e panachê não se nota muito: é gasosa.
Borra-botas, o substantivo, posto que começou por significar, inocentemente, engraxador, ou, sejamos compreensivos, engraxador desastrado, espécie de expressionista abstracto do rez-de-chaussée, é nome que hoje em dia define indivíduo sem valor, pessoa insignificante, reles, desprezível, safardana, bisbórria, biltre, patife, salafrário, bigorrilha, pulha, bandalho, pobre diabo, trapalhão, troca-tintas, zé-ninguém, zé-dos-anzóis, zero-à-esquerda. O que evidentemente propicia que, em não raros casos, o borra-botas seja também lambe-botas, o que, convenhamos, mete um bocado de nojo.
Debrucemo-nos agora sobre o cagão. O cagão é, para início de conversa, o indivíduo que defeca com entusiástica frequência e notoriedade, ou, se for em Fafe, a criatura que se peida regularmente e por uma questão de princípio, mas o termo passou também a servir para identificar o homem medroso, caguinchas, medricas, cagarola, ou, por outro lado, o vaidoso, o presunçoso, o arrogante, o snobe, o pedante, o gabarola, o armante, o enfatuado, o figurão, o cabeçudo, o tem-a-mania. E este é que é o ponto...
quarta-feira, 11 de março de 2026
Os meus óculos de sol
Onde é que eu vou?
A minha mulher vestiu o meu roupão, vi-a sair mansamente do quarto, e pensei: - Porra!, onde é que eu vou, assim pequenino, que estava tão bem aqui na cama?...
Não sei quem sou por dentro de mim. Olho-me no espelho do quarto de banho, ali não tenho por onde fugir, e vejo-me apenas por fora. O espelho do quarto de banho é o meu espelho único, há que anos. Tento ser sincero com ele, justo comigo mesmo, olho-me olhos nos olhos mas só vejo os olhos que olham para mim. Vejo que os olhos que me olham vêem um velho turvo, baço, perplexo, talvez tonto, talvez zorro, eventualmente aiô Silver, tudo negro à minha volta. É esta mania de andar de óculos de sol dentro de casa...
As begueiras
Dia da MulherNo Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.
terça-feira, 10 de março de 2026
Um cartaz para as Festas
Quarteto de cordas
Eram um excelente quarteto de cordas: de sisal, de propileno, bamba e estática. As quatro acompanhavam regularmente a corda vocal. Quando assim, eram o Quinteto da Corda.
Ora bem. Fafe é uma terra de artistas, ó se Fafe é terra de artistas, é e não são assim tão poucos, e cada um mais artista que o outro, uma fartura só comparável à ausência de um verdadeiro cartaz para as Festas há não sei quantos anos. Vejo disso em todo o lado, cartazes de categoria, nas grandes romarias, em cidades que se prezam, verdadeiramente cosmopolitas, mas também em festas de caracacá e terras assim-assim, às vezes autênticas obras de arte, material de colecção, e eu, fafense e sem nada para guardar ou mostrar, fico envergonhado, triste e invejoso.
Custará assim tanto à Câmara Municipal abrir um concursozinho para o cartaz das Festas de Fafe? Um concursozinho, digo bem, porque, se a coisa for por encomenda, a gente já sabe quem ganha. Um concursozinho. Dará assim tanto trabalho? Será assim tão caro, tão fora do orçamento?
Olhai para Matosinhos, e o que vedes? As Festas do Senhor de Matosinhos, que têm sempre o seu cartaz. O Município até manda fazer livros magníficos com eles, com os cartazes antigos e artísticos. O cartaz do ano passado era da autoria do escritor Valter Hugo Mãe, que o fez de borla, ofereceu-o e pronto.
Olhai para Ponte de Lima, e o que vedes? Todos os anos é lançado concurso para a criação do cartaz oficial das Feiras Novas. Já são conhecidas as dez propostas finalistas para a edição deste ano e a escolha do cartaz vencedor será feita, pela primeira vez, por votação via SMS, aberta a todos os limianos maiores de idade.
Olhai para Fafe, e o que vedes?
Olhai para Matosinhos, e o que vedes? As Festas do Senhor de Matosinhos, que têm sempre o seu cartaz. O Município até manda fazer livros magníficos com eles, com os cartazes antigos e artísticos. O cartaz do ano passado era da autoria do escritor Valter Hugo Mãe, que o fez de borla, ofereceu-o e pronto.
Olhai para Ponte de Lima, e o que vedes? Todos os anos é lançado concurso para a criação do cartaz oficial das Feiras Novas. Já são conhecidas as dez propostas finalistas para a edição deste ano e a escolha do cartaz vencedor será feita, pela primeira vez, por votação via SMS, aberta a todos os limianos maiores de idade.
Olhai para Fafe, e o que vedes?
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segunda-feira, 9 de março de 2026
Lapsus linguae
A palavra apartir é como a palavra porcausa
Há muita gente que não sabe como é que se escreve a palavra apartir. E é fácil. A palavra apartir escreve-se da mesma forma que as palavras asseguir e afeder. Tal como porcausa. A palavra porcausa escreve-se da mesma forma que as palavras porexemplo, poracaso e porfavor. Todas estas palavras obedecem ao mesmo princípio - o da ignorância.
Entrei de rompante e gritei: mãos ao ar, isto é um assalto! Fiquei admirado. O que eu queria dizer era: alto e pára o baile! Eu andava desesperado e insone com aquele forrobodó todas as noites no apartamento de cima, bailarico até às tantas, cantoria sem norma nem excepção. E na hora agá, com tanto maldormir, a minha boca baralhou-se, fez confusão. Mas estava dito, estava dito: desci com um LCD de 100 polegadas, uma mesa de DJ, seis colunas de som surround, um globo espelhado, oito CD do Quim Barreiros, dois tablets, quatro telemóveis, sete relógios - um de sala -, seis pulseiras, cinco colares, doze pares de brincos, dois pacotes de batatas fritas, meia piza familiar de cogumelos e fiambre com extra queijo, um pacote de Sugus morango e framboesa, nove gramas de haxixe, garrafa e meia de vodka, duas canecas de sangria, vazias, três garrafas de Casal Garcia, treze cartões de crédito, um vale de reforma, 837 euros em numerário, um porquinho-mealheiro com a Justiça de Fafe por fora e 350 escudos em imprestáveis moedinhas de 1 escudo por dentro, um santinho da Senhora de Antime, uma bengala de Gestaçô, um par de canadianas praticamente novas - uma professora de Toronto e uma enfermeira de Otava - e a empregada doméstica, que também quis vir comigo.
A pintura do Mané
Artista compulsivoPintou a manta. A manta, as fronhas e os lençóis. Quando lhe vinha a musa, não tinha mão no pincel.
A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Isto é. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejolas bem bebidas e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo aos domingos de manhã, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...
Diálogos fafenses 83
Como é que se escreve a palavra porcausa?
A jovem profissional precisava de trocar uma folga e procurou ajuda junto da colega da secretaria. Uma de cada lado do balcão. Giras. A colega da secretaria passou o papel e a esferográfica à jovem profissional, e começou a ditar:
- Solicito, so-li-ci-to, troca de folga, de fol-ga, do dia 15 para o dia 23, por causa...
- Porcausa? Que palavra é essa? Como é que se escreve? - interrompeu a jovem profissional, descontraidamente ignorante e escandalizada, e, tipo, com toda a razão.
A jovem profissional precisava de trocar uma folga e procurou ajuda junto da colega da secretaria. Uma de cada lado do balcão. Giras. A colega da secretaria passou o papel e a esferográfica à jovem profissional, e começou a ditar:
- Solicito, so-li-ci-to, troca de folga, de fol-ga, do dia 15 para o dia 23, por causa...
- Porcausa? Que palavra é essa? Como é que se escreve? - interrompeu a jovem profissional, descontraidamente ignorante e escandalizada, e, tipo, com toda a razão.
domingo, 8 de março de 2026
Desconstrução civil
O problema da habitação
As rendas estão cada vez mais caras. Quanto aos bordados, já ninguém lhes liga.
Perguntavam-lhe pela profissão e ele respondia, orgulhoso, "operário da desconstrução civil". Era um especialista, com efeito. Ele e mais dois camaradas chegavam, de marreta e pé-de-cabra, picareta pneumática e um ror de sonoras caralhadas, e num mês, mês e meio, escavacavam completamente uma casa, esvaziando-a de pavimentos, divisórias, tectos, portas, janelas, memórias e telhados. Só ficavam os alicerces ao baixo e as paredes exteriores ao alto. Depois vinham os outros, os da construção civil, e faziam mais um alojamento local.
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Diálogos fafenses 82
O office-boy
No tempo em que havia trolhas em Portugal, os trolhas eram "artistas" e tinham um moço. Para além de levarem umas valentes e educativas chapadas para aprenderem nunca se soube bem o quê, os moços faziam recados:
- Moço, traz a massa!
- Moço, vai ao tasco!
- Moço, cata-me os chatos!
- Moço, toma conta se o mestre vem!
- Moço, anda cá que já vais treinar!
- Moço, agarra-me este peido e põe-mo a corar!
Era assim naquele tempo, pelo menos em Fafe. Hoje os trolhas chamam-se pintores de construção civil, como se trolha fosse defeito. Não sei.
No tempo em que havia trolhas em Portugal, os trolhas eram "artistas" e tinham um moço. Para além de levarem umas valentes e educativas chapadas para aprenderem nunca se soube bem o quê, os moços faziam recados:
- Moço, traz a massa!
- Moço, vai ao tasco!
- Moço, cata-me os chatos!
- Moço, toma conta se o mestre vem!
- Moço, anda cá que já vais treinar!
- Moço, agarra-me este peido e põe-mo a corar!
Era assim naquele tempo, pelo menos em Fafe. Hoje os trolhas chamam-se pintores de construção civil, como se trolha fosse defeito. Não sei.
Fafe e o garibaldismo
PatriotismoO patriotismo é coisa para ser levada a peito, há quem diga.
Garibaldi foi um general italiano que ficou muito famoso por usar blusão vermelho. Mais tarde o ilustre mercenário, guerrilheiro, revolucionário e patriota, alcunhado Herói de Dois Mundos por certas e determinadas razões, transformou-se em camisola de fora ou casaco curto de mulher e numa espécie de guindaste geralmente improvisado e ainda hoje muito usado na construção civil, sobretudo em obras assim mais artesanais ou domésticas, basta ir por essas belas aldeias de Fafe fora, que só o passeio já vale a pena.
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