domingo, 15 de fevereiro de 2026

Metia-se a cotio

As grandes decisões tomam-se em cuecas
No dia em que decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia, azar do caraças. Ficou como um pito! Mudou de roupa e resolveu dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.

Antigamente metia-se a cotio. Cotio, para além de nome de uma casta de figos algarvios ou de uma variedade de grão-de-bico, quer também dizer, como adjectivo, que coze facilmente. Cotio era coisa de todos os dias, de uso quotidiano. Cotiar é trazer a cotio ou quotidianamente, gastar com o uso ou, até, regionalmente, motejar. É usar-se muito a miúdo, repetir-se. Havia a roupa de domingo e a roupa da semana, quer-se dizer, a roupa de cotio, do dia-a-dia, assim nos organizávamos em Fafe. Com o tempo e a missa e a traça, a roupa de domingo ia ficando desbotada, coçada, puída, picada, então metia-se também a cotio, servia para o trabalho, para a vida de casa ou para a labuta no campo. Era. Antigamente metia-se a cotio.

Grande momento de televisão

Pedimos desculpa por esta interrupção
Às vezes pergunto-me como seria o mundo sem televisão. E acho que provavelmente seria um bocadinho melhor.

Uma vez à noite, na TVI, Janeiro de 2012, como se fosse ontem. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Ele era ainda apenas comentador ou, vá lá, pitoniso oficial do regime. Falava da troika e de Cavaco Silva, que lhe estava a aquecer o lugar, de Pedro Passos Coelho e de António José Seguro, que então existiam, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de cabeludos, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. Como hoje em dia. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho por assim dizer. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor (na verdade os seus comentários nunca me interessaram realmente), e concentrei-me no desfile em fundo. Fiquei cliente do programa de variedades, mas infelizmente elas nunca mais apareceram...

Marcelo, o que tudo sabe

O feitiço e o feiticeiro
Quando o Feitiço se virou contra o Feiticeiro, o Feiticeiro resmungou: - Mal agradecido...

Sou fã de Marcelo Rebelo de Sousa, acho-lhe piada. Embora fosse mais fã e achasse mais piada no tempo em que ele era "apenas" comentador. Gostava mais dele nessa altura. Gostava daquele ar cartomante com que o Professor nos revelava tudo aquilo que nós já sabíamos. Parecia bruxo. Parecia O Astro, mas sem turbante. Gostava daquele sorrisinho matreiro, sorrisinho marca já-te-fodi. Gostava da forma como o Professor ia à televisão vender pedaços de nada como se fossem o mundo inteiro. O truque estava no poder de concentração e nos embrulhos. Marcelo usava papel de embrulho do melhor: papel de lustro, manobrista e recadeiro. E os fregueses adoravam. Marcelo sabia mais que o Papa. Sabia mais que a Irmã Lúcia, que está quase a ser santa. Sabia o passado e o futuro. Marcelo era o nosso presente. E agora é o nosso Presidente.
A omnisciência sempre me seduziu. Desde miúdo, quando, ainda em Fafe, eu ia a casa do Bertinho Dantas, meu rico menino, jogar O Sabichão. Depois, ao longo da vida, tive a sorte de encontrar sábios a sério em velhos lavradores, em professores, em camaradas de profissão, em três ou quatro amigos, gente que muito respeito e continuo a admirar. Nunca acreditei nas sinas lidas pelas nossas ciganas, às quartas-feiras, em Cima da Arcada, com um olho na mão e o outro na polícia, mas dava algum valor ao cartãozinho com o horóscopo que saía na balança colocada à porta do escritório das camionetas do João Carlos Soares, em frente ao Café Avenida, quanto mais não fosse a moeda de 50 centavos que aquilo custava.

Era uma vez 2005, ano de eleições legislativas em Portugal. Luís Filipe Menezes chefiava a lista do PSD por Braga e foi em pré-campanha a Celorico de Basto. O cabeça de cartaz do jantar-comício era Marcelo Rebelo de Sousa, o figurão. O meu jornal mandou-me atrás dele. PSD à parte, eu sentia-me ali particularmente à vontade, era a minha zona, a bem dizer. Na ementa, lombo assado evidentemente.
Não sei se sabeis, o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, é a comida oficial da política em Portugal, e também é, regra geral, uma boa merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Um suplício.
Mas adiante. Dos discursos, lembro-me apenas que Menezes "lançou" a candidatura de Marcelo à Presidência da República, oferecendo-lhe um quadro já não sei com que motivos. No final das intervenções, Marcelo andou de mesa em mesa, como noivo em dia de casamento, distribuindo bacalhauzada àquela gente toda a quem fazia questão de fazer de conta que conhecia cara a cara.
Eu aproveitei a confusão para dizer ao que ia:
- Sr. Professor, eu sou o...
- Eu sei - cortou simpaticamente Marcelo, estendendo-me a mão e um sorriso de orelha a orelha.
- ... o Hernâni Doellinger, do...
- Sei muito bem quem é - insistiu Marcelo, retirando a mão e reduzindo o sorriso.
- ... jornal 24horas - consegui informar, enfim.
- Exactamente, eu sei, sei muito bem, Hernâni, 24horas, eu sabia - concluiu Marcelo, metendo o resto de sorriso no bolso das calças e pedindo licença para continuar com os cumprimentos, que ainda havia muitas mesas para bacalhauzar no salão de cima e que falávamos no fim.
Claro que não falámos. Marcelo Rebelo de Sousa foi-se embora como quem não quer a coisa, fugiu pela porta dos fundos sem me dar uma segunda oportunidade, e se calhar até fez bem, o 24horas não se recomendava. Também não interessa. O importante é isto: o Professor não me conhecia de lado nenhum, nunca me tinha visto mais gordo nem mais magro, mas apareci-lhe à frente e ele "soube" logo quem eu era. Não é extraordinário? Agora que penso nisso, devia ter-lhe pedido que me deitasse as cartas. E que me desse os números do Euromilhões.

Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que cumprimentei Marcelo Rebelo de Sousa naquele encontro histórico de Celorico de Basto. Os nossos contactos seguintes, tal como os anteriores, resumiram-se ao telefone. Ligava eu, por dever de ofício. E o Professor atendeu-me quase sempre. E foi sempre amável e útil. Depois mudou-se para Belém, e nunca mais falámos.

E para terminar. Sobre O Astro - "Pensar, Professor, pensar..." -, quem tiver idade para se lembrar da telenovela de Janete Clair e do desempenho do actor Francisco Cuoco percebe a história do cartomante, quem for mais novo que se informe. E reparai: em 2005, portanto há vinte anos, ainda as selfies em Portugal eram geralmente outra coisa, Luís Filipe Menezes também lia a sina, adivinhava a candidatura do Professor, exactamente em Celorico, mas não era assim tão difícil. Marcelo, estava-lhe nas linhas das mãos, trabalhava no assunto desde que nasceu. Com efeito, Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República desde pequeninho. Pequeninho, que é como se diz pequenino lá para os nossos lados galegos de Fafe e Basto. Ou pequerricho. Como o nosso Luisinho, que, haveis de ver, também é homem para chegar lá.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Valia-nos São Valentim

Foto Tarrenego!

A torto e a direito
Ele não era para brincadeiras. Com um coelho, matava logo duas cajadadas.
 
Os meus dias de São Valentim eram porreiros. Sempre. Recebesse ele quem recebesse, Presidente da República, primeiro-ministro, ministros disto ou daquilo, fossem quiçá o Papa, Trump, Cicciolina ou até a rainha de Inglaterra ou o sultão do Brunei, ele, Valentim Loureiro, em funções de presidente da Câmara de Gondomar ou da Metro do Porto, ultrapassava tudo e todos, tomava conta do protocolo e das operações, comandava as tropas e... armava barraca. Sempre. Era um regalo para mim e para o meu jornal de então, o 24horas, que me mandava atrás do Major à procura das partes gagas, que eram umas atrás das outras, estrambólicas até dar com um pau. Eu era o enviado-especial, o especialista em Valentim Loureiro, e o homem nunca me deixou ficar mal. Ele era, como eu então lhe chamava, o meu cromo da sorte. Trabalhávamos a meias, tipo parelha de palhaços. O meu papel consistia em ver, ouvir, perguntar e transformar depois a notícia em anedota, e creio que também não me saía nada mal.
Desconfio que isto não me elogia, talvez até me desclassifique, mas Valentim Loureiro gostava de mim. E ria-se do que eu escrevia sobre ele. Quero dizer, ria-se dele próprio, das suas pantominices, o que só lhe enaltece a inteligência. Não éramos amigos, nada disso, mas desaguisámo-nos apenas uma vez, se bem me lembro, numa desconversa em privado, e por causa da Fábrica do Ferro, de que ele entretanto destomara conta em Fafe...
Quando os putos de Lisboa que rebentaram com o 24horas resolveram começar por fechar a redacção do Porto, a ver se salvavam as suas próprias pessoas, Valentim Loureiro disse-me logo que fosse ter com ele, que me arranjava emprego. Agradeci, naturalmente, mas nunca mais lhe apareci. Prezo inegociavelmente a minha liberdade e a minha independência pessoal e profissional, ou vice-versa, mas registei. E continuo grato. Ele foi um dos poucos que quiseram saber de mim.
Valentim Loureiro, o nosso Valentim, não era santo nenhum, antes pelo contrário. Tinha um feitio lixado, e espero que ainda tenha, que é bom sinal. Teimoso, virulento, desbocado, vendedor de banha de cobra e de retroescavadoras com luzinhas, de pares de sapatos só direitos ou só esquerdos, oferecedor de varinhas mágicas e outros electrodomésticos, desinformado, populista, voluntarista e amiúde irresponsável e talvez trafulha, nem sei como não foi ele o inventor do Chega, o Major trocava sistematicamente as voltas aos seus desgraçados e bem pagos assessores, que não conseguiam ter mão nele e escondiam-se pelos cantos (já que não conseguiam esconder o patrão), chorando baba e ranho e arrepelando os cabelos de incompetência. Estes, sim, é que tinham paciência de santo, mais ordenado chorudo e garantido no fim do mês, fora as mordomias e as abébias e os segredos que iriam acabar em livros patetas, mais reforma de político, instantânea e garantida, coitadinhos, tenho tanta pena deles...
Dirigente desportivo carismático e afável trampolineiro, visionário construtor do Boavista moderno, para o bem e para o mal, Valentim presidiu aos destinos do clube do Bessa durante 19 anos. Oficialmente. Não oficialmente, foram, são, muitos mais. O treinador Manuel José, que orientou os axadrezados durante a primeira metade da década de noventa do século passado, teve talvez a melhor tirada acerca de Valentim Loureiro. Disse um dia o míster, na televisão, resumindo tudo: - Às vezes, aturar o Major é pior do que ir a pé a Fátima...
E decerto era, mas eu nunca fui a Fátima a pé, e na única vez que tentei ir a São Bentinho, sem promessa ou compromisso, desisti parece-me que por alturas das Cerdeirinhas, para grande desgosto do saudoso Agostinho Cachada, que era o nosso guia. Mas Valentim Loureiro, o cromo, faz falta. Faz-me falta. Que isto Portugal está uma tristeza, um desconsolo. Uma perigosa pasmaceira. E o Boavista, afinal, escangalhou-se...

O meu primeiro casamento

Com princípios
Ele era um tipo com princípios e valores, sabia das suas obrigações. Casou. Casou pelo civil e casou pela Igreja. Por amor é que não!

O meu primeiro casamento foi o casamento do meu padrinho e tio Américo com a minha querida tia Laura. Vieram convidados do Porto e eu andei de "pão de forma" em forma de Volkswagen, numa épica viagem entre a Igreja Nova e os Bombeiros antigos, logo ali no meio dos palacetes, talvez nem 100 metros sempre em linha recta, e ainda assim enjoei. A fotografia "de conjunto" foi tirada a preto e branco nas escadas do Hospital, talvez esteja a inventar, e o banquete teve lugar no velho salão da Bomba, eu metido numa mesinha à parte para as crianças, logo depois da grande porta dupla de entrada, e portanto não gostei. O meu segundo casamento, eu já rapaz, foi o casamento do meu tio Zé da Bomba com a minha querida tia Lena. Vieram convidados do Porto, evidentemente, comeu-se no famoso Restaurante Jordão, em Guimarães, fui apresentado aos agriões em salada, houve discursos e não me lembro de como é que fomos para lá, se calhar a minha mãe teve de alugar um carro, serviço que decerto ainda hoje, mais de 50 anos depois, andará a pagar a prestações. O meu terceiro casamento foi o casamento da minha irmã Nanda com o meu cunhado Álvaro. Não tenho ideia se veio alguém do Porto, mas provavelmente veio, porque fazia parte ou então era mania, tara de família, isso de vir alguém do Porto, e aquilo fazia-me espécie. "Os do Porto" não era por acaso que eram "os do Porto". Ser-se "do Porto" era um merecimento, uma espécie de doutoramento ou condecoração, estatuto, posição, em todo o caso. Eu ia para o Porto de comboio, automotora, vá lá, de cu tremido e geralmente a dormir, só para namorar, essa é que é a verdade, nunca fiz nada na vida, mas eles não, tinham ido para o Porto a pulso, mais difícil ainda do que ir para a França a salto, "estavam muito bem", regressavam para as festividades da terra, de fato e prendas, magnatas e um bagaço, ninguém sabia o que é que eles realmente faziam no Porto, se é que faziam alguma coisa, e se eventualmente não seria em São Mamede de Infesta ou em Rito Tinto, para não ir mais longe, mas, para todos os efeitos, eram "os do Porto", parentes desconhecidos e habitualmente desnecessários, porém com direito a vénias e mordomias sempre que se apresentassem, e eu, quer-se dizer, afinava com tanto fingimento. Tornando à Nanda e ao Álvaro, que é o que mais importa, a cerimónia religiosa creio que se passou na Capela de Santo Ovídio, que era moda naquele tempo, e o almoço lembro-me que foi muito bem servido no restaurante do Café Académico, tudo em Fafe. Depois dos meus três primeiros casamentos, tive evidentemente outros casamentos, inclusive o meu, que ainda hoje vigora, não é para me gabar. O meu casamento realizou-se por acaso no Porto e vieram convidados de Fafe. Muitos. A maioria qualificada. Não foi vingança, mas soube bem.

Amor era coisa de todos os dias

Ou por outra
O amor é muito lindo. O "jackpot" do Euromilhões é muito mais.

Casámo-nos no Dia dos Namorados, mas não sabíamos. Era um dia luminoso por si só. Naquele tempo não se sabia que havia Dia dos Namorados e não fazia falta nenhuma: ainda não tinham sido inventadas as lojas de inutilidades fofinhas nem as ementas de "jantar de namorados" em restaurantes fatelas e oportunistas. Havia o amor. E o amor não precisava de dias marcados no calendário, datas certas. O amor era coisa de todos os dias. Namorava-se a cotio e pronto, e namorar era bom. Namorar é bom! Casámo-nos no Dia dos Namorados, faz hoje exactamente um número considerável de anos. E é como se tivesse sido ontem, como se fosse amanhã.
Mas o que eu queria realmente dizer, antes que me esqueça: o Dia dos Namorados é uma treta; o aniversário do nosso casamento, não. E o sol brilha outra vez!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

No princípio era o rádio

O campeão
O melhor relatador de jogos de futebol na rádio portuguesa é de Fafe e chama-se Carlos Rui Abreu. Ouve-se na Antena 1.

O rádio, diz a Wikipédia, é um elemento químico de símbolo Ra, número atómico 88 e massa atómica 226, pertencendo à família dos metais alcalino-terrosos, grupo 2 ou IIA da classificação periódica dos elementos. À temperatura ambiente, o rádio encontra-se no estado sólido. É um metal altamente radioactivo encontrado em minerais de urânio como, por exemplo, na pechblenda, que, coitadinha, não tem culpa do nome que lhe puseram. As suas aplicações são derivadas do seu carácter radioactivo. O rádio foi usado em medicina, nomeadamente no nosso famoso roxis, e depois substituído por radioisótopos mais eficientes, segundo dizem os entendidos. Foi descoberto por Marie Curie e seu marido Pierre, em 1898. O rádio era um sucesso absoluto, até que apareceu a televisão, isto ainda antes da internet e das chamadas redes sociais. Mas cá se vai safando...

O Jorge e o senhor de gravata

Foto Ivo Borges / O Minho

O amplexo veio para trás
O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço."
O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado."
E eu pensei: o meu abraço tinha defeito?...

Imperdoável. Atrasei-me mais de dois anos para dar com esta sensacional fotografia, e foi por acaso, quando andava à procura de memórias do Café Chinês, de Fafe. E não penseis que o extraordinário do retrato tirado com toda a oportunidade pelo Ivo Borges é o Presidente da República bebendo um fininho, não, o importante mesmo é o Jorge, em primeiro plano, o grande Bergiga ou Bergiguinha, meu inseparável companheiro de infância, ele e o Abílio, o Bilinho, esse Bilinho exactamente, são os meus primeiros amigos, éramos três como os mosqueteiros, um por todos e noves fora nada, unha com carne, inocentes e terríveis, fazedores não premiados de trinta por uma linha. Marcelo Rebelo de Sousa, aqui, é apenas o senhor de fato e gravata azul que está à beira do nosso Jorge, nada mais do que um simples adereço, posto que de gabarito, talvez uma espécie de emplastro de luxo.
Isto reporta a Julho de 2022, numa ocasião em que Marcelo foi falar a Fafe, a convite da Câmara. Do encontro que aqui verdadeiramente interessa, o jornal O Minho deu então notícia, assim:

"Jorge, um conhecido fafense, contou: "O Senhor Presidente parou aqui no Café Chinês, onde eu estou várias vezes, e eu disse-lhe que um dos melhores finos de Fafe é no Café Chinês. E o Presidente disse que alinhava no fininho, mas que não podia beber muito, porque ia fazer um discurso. É uma pessoa muito comunicativa e simpática, até fiquei impressionado."

Estiveste bem, Jorge! Marcelo não podia ter encontrado melhor companhia para molhar a palavra. Ele nem sabe a sorte que teve por estar-te ao lado. Nunca te viu jogar à bola, desconhece que tu é que inventaste as fintas do Messi, do Neymar ou do Cristiano Ronaldo, e rias-te. Para mim, tu é que devias ser presidente da república, porque mereces, mereces tudo, mas é o país que temos. Para além do mais, és "um conhecido fafense", mais conhecido que os tremoços, que também teriam dado jeito com a cervejinha.
Da última vez que nos encontrámos e nos rimos, caro amigo, já há uns anos e ainda no Peixoto, ao balcão, pagaste tu, sem me dar hipótese, lembro-me bem, e não te saiu barata a brincadeira. Estou, portanto, a dever-te uns fininhos. Mas devo-te muito mais do que isso...

Namore e, olhe, mate-se!

Os famosos do dia
No dia 29 de Dezembro de 1891 o empresário americano Thomas Edison patenteou o rádio. No dia 29 de Dezembro de 1987 o tractorista português Anacleto Felgueiras fracturou o cúbito.

Antena 1, a nossa rádio pública, pouco depois das 21h15 de um Dia de São Valentim, que será outra vez amanhã. O locutor, voz excelentíssima, põe ao lume os chouriços do costume, prepara a entrada de Sérgio Godinho mas escorrega na burilada bucha de ligação. "Se vai na estrada, conduza com cuidado. Olhe, aproveite para namorar!..." - diz ele. E realmente. Há lá melhor maneira de morrer num acidente de viação...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Lágrimas por Marcelo

A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a, por assim dizer, política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes de más-vindas. Eu nem queria acreditar. Fiquei de todo. Os meus olhos, virgens e patrióticos como eu inteiro, viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela clandestina hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me inesperadamente em choro. Chorei de raiva, dorido pelo Senhor Presidente do Conselho. Como se atreviam aqueles gajos?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final, ainda que o caso fosse particularmente Moçambique.

No regresso a Lisboa, Marcelo foi, graças a Deus, surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas...
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se quereis que vos diga (e ainda que não queirais), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, miúdo, ignorante, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.

Diálogos fafenses 63

Diz-me Baudelaire, meu amor
- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Coitadinho...
- Coitadinha...

Conspiradores de carregar pela boca

Foto Hernâni Von Doellinger

Maxismo para principiantes
Depois de inventar o comunismo, Marx fez comédia em Hollywood, cantou "A mula da cooperativa", candidataram-no à Presidência da República pela UDP, abriu um restaurante em Fafe, foi inspector canino numa série da TVI e jogou a defesa-direito no Benfica e no FC Porto. Actualmente, em versão Nuno, diz piadas na rádio e às vezes no canal da televisão para antigos.

Portugal ardia no ano de 1975. Em Fafe, o ambiente político e social também se extremava, de uma forma particularmente artificial e burgessa, manobrada à distância, os artífices sem darem a cara e os burgessos na linha da frente, e com consequências tão trágicas, tão localmente desestruturantes, deixando feridas tão a céu aberto, que a nossa terra nunca mais foi a mesma - mas isso, a história dessa irreparável tristeza, fica para outro dia.
O País a ferro e fogo, e Fafe também. Havia ameaças, tiros, atentados, punham-se bombas, assaltavam-se e incendiavam-se sedes partidárias. Sobretudo a Norte. Sobretudo sedes do PCP. Com a bênção do cónego Melo. Dava na televisão, saía nos jornais, que tomavam posições panfletárias. No Comércio do Porto, dois jornalistas experientes e com óbvia agenda, Ercílio de Azevedo e Fernando Barradas, assinavam uma coluna que viria a dar brado, "Os Cravos na Ferradura", um espaço militante com o seu quê de reaccionário, como então se dizia à esquerda. Essas crónicas, geralmente bem esgalhadas, escritas às vezes com graça, foram o consolo e o farol doutrinário de muito boa e santa gente durante o PREC (Período Revolucionário em Curso) e o Verão Quente, do 11 de Março ao 25 de Novembro, e com tal sucesso entre os leitores mais conservadores ou fascistas recentemente desmamados que as tiragens do Comércio terão subido aos cem mil exemplares, contando-se até que houve jornais, em certos dias, a serem vendidos na candonga a 100 escudos cada um.
O êxito foi tal que alguns daqueles artigos transformaram-se rapidamente em livro, com prefácio de Paradela de Abreu, evidentemente. A obra, com o mesmo título da rubrica original, "Os Cravos na Ferradura", ainda hoje pode ser encontrada por aí, na internet, em diversos sítios de alfarrabistas e simpatizantes, mais ou menos recomendados.
O Comércio do Porto era objecto de culto. No país beato e de direita revanchista, guerrilheira, e em Fafe também. Um dia, 11 de Outubro de 1975, estava eu no tasco do Nacor com o meu tio Américo, eu e os meus 18 anos, na cozinha da Dona Isabel, que era um brinco e um mundo, e o Landinho Bacalhau, o antigo, anunciou que um grupo de ilustres fafenses iria homenagear naquela noite os jornalistas do Comércio. Seria com uma ceia, altas horas, no restaurante do Café Académico, e os homenageados fariam o favor de comparecer.
Eu quis logo saber se admitiam penetras, como quem diz, a minha pessoa. Eu queria conhecer jornalistas a sério, precisava de ver como é que eles eram. Se eram praticamente como nós, as pessoas normais. O Landinho explicou-me que "a condição sine qua non" para participar na coisa era ser leitor do Comércio do Porto, e isso eu era, porque o Comércio do Porto era o meu jornal, isto é, o jornal do café, do Peludo, mas que tinha de perguntar ao organizador do evento, que era o Senhor Francisco Oliveira, que disse que sim, eu podia ir. Por outro lado, aquela foi a primeira vez na minha vida em que ouvi a expressão cagona sine qua non e gostei bastante, embora esta seja também a primeira vez em que a uso motu proprio, e logo duas vezes. Qualquer dia tenho de usar a palavra "empoderamento", que também nunca usei. Ups...

Portanto lá fui. O grupo de ilustres fafenses era composto, se não me engano, pelo vimaranense Fernando Roriz, que foi deputado, presidente do Vitória e vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, entre outras encomendas, pelo Dr. Marques Mendes, Dr. Antunes Guimarães, Chiquinho Gonçalves, Manel da Pinta, o Landinho, o Francisco Oliveira, eu a um canto a tirar apontamentos de cabeça, decerto mais alguém ou alguéns de que não me lembro e, não sei porquê, gosto de pensar que o Dalmo Pinto também por lá passou ou esteve, antes, durante ou depois.
Um curioso painel, aparentemente heterogéneo, unido talvez, pelo menos naquela altura, se é razoável dizê-lo, por um certo anticomunismo, semântico, primário ou até mandante, consoante os casos, gente de alguma forma ligada ao PSD e ao PS locais, e eu, que não era de um nem de outro, antes pelo contrário, lá estava destoando como sempre e ainda hoje me sinto muito bem com isso.
Da parte do Comércio do Porto, o Fernando Barradas primou pela ausência, mas apresentou-se o Ercílio de Azevedo, acompanhado por dois futuros directores do jornal, o Silva Tavares e o Manuel Teixeira, que era então um rapazinho e que viria a ser também administrador da Lusomundo e chefe de gabinete de Rui Rio na Câmara do Porto, sendo mesmo considerado, ainda hoje, o principal conselheiro do ex-líder do PSD. Não eram os únicos, que nisto, quando é para comer e beber, os jornalistas aparecem sempre, mas varreram-se-me os outros.
A ceia foi a madrugada inteira e os pormenores mais delicados ficam, para já, comigo. Mal eu sabia como é que viria a ser a minha vida alguns anos mais tarde. Comeu-se e bebeu-se bem, isso posso desde já dizer. Falou-se muito. Eu não. Anticomunistou-se com assinalável pertinácia, atrevo-me a supor. O Dr. Guimarães meteu os jornalistas na ordem quando um deles, entusiasmado, se pôs em bicos de pés e falou em "descer as escadas do jornal para contactar com o povo", algo do género. Percebemos porque é que Ercílio de Azevedo, autor das famosas "Tripas à moda do Porto", escrevia melhor, segundo nos contaram, quando decilitrava. No centro da mesa havia um bolo que o Senhor Francisco Oliveira mandara fazer na Pastelaria Monumental. O bolo exibia uma ostensiva pena alegórica e decerto alguns dizeres alusivos aos plumitivos convidados. Não sei quem é que pagou a conta, bolo incluído, que deve ter tido uma saída do caraças, não faço sequer ideia se havia preço de inscrição ou multa de presença. Se havia, eu fiquei isento.

Agora. O Senhor Francisco Oliveira (1928-2021) era um querido amigo. Não naquela altura, mas nos últimos anos. Ligava-me de vez em quando, falávamos de Fafe, avisava-me que vinha ao Porto, a tratamento, mas só nos pudemos encontrar uma vez. Passámos um pedaço de tarde à conversa na Rua Sampaio Bruno, na esplanada de um cafezinho, contou-me do livro que queria escrever, tirei-lhe o retrato que pus lá em cima, visitámos a Feira do Livro, que por acaso naquele ano era ali ao lado, na Avenida dos Aliados. Ele comprou e eu não. Também ia sabendo dele pelo Bertinho Dantas.
O Senhor Oliveira, Francisco Oliveira Alves, era um homem bom, generoso, às vezes de uma desarmante pureza, e esforçava-se por fazer parte da História. Fez. Houve quem o usasse, e ele queixava-se. É um fafense excelentíssimo, certamente um dos melhores da sua geração. Para além disso, era pai do Chico, meu colega de escola e amigo de infância, mas isso já seriam outros quinhentos.
Só hoje, entre parágrafos deste texto, é que apaguei do meu telemóvel o número do Senhor Francisco Oliveira. Era assim que lá estava: Senhor Francisco Oliveira. Apaguei e, caramba, agora parece-me que perdi alguma coisa e não sei o que hei-de fazer ao velho cartão-de-visita corrigido à mão que ele um dia também me deu e eu ainda guardo...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Por mor de

Amai-vos uns aos outros (mas devagarinho)
Ele padecia de um tipo particularmente violento de paronímia. Amiúde confundia bondade com bondage - o que, convenhamos, é deveras inconveniente.

"Ó mor, mor!", dizem elas e dizem eles, namorando-se ou apenas chamando-se, às vezes agredindo-se, querendo dizer, tipo, amor. Elas e eles de todos os géneros e feitios e estratos sociais, um "mor" universal e transversal, ao contrário do que eu cheguei a pensar. Eu supunha que isto do "ó mor!" era conversa rafeira, chunga, patoá de bairro, mas estava enganado, é "ó mor!", tipo, para toda gente, pobre, rica e remediada, analfabeta e doutorada, provavelmente tenho de começar a sair de casa.
É claro que também há o mor que se lê e diz mór, e que é uma redução de maior, e não de amor, que se usa, por exemplo, na frase "assunto da mor importância" e, mais frequentemente, ligado por hífen ao nome que qualifica para indicar superioridade hierárquica ou chefia, ou até suprassumismo, caso de palerma-mor.
Maior, em Fafe, também se dizia moor e, sobretudo, maor, que a minha mãe ainda diz e eu, às vezes, por graça, também. Mas aonde eu queria chegar, e já cá estou, era ao "por mor de", lendo-se e dizendo-se, neste caso, "por môr de", como dizia tão bem a minha querida avó de Basto. "Por mor de" quer dizer "por causa de", "em atenção a", "para", "por amor de" ou, ainda melhor, "derivado a", na pândega, assertiva e estupidamente criticada adaptação de António Lobo Antunes, que eu tanto gosto de usar e abusar. É isso. Vou a correr, por mor de não me atrasar. Ou por outra: corro, derivado à pressa...

Diálogos fafenses 62

Ó mor, mor
- Ó mor, mor! Tu mamas, mor?
- Ó mor, claro que tamo, mor.
- Diz-me a verdade, mor. Tu mamas, mor?
- Tamo, mor. Tamo tipo bué, tás a ver, mor?
- Não, mor, tipo a sério, mor, tu mamas-me tipo... a sério, mor?
- Tamo-te, mor. Tamo-te tipo, mor.
- Mamas-me mesmo, mor?
- Tipo agora, mor?...

As paredes tinham ouvidos

Isto sou eu a falar

"Mas isto sou eu a falar", disse inesperadamente. E era. Realmente era ele a falar, sem qualquer sombra de dúvida. Mas que revelação extraordinária!

No tempo em que as pessoas falavam, as paredes tinham ouvidos. E os soalhos também. E os tectos. Mas as pessoas falavam, mulheres e homens, porque era preciso, falar era respirar, era prova de vida, e não vai assim há tanto tempo. Os cafés, as mesas de restaurante costumavam ser sítios de conversa, de tertúlia, de crítica, de protesto, de esgrima de argumentos. De vida. Ainda os nunos rogeiros e os marcelos rebelos de sousas não tinham sido inventados pela televisão e já nós sabíamos tudo de tudo, primeiro no Peludo e depois no Peixoto, cafés evidentemente em Fafe, que era o centro do mundo. Guerra, França, futebol, política, Mário Soares e Álvaro Cunhal, pesca e caça, religião, padres fodilhões, música, alterações climáticas, vinho, teoria da relatividade, teorias da conspiração, medicamentos, bolo com sardinhas, gajas e automóveis, festival da canção, rácios bolsistas e sobretudo motorizadas, Zundapp vs. Sachs, sabíamos na ponta da língua e cada qual dava a opinião que se impunha, a opinião definitiva. Fumava-se provisórios.

Tínhamos pontos de vista, prismas, ópticas, enfoques, perspectivas e até ângulos. Amontoávamo-nos em duas ou três mesas, perdíamo-nos noite dentro naquela conversa transversal, ecuménica, polifónica, finamente regada, em que toda a gente metia o bedelho, até os filhos da puta dos bufos da Pide, que aproveitavam para incendiar o assunto a ver o que aquilo dava. De uma forma geral, os bufos da Pide não eram nada bufos da Pide: autoproclamavam-se, gabavam-se, ameaçavam, faziam-se passar por bufos da Pide, salazares dos pequeninos, três em cada esquina, só para meterem medo, que era a coisa mais parecida com sexo que conheciam, ou para pavonearem um poder que nunca tiveram, nem em casa, onde levavam nos cornos e bico calado. Eram filhos da puta, isso é certo, e em Fafe havia diversos.
O 25 de Abril de 1974 veio realmente liberalizar o paleio à roda do cimbalino, mas nós nem precisávamos. Já há muito que falávamos pelos cotovelos e comíamos tremoços. Ou cascas, cascas de tremoços, à falta de conteúdo e de dinheiro no bolso. Mas não interessava - a conversa, para nós, era tudo.
Portanto, agora dá-me pena: de conversa, que é livre e de graça, estamos conversados - acabou-se, até no café, parece-me impossível. Eu, que actualmente não frequento, passo pelas montras e vejo: uma pessoa em cada mesa, cabeça enfiada no computador portátil, telemóvel colado ao ouvido ou à frente dos queixos, como se fosse um microfone, dedo saltitante a gatafunhar mensagens analfabetas e com carinhas redondas e amarelas e corações e dedos assim ou assado, ninguém conhece ninguém, ninguém fala com ninguém, parece que estão todos proibidos uns dos outros. Que desperdício de liberdade!
Nos restaurantes, o mesmo desconsolo. A família senta-se à mesa e ninguém pia. Vai-se ao bolso, rapa-se do telemóvel (permiti-me que continue com a generalização, para mim aqueles aparelhos que não distingo são todos telemóveis) e ignora-se com assinalável obstinação o irmão do lado direito, o padrinho do lado esquerdo, o pai e a mãe em frente, a avó na cabeceira para pagar a conta, ainda por cima. E não são só os miúdos. Também os graúdos, nomeadamente graúdas, cinquentonas, casadas assim assim ou tias praticamente por estrear, esfregando, esfregando o ecrã da lamparina mágica à procura de namoro e talvez sexo, vai ser desta que vão ser felizes.
É. As pessoas julgam que falam umas com as outras, mas não falam. Aquela ideia romântica de conversa morreu e foi enterrada. As pessoas hoje em dia são perfis, esgotam-se na "conversa" com os "amigos" do Facebook que não conhecem de lado nenhum, talvez valha uma saltada à cama. As pessoas esbanjam todas as suas doutas opiniões, todos os seus espertíssimos achismos, na Antena Aberta da rádio Antena 1 e no Fórum Sport TV. (Desculpai-me o parêntese: para mim nem é dia nem é nada se não ouço o que têm a dizer o senhor José Fonseca, 45 anos, informático, da Amadora, sobre a problemática do Cristiano Ronaldo e da Selecção Nacional, ou o senhor Afonso Palheta, 53 anos, aposentado, do Marco de Canaveses, a propósito da política de reflorestação do País.). Depois, as pessoas chegam ao café, chegam à mesa do restaurante, ou chegam a casa, à família, sítios da conversa antiga, cara a cara com outras pessoas de carne e osso, e ficam caladas e sós. Sós umas das outras. São criaturas sem assunto, estão vazias: já disseram tudo e não era nada.

Mas tornando à mesa do café. As cascas de tremoços eram roubadas da mesa do lado e são, é preciso que se note, o melhor que há logo a seguir aos tremoços propriamente ditos, sobretudo em caso (e era o caso) de cotão nos bolsos. Melhor, só mesmo lamber e raspar com os dentes o papel do pão-de-ló, que era a segunda coisa melhor logo a seguir ao pão-de-ló propriamente dito, que eu via ao longe uma ou duas vezes ao ano.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Para acabar com os mamões

Amigo do peito
Ele tinha 36 anos e gostava muito de mamar. A namorada despediu-se do emprego para poder amamentá-lo de duas em duas horas. Palavra de honra. Veio nos jornais.

É um homem que nunca reage a quente. Nem a frio. Isto é, mantém as decisões em banho-maria. Pesa os prós e os contras, mede os assim assins e pondera os vice-versas, segue ventos e marés. A ele, ninguém o apanha em falso. Toda a vida andou por lá, e é ali que quer ficar. Foi comunista, militou no PS e aderiu ao PSD, passou pelo Livre e pelo Bloco de Esquerda, experimentou a Iniciativa Liberal, o ADN e o PAN, liderou uma lista de "independentes" e actualmente concorre pelo Chega. Para acabar com os mamões!

Diálogos fafenses 61

Resolução de ano novo
- Quem deixou de fumar foi o Tavares...
- Coitado. E o funeral é quando?

Levados, levados sim!

Pai só há um
"Pai só há um", lamentou-se o professor-ensaiador, espreitando pela cortina a plateia esgotada do teatrinho escolar. "O resto é tudo mães. Galinhas"...

A Mocidade Portuguesa era uma organização juvenil do Estado Novo e, em certo sentido-descansar-à vontade, complementava ou concorria na paz do Senhor com os escuteiros de que a Igreja Católica resolvera tomar conta, pelo sim e pelo não. Para os devidos efeitos, e a bem da Nação, a Mocidade Portuguesa era fascista, embora a rapaziada regra geral não fizesse ideia, e os escuteiros eram, nas desbragadas palavras do humorista brasileiro Juca Chaves (1938-2023), "um bando de garotos vestidos de idiotas, comandados por um idiota vestido de garoto". Consta que Juca Chaves teve de pedir desculpas pelo abuso. A Igreja é que não há meio.
Mas vamos ao que interessa: Fafe. Fafe dos anos sessenta do século passado, no vestíbulo da Revolução. Naquele tempo Fafe era uma terra tão fascista como todas as outras terras de Portugal, mas, convém não esquecer, muito mais antifascista do que a maioria. Fafe tinha evidentemente Legião Portuguesa, Mocidade, Concordata, União Nacional, grémios, casas do povo, chapéu na mão, fascistas desde pequeninos, salazaristas mais que o próprio, bufos da Pide, falsos bufos da Pide, simples filhos da puta e regedores de pistola à cinta, mas tinha também a Fábrica do Ferro, o Bugio, operários informados, comunistas, associações culturais, grupos de teatro, jornais, o Senhor Teixeira e Castro, gente a querer saber, o Senhor Maciel, o Teatro-Cinema, a Dona Laura Summavielle, o Major Miguel Ferreira, dezenas de presos políticos, o Café Avenida, o Senhor Saldanha, o Senhor Ferreira do Hospital, outros senhores saldanhas e ferreiras do hospital de quem não sei ou não me lembro agora. Fafe teve mártires do fascismo. Procurem-nos na antiga Feira Velha: estão lá dois nomes importantes - Joaquim Lemos de Oliveira, o Repas, e Gervásio da Costa, fafenses que deram a vida pela Liberdade. Foram levados, torturados e assassinados pela Pide.

O nomes continuam lá, não continuam? A praça foi baptizada por causa deles, dos nossos, fafenses, Mártires do Fascismo. O Repas e o Gervásio. Não era uma homenagem urbi et orbi a todos os mártires de todos os fascismos, de todos os sítios e de todos os tempos. Os nomes dos nossos continuam lá na nossa praça, não continuam? Digam-me que sim, por favor, nem que seja mentira.

A Mocidade Portuguesa (Organização Nacional Mocidade Portuguesa) tinha bandeiras dos Heróis do Mar e as bandeiras chamavam-se pendões ou estandartes, tinha fardas catitas, camisas verdes, toques de clarim e toque de caixa, cintos com S de Salazar na fivela, comandantes-de-castelo, saudação nazi-fascista e hino privativo, "Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim". Tinha também umas mochilas de lona verde-acastanhada muito jeitosas e tinha tendas, pás, picaretas, cantis e acampamentos, e eu invejava o mundo de aventuras daquela moçarada distraída. E tinha a Chama, assim com capitular.
A Chama era um sarau realizado ao ar livre e os meninos à volta de uma fogueira com as achas obsessivocompulsivamente organizadas num círculo mais que perfeito: diziam-se poemas, cantava-se, representava-se teatrinho, ensinavam-se urbanidades, exaltava-se o amor à Pátria. Sabia-se quem mandava. "Salazar! Salazar! Salazar!" Uma vez houve uma Chama nas traseiras da Escola Industrial, aquele pequeno terreiro hoje esmagado pelo anfiteatro exterior da Biblioteca Municipal de Fafe, o que demonstra mais uma vez que, como dizia o saudoso Eduardo Guerra Carneiro, "isto anda tudo ligado". Era do lado da frente da escola, actualmente jardim da Casa da Cultura, que a Mocidade montava formatura ao fim-de-semana, para depois arruar vila adiante, e eu atrás mas à paisana, de passo trocado, a fazer pouco, levado, levado não. "Sai daí, moço!", enxotavam-me, geralmente pelas orelhas e com um ou dois carolos à mistura, até parecia que eu estava ali, perigosíssimo, a estragar o regime...
Mas a tal Chama. Eu fui ver. Do meu Santo Velho ao Santo Novo, onde ficava a Escola Industrial, eram campos de milho e quintais com árvores de fruta, para além de uma ou duas ramadas de uvas de onde, na época, gaipelávamos a bom gaipelar até nos desfazermos em tremendas caganeiras, com licença de vosselências. Por aí ia. A meio do caminho havia uma nora desactivada, mais à frente uma mina já com motor, creio que do Sr. Mijão, e o que eu gostava de carregar no botão verde e pôr a geringonça a aguar, sufocando-a logo a seguir com o botão vermelho, para fugir dali a cem à hora, antes que quem de direito desse pelo basqueiro e corresse a sacudir-me o pó.

Queria também confessar o que se segue, porque a culpa desta memória não me larga: o casarão de lavrador anexo ao velho edifício onde funcionava a Escola Industrial tinha uma espécie de túnel, obra em arco, baixinho, esconso, escuro, por onde se passava de um lado para o outro, das traseiras para a frente ou vice-versa, e ali se faziam umas belas emboscadas para apalpar moças, infelizmente com mais vontade do que jeito, sobretudo pela parte que me tocava. Hoje chamam àquilo tudo Avenida das Forças Armadas e é muito bem feito.

A Chama foi uma merda. Os miúdos (mais velhos do que eu, é preciso que se note) representavam muito mal, os poeminhas eram lengalengas sonsas e patrioteiras, as cantigas desafinadas, e pela primeira vez na minha vida a começar assisti a uma branca, isso, uma branca: uma menina ou um menino tinha decorado qualquer coisa para dizer mas não se lembrava de quê - e, depois de várias tentativas a seco, encharcou definitivamente e desatou a chorar. Fiquei triste com ele (ou ela), mas não fiquei freguês. E não sei se alguém foi preso por causa daquele desastre para a Nação

(Especialistas em fivelas de cintos garantem que o S nas fivelas dos cintos da Mocidade Portuguesa não tinha nada a ver com Salazar, posto que quereria dizer, isso sim, "Servir no Sacrifício" ou somente "Servir". Ou Sabrina. Pois. E as SS eram a Segurança Social do Terceiro Reich, Hitler chamava-se assim para não se confundir com Hernâni e o Z não é de Zorro mas de Zeferino. A mim faz-me uma certa diferença: o Zorro sou eu, desde os livrinhos do Marreca, e Zeferino realmente não me dá jeito nenhum.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ela teve dois amores (pelo menos)

O mês do amor
Fevereiro é, segundo dizem, o mês do amor. Talvez por ser mais curto.

Sentada ao meu lado na sala de espera do hospital, a mulher, robusta, de camisola caveada, exibia um potentíssimo braço de boxista peso-pesado, coisa de meter medo. Pelo menos a mim. E no sítio do costume, a parte externa do bíceps, ou cabeça longa, como se tivesse ido à guerra, lá estava escrito e jurado, na tinta imorredoura da tatuagem às três pancadas: "Amor Maneca". E por cima do amado e levemente desbotado "Maneca", mesmo ao centro e aproveitando apenas o "e", sobressaía uma segunda demão, arrependimento ou remedeio, num verde mais fresco e ostensivamente carregado, que dizia: "Zé". "Amor Zé". Pois, é a vida...

Já me tinhas dito

Do tempo dos jornais
Era um homem muito antigo. Do tempo em que os jornais escreviam notícias. E ele percebia. Depois os jornais começaram a publicar vídeos. E ele deixou de perceber.

O jornal, apudorado, escreve c******! E o leitor, por mais virgem que seja e ainda que não seja de Fafe, imediatamente lê caralho! O jornal escreve f***-se! E o leitor lê logo foda-se! O jornal escreve filho da p***! E o leitor lê filho da puta! O jornal escreve m****. E o leitor lê merda. Então, para quê tanta sonsice?

A visita da Veneranda Figura

Foto Tarrenego!

Os três três
Vai há tão pouco tempo, e parece que já ninguém se lembra. Portugal era o país dos três efes: futebol, fado e Fátima. E dos três esses: Salazar! Salazar! Salazar! E dos três pês: pobres, pobres, pobres...

As visitas da Veneranda Figura ao Portugal corno manso eram, não raro, momentos de alto fervor nacionalista e profunda reflexão cultural. Sua Excelência o Senhor Presidente da República - ou O Padeiro, na versão abreviada, ou o Cabeça-de-Abóbora, na simpatia do país rural - tinha o condão da palavra certa. Humanista dos sete costados, enciclopedista dado a calendário, geografia e contas de somar, Américo Tomás abria a boca para espirrar e saíam-lhe pérolas, orações de sapiência. Num país de troca-tintas e fala-barato de nascimento, o rigor e o donaire na afirmação são a superlativa herança que o marido de Dona Gertrudes fez o obséquio de nos deixar.
Por exemplo:
1. "Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei."
2. "É uma terra [Manteigas] bem interessante, porque, estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude."
3. "Comemora-se hoje em todo o país uma promulgação do despacho número cem, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados."
4. "Neste almoço ouvi vários discursos, que o governador civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos."
5. "Eu prolongo no tempo esse anseio de Vossa Excelência e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que Portugal será eterno, como eterno é o sono da morte."
6. "Hoje tivemos um dia sumamente positivo: de manhã assistimos à santa missa e de tarde inaugurámos o monumento ao bombeiro."
7. "Pedi desculpa ao Senhor Engenheiro Machado Vaz por fazer essa rectificação. Mas não havia razão para o fazer porque, na realidade, o Senhor Engenheiro Machado Vaz referiu-se à altura do início do funcionamento dessa barragem e eu referi-me, afinal, à data da inauguração oficial. Ambas as datas estavam certas. E eu peço, agora, desculpa de ter pedido desculpa da outra vez ao Senhor Engenheiro Machado Vaz."
8. "A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance."
9. "O Senhor Professor Oliveira Salazar, ao longo de mais de trinta anos, é uma vida inteiramente sacrificada em proveito do País, e, desconhecendo completamente todos os prazeres da vida, é um homem excepcional que não aparece, infelizmente, ao menos, uma vez em cada século, mas aparece raramente ao longo de todos os séculos."
10. "Esta é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive."

Convivi pessoalmente e a uma distância razoável com Américo de Deus Rodrigues Tomás. Uma vez, numa pressinha. Quando a Veneranda Figura veio a Fafe, montado num esplêndido Rolls-Royce descapotável negro, como era negra a vida dos portugueses regra geral, e guardado por uma matilha de impressionantes motos brancas da GNR. Era um reizinho. Veio inaugurar por atacado a "nova" Câmara Municipal, o Tribunal, que tinha sido cadeia, e a escola do Santo Velho - estaríamos, se não me engano, nos finais da década de mil novecentos e sessenta. E decerto O Mais Alto Magistrado da Nação por cá deixou algumas das suas proverbiais patacoadas, mas não tenho a certeza: eu teria talvez 11 anos, porém já não lhe botava sentido. Preferia fazer pouco dele, O Padeiro, e a moçarada à minha volta, agitando impostas bandeirinhas nacionais presas por arames e muitos "Viva o Senhor Presidente da República!", e eu escangalhava-se a rir com aquela palhaçada toda, conferindo definitivamente ao acto o significado (ou a in-dignidade) que realmente lhe assistia. A severa Dorzinhas, empregada e dona da escola, ainda tentou repreender-me, mas eu já não lhe dizia respeito, estava a ir para padre, era de outro campeonato.
Embora sem selfies nem banhos no Tejo, Tomás era o circo e mais nada. O Presidente da República nunca encontrou palavras de jeito para falar ao Portugal dos pequeninos, que ele porventura acharia que fosse apenas um sítio em Coimbra, quem vai para Fátima. O Almirante não as sabia, as palavras certas, e ninguém lhas ensinou ou escreveu. Staff e entourage são modernices, estrangeirismos ainda por cima, e a Revista da Armada foi criada em 1971.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O Sr. Moura era de filme

Como um passarinho
Morreu como um passarinho. Abatido a tiro.

Chega o tempo das gripes, das constipações, da tosse, do nariz entupido, das febres e das dores de garganta, e eu lembro-me do Quinzinho da Farmácia, que tantas vezes me acudiu na minha infância e juventude. O Quinzinho da Farmácia Moura, em Fafe. É. Lembro-me logo do Quinzinho, sorrio, vejo-o como se fosse hoje, ouço-lhe a voz, perfeitamente, as recomendações, mas depois apanho-me a pensar: que estúpido, que injusto que sou, e então o Sr. Moura propriamente dito? Sim. O Sr. Moura da Farmácia Moura, em Fafe. O que pensar e dizer dele?
E então puxo a fita atrás. O Sr. Moura tinha mais de 200 anos e uns óculos muito pândegos e parecia uma figura dos filmes da Walt Disney para crianças. Eu gostava muito de o ver lá ao fundo, na mesa grande do laboratório, a inventar remédios e talvez perfumes, a tomar notas, a fazer contas, a conferir apontamentos em folhas manuscritas e desencontradas, amarelecidas, no meio de uma babilónia de balões, provetas, tubos de ensaio, pipetas, espátulas, pinças, lâminas, balanças, funis, almofarizes e pilões, serpentinas, condensadores, quem dera que também bicos de Bunsen, isso, porque estou a imaginá-los, rodeado por uns armários enormes e antigos, altos do chão até ao tecto, a toda a volta, cheios de frascos, frasquinhos e campânulas, garrafas, garrafões, caixas e caixinhas, sacos, sacas, saquinhos e saquetas que eu adivinhava abundantes de matérias-primas preciosas, fluidos insondáveis, pomadas da casa e a granel, bicarbonato, pós de perlimpimpim, pétalas delicadas de flores exóticas, especiarias do fim do mundo, sementes, raízes e plantas raras e milagrosas, aromas intensos e contraditórios, e ao canto, estou em crer, uma vassoura encantada, aprendiza e ajudante, trabalhadeira, à espera das ordens do velho mestre. A mesa e os armários, em madeira, escura, pesada, eram da idade do Sr. Moura. Aquilo dos óculos esquisitos seria decerto obrigatório para os farmacêuticos naquela época, porque o Quinzinho também tinha. O Sr. Moura, parecendo que não, ditava a moda.
Ainda para mais, o bom do Sr. Moura, que morava por cima do estabelecimento, na Rua Montenegro, atendia durante a madrugada, se lhe tocassem à campainha para acudir a uma aflição inopinada, no tempo em que não havia farmácias de turno nem intercomunicadores ou videoporteiro. Com aquele aspecto de velhinho precoce, sábio ancestral, feiticeiro, alquimista, eterno príncipe dos manipulados, o Sr. Moura assomava ao patiozinho do 1.º andar, informava-se do que era, descia as escadas em chinelos de quarto ou enfiado nos sapatos três números acima, com o pijama a espreitar por baixo das calças vestidas à pressa e às vezes embrulhado no roupão, só lhe faltavam a candeia na mão e o barrete de dormir, resmungava por todos os lados, mas, a verdade é só uma, salvava o povo. E essa é que é essa.

Deus nos livre dos afrontamentos

Em sede de
Morreu o último ponto de ordem à mesa. De fome - é o que consta.

Um dominguinho como de costume e Deus manda. Missinha das onze, homiliazinha com palavrinhas a abater e um que outro puxãozinho de orelhas para temperar, uns acenozinhos ao rebanho, umas lambidelas recebidas na mão santa, a do cachucho, e depois... o almocinho. O almocinho de dominguinho: três pratos, tal qual a Santíssima Trindade e o outro assunto que não vem ao caso. Duas horas à mesa e sempre a dar-lhe, como se fosse castigo, penitência. "Ui! Comi que nem um abade" - desabafou, num arroto final. "Nada de modéstias, Vossa Excelência Reverendíssima Senhor Dom, afinal de contas sois Bispo, sois Bispo" - acudiu o solícito secretário, jovem presbítero, com as maiúsculas bajuladoras numa mão e o bicarbonato de sódio na outra.

Ou por outra. Aprendi aqui atrasado que o carbonato celebra os 44 anos de um casamento. Bodas de carbonato. Posso portanto admitir que o bicarbonato, que é carbonato duas vezes, assinala os 88 anos de um casamento. Bodas de bicarbonato. E em Fafe usava-se muito. O bicarbonato, quero dizer.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O bom ladrão

A dúvida dos conspiradores
Os conspiradores tinham apenas uma dúvida: para que dia marcar o 25 de Abril.

Fafe, algures pelos finais da década de sessenta do século passado. Na sala de aula da agora desaparecida Escola da Feira Velha, no meio da parede, por cima do quadro negro, um Cristo crucificado. Carmona à direita da cruz, Salazar ironicamente à esquerda. Eu, que naquela altura já tinha umas luzes bíblicas, nunca percebi qual destes dois era o bom ladrão...

Também não exagéremos!

Horas limpas
Ouça lá: quando mudar a hora, não se esqueça de a pôr para lavar.

O casal passeava o cãozinho de quarto de quilo pela manhã soalheira e ventosa do Parque da Cidade. Nisto, o fraldiqueiro, que é como as pessoas, só lhe falta falar, apertou-se-lhe a vontade e urinou com assinalável pertinácia mesmo em frente à porta principal do magnífico Pavilhão Multiusos. O pai do cão, quero dizer, o homem, olhou ao redor e resolveu dar uma lição de civilidade a quem por ali passava àquela hora de quem não tem palha no ninho. Quer-se dizer: a mim. E mandou à mulher, quero dizer, à mãe do cão: - Trazes o saquinho? Apanha o chichi!
- O chichi? - chispou a madama. - Então eu vou apanhar mijo? Com as mãos? Também não exagéremos!
E eu dei razão à senhora. Realmente, também não exagéremos...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A concha

Desenhos mais ou menos
Há desenhos animados e há desenhos, digamos assim, mais mortiços. É a vida.

Perguntam-me: mas afinal o que é a concha? E eu respondo: concha pode ser colher para servir sopa, prato de balança, parte das chaves de instrumentos musicais de sopro, peça de lagar, espécie de puxador de gavetas, pavilhão auricular, couraça, invólucro calcário que protege o corpo de moluscos e braquiópodes, isto é, conchinha do mar. Concha pode ser uma jovem cantora portuguesa que se chamava Maria da Conceição e debutou no Festival da RTP de 1979. E o conjunto Os Conchas, que era um duo, gravou, em 1960, o primeiro disco de rock em língua portuguesa. Mas não. Concha era tampa metálica das garrafas de cerveja e refrigerantes, era cápsula, sameira, carica, chapinha como se diz no Brasil. E era brinquedo de menino pobre. Em Fafe, evidentemente.

Má sorte ser-se puta

Inimputável
Declararam-no inimputável, e a verdade é só uma: nunca mais lá foi!

A notícia espalhou-se como fogo em mato seco: um automobilista acabara de atropelar mortalmente uma pega, toda esmigalhadinha. Assassino! Juntaram-se imediatamente o PAN, Os Verdes, o Chega e os do 1143, a Quercus, a Zero, o Mecas e o Peliquita, a Protectora dos Animais, o Custódio Ardegão, a Greenpeace, dois chefes da Juve Leo, um dos Super Dragões, sete das inexistentes claques do Benfica, trinta e dois indignados das redes sociais, quatrocentos influencers, seis cães que tinham levado os donos a almoçar fora, vários elementos do movimento cívico e espontâneo SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, que está muito bem organizado para estas emergências, chegaram os do Climáximo e sentaram-se. Todos à uma, rodearam o carro, arrancaram o automobilista cá para fora e encheram-no de carolos e caneladas, para ele aprender. Só não chegaram ao linchamento porque, regra geral, desconheciam a palavra, e os poucos que a conheciam de vista confundiam-na com lixamento e achavam que, para lixar o energúmeno, os carolos e as caneladas já estavam muito bem.
Apareceu enfim a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa, quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e, posto isto, foi-lhe ordenado que se explicasse. O automobilista explicou-se. E convenceu. O PAN, Os Verdes, o Chega e os do 1143, a Quercus, a Zero, o Mecas e o Peliquita, a Protectora dos Animais, o Custódio Ardegão, a Greenpeace, os dirigentes da Juve Leo e dos Super Dragões e das inexistentes claques do Benfica, os trinta e dois indignados das redes sociais, os quatrocentos influencers, os seis cães da vida airada, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, os sentados do Climáximo e a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao homem e até lhe deram os parabéns, uma sandes de queijo com marmelada e os primeiros-socorros. Tudo não passara de um pequeno mal-entendido, lapsus linguae, erro de comunicação. Afinal o automobilista não matara uma pega ave ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, Femina sapiens solteira e mãe de três filhos crianças, toda esmigalhadinha. É chato, mas são coisas que acontecem...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O perigo das redundâncias

Na malandrice
Vestiu-se de gala, ele. E ela, de galo. Eram realmente uns marotos...

As expressões "virar costas" e "mandar foder", embora não (se) pareçam, são praticamente sinónimas na língua portuguesa corrente e de uso corriqueiro em Fafe. Uma pessoa "vira costas", e isso significa retirada, abandono, desinteresse, desdém, fuga, saída. Uma pessoa "manda foder", e isso significa irritação, indiferença, descaso, desprezo, abandono, corte. Isto é, repito, praticamente a mesma coisa. Portanto, ou uma ou outra. Ou viramos costas ou mandamos foder, que vai dar ao mesmo. Usar as duas expressões simultaneamente, uma atrás da outra, como muito boa e distraída gente faz, "Virei-lhe as costas e mandei-o foder", isso é que deve evitar-se. Digo eu.

Os melros já nascem ensinados

Cobras e lagartos
Ele dizia cobras e lagartos. E dizia sanguessugas e borboletas e gaivotas e cangurus e macacos e sardinhas assadas com salada de pimentos vermelhos, nomeadamente. Enfim, ele dizia o que lhe desse na cabeça...

A minha rua adoptiva, em Matosinhos-sur-Mer, é sítio de vadiagem animal, território de gatos e gaivotas. De umas pombas, vá lá, de uns pardejos lingrinhas, de um ou dois episódicos pintassilvos-comuns ou de uns cães abundantemente cagões e felizmente sem asas. Mas sobretudo, e historicamente, a minha rua é território de gatos e gaivotas, que vêm ao cheiro da comida que a minha vizinha lhes manda da varanda, besuntando de espinhas, patas de frango, gorduras várias e nojo extremo a estrada e o passeio mesmo por baixo do meu nariz. A minha vizinha foi quem primeiro chamou as gaivotas, mas entretanto enxota-as a baldes de água fria, porque, não sei se mudou de religião, agora só quer conversa com os gatos.
Ora bem: há mais de trinta anos que aqui moro e foram precisos mais de trinta anos para que me aparecesse à porta um melro. Sim, um melro efectivamente, e apresentava-se todas as manhãs. Melro cantor que dava gosto, e lambão benza-o Deus, também ia à marmita dos gatos da vizinha, até que um dia.

Na minha rua adoptiva passa a procissão do Senhor de Matosinhos e naquela altura, isto é, no tempo do melro, estava aqui estabelecido, mesmo no número ao lado, o Núcleo do Sporting, assiduamente visitado pelo então presidente Bruno de Carvalho, que também é um senhor, não desfazendo, e teve igualmente a sua cruz, ninguém pode dizer o contrário. Exigia-se portanto outro asseio.
Não sei se era para meter raiva aos sportinguistas locais ou se derivado a outro insondável motivo, a verdade é que o melro da minha rua, o meu melro, cantava sem parar o hino do FC Porto. E juro que não fui eu a ensiná-lo, eu seja ceguinho. Os melros, é o que têm, já nascem ensinados.

E eu, perante isto? Eu, que vim de Fafe habituado a melros com fartura, aos gatos em casa e à rede dos caça-cães que vinha do Matadouro e varria o terreiro do Santo Velho de uma ponta à outra, eu, dizia, gostei muito que o estupor do melro tivesse dado com a minha rua e com a frente da minha casa. Grande melro! Foi porreiro, porque assim já éramos dois. Mas quê? De repente o melro foi-se embora e Bruno de Carvalho também. Ao Bruno ainda o vejo de vez em quando a fazer figuras na televisão e leio-lhe os amores e os humores na imprensa cor-de-rosa, que é hoje em dia toda a comunicação social portuguesa. Ao outro melro é que nunca mais. Hoje em dia sou só eu. Eu e as pegas. As pegas, que vêm decerto do Parque da Cidade, onde o negócio já deu o que tinha a dar, e são mais do que as mães. Não sei se é do aquecimento global, mas não me largam a porta, o raio das pegas, sempre no conversê, e só me fazem passar vergonhas. A minha rua, quer-se dizer, parece agora um lunapário...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Calar

Alto e bom som
Homem que é homem não dorme. Ressona.

Perguntam-me: mas afinal o que quer dizer calar? E eu respondo: calar quer dizer aceitável, menos mal, mais ou menos, podia ser pior, satisfatório, suficiente. - Que tal esse vinho? - inquire-se. - Calar... - explica-se. Quer-se dizer: calar quer dizer regular, isto é, rigular, se ajuizado e dito em Fafe. Evidentemente.

A madama, o cão e o bebé

Prioridades
"Portugueses já gastam mais com cães do que com bebés", dizia a capa do semanário Expresso. Acontece no país certo.

A madama tinha um cão ao colo e entre as pernas tinha, mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design italiano. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Era o expresso Porto-Fafe, praticamente cheio com malta da Universidade e lastimáveis frequentadores do Hospital de São João. Eu nem uma coisa nem outra, ia a Fafe dar um beijo à minha mãe. Portanto a madama e o cão e vice-versa, eu compreendia-os.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o fraldiqueiro não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro e até eu me comovi, eu que, confesso, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na soturna e malcheirenta central de camionagem de Guimarães, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, a madama retirou do autocarro e pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design italiano, abriu-a um bocadinho e viu-se lá dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 60

Estereofonia
- Agora os auriculares: este tem um L, de left, e é para a orelha esquerda...
- E o outro?...

Quem não tem cão...

Um caso sério
 Aprecio as pessoas que dizem "não gosto de relações de apenas uma noite", "sempre fui de namoros sérios". Mas ainda não percebi quantas noites são precisas para que um namoro passe a ser sério e a partir de quantas noites se pode acabar tudo sem que fique a ideia de que afinal era só gozo.

O cão é, desde tempos imemoriais, uma das mais consistentes artimanhas do homem para a queca. Quem tem tesão compra um cão, diz o povo e com razão. Porque o animal - aflito, ziguezagueante, ganinte, de orelhas, rabo e tudo arrebitado -, parecendo embora que sai à rua em busca desesperada por parceira ou parceiro de quatro patas onde possa aliviar o stresse, vem mas é tratar do cio do dono. Ou da dona. Por procuração.
Largado à frente, sem trela, "Vai, Corisco, vai, arranja-me uma gaja! Um gaja boa!", o cão é um batedor sexual para prazeres alheios. Evidentemente tem de se entender com o outro animal, mas isso é truque, pretexto para o dono chegar à dona, como todos sabemos, e depois eles, dona e dono, ou dono e dono, ou dona e dona, depois de conversarem resumida ou detalhadamente sobre raças e rações, que se entendam e se acamem. E muitas vezes entendem-se e acamam-se. Olhemos à nossa volta, sem falsos pudores: quantos namoros e casamentos, que nós tenhamos conhecimento ou desconfiemos, não foram intermediados por cães? Quantos engates e quantas pinocadas avulsas?
Passear o cão, é assim que se diz da boca para fora, mas querendo dizer outra coisa das calças para dentro. Há até quem dê treino específico ao cão, para loiras ou morenas, gordas ou magras, inteligentes ou burras, e assim sucessivamente e vice-versa. É verdade, ele há cães especialistas. Cães de um certo tipo, de uma determinada caça.
O cão é, portanto, um alcoviteiro. Mas já foi mais, no tempo em que não havia Facebook. No tempo em que se mandava uma cadela ao espaço e a cadela chamava-se Laika. Hoje chamar-se-ia Like. É. As chamadas redes sociais na internet são agora, particularmente para casados, o principal móbil do engate, o menu do sexo à mão de semear, e esta nova realidade veio prejudicar sobremaneira os cães, cada vez mais substituídos, abandonados e abatidos, por aparentemente já não serem precisos. Quem não tem cão, caça com Facebook, diz-se também hoje em dia, estendendo a lamentável desconsideração aos gatos, porque uma desgraça nunca vem só e grão a grão enche a galinha o papo.
Ora bem. Correndo o risco de fazer um título à Correio da Manhã, eu diria que o Facebook está a matar o cão. Aos poucos. E, todavia, acho que compreendo esta paulatina porém irreversível substituição do "animal doméstico" pela "aplicação social", porque a verdade é só uma: comprar ou adoptar um cão dá provavelmente mais trabalho e despesa do que criar um perfil no Facebook, sendo que o resultado final é o mesmo. Nestes tempos conturbados, o meu mais descarado elogio vai, pois, para as almas caridosas, afogueados adúlteros, que acumulam cão e Facebook, pelo sim e pelo não, e só temos de lhes agradecer, em nome dos animais.
Salvemos o cão! Porque ainda há algumas diferenças a considerar entre o cão e o Facebook, a não ser que Facebook seja o nome do cão. Para além de que o Facebook, o da internet, tem aquele perigo (há casos!) de a mulher andar a pôr os cornos ao marido e o marido andar a pôr os cornos à mulher - cada qual com o seu perfil secreto, mais ou menos falso e sobretudo deveras criativo -, até ao dia em que se engatam como desconhecidos e depois se encontram para o que já sabemos. É então que marido e mulher reciprocamente infidelíssimos descobrem que afinal foram feitos um para o outro.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Os cabeçudos

Foto Hernâni Von Doellinger

O benfeitor
Era um recatado benfeitor: não queria que se soubesse que ele queria que se soubesse.

Cabeçudos é uma antiga freguesia, ali já em Famalicão, encostada a Santo Tirso. É também o que se chama ao que ou a quem tem cabeça grande, às pessoas que gostam de teimar, os casmurros ou teimosos, a todos os estúpidos de uma forma geral e às pequenas figuras antropomórficas com cabeçorras de papelão que acompanham os gigantones nas arruadas saltitantes e musicais pelas feiras e romarias particularmente minhotas. Cabeçudo é ainda nome de ave, de peixe e de larva, o girino dos batráquios, nomeadamente anuros. Mas, em Fafe, cabeçudos eram sobretudo os ricos, os poderosos, os importantes, os graúdos, os figurões, os de cima, os chefes, os manda-chuvas, enfim, como também se dizia, o cagões ou os cães-grandes. Exactamente, eram cabeçudos e, para mim, ainda são.

Eleições, futebol, tropa e alguma batota

Dão-se alvíssaras
Perdeu a cabeça e pôs anúncio no jornal. Faz-lhe muita falta.

As eleições locais corriam sempre bem, chovesse ou fizesse sol. Com novas ou velhas freguesias, uniões de facto ou aldeias desavindas, o mapa oficial não interessava para nada, a logística era um pormenor, as chapeladas eram as do costume. Bebiam-se uns copos à boca das urnas e nas urnas propriamente ditas, fazia-se uma almoçarada com o pessoal de serviço de todos os partidos, que eram o PPD e o "da mãozinha", o snobe do CDS mais o comunista, que vinha de fora e era desconfiado e picuinhas. O pai votava pelo filho que, coitadinho, "é deficiente", o filho votava pelo pai que já morreu mas "fazia muito gosto de votar", pai e filho votavam pela avó que "está muito atacadinha" e não pôde vir, e depois a avó vinha, toda gaiteira, e votava também. Havia quem votasse em dois lados, havia quem votasse duas ou três vezes no mesmo lado, havia quem votasse em dois partidos, e valia, havia quem votasse em quantas freguesias fosse preciso, era só pedir, havia quem quisesse e pudesse votar mas não deixavam, havia quem se fizesse de ambulância, havia quem se fizesse de parvo, havia quem chamasse a polícia, havia quem chamasse o gregório, agarrado ao garrafão levado pelo presidente da mesa a mando do presidente da junta. Chegada a hora das contas, ia-se aos cadernos e à acta, acrescentava-se aqui, desarriscava-se ali, seguindo a lei dos vasos comunicantes, rasgavam-se uns papéis que só estorvavam, queimavam-se só para não fazer lixo, noves fora nada, o chato do PCP também assinava, e no fim batia tudo certo. Podeis crer: batia tudo certo. Eram trafulhicezinhas consensuais, amigáveis, vigaricezinhas proporcionais, comedidas, batotazinha no mais escrupuloso respeito pelo método D'Hondt. Ganhava quem tinha mesmo de ganhar. Era, ó meus amigos, a democracia a funcionar, a manifestar-se de dentro de si própria. Autêntica, transparente, normal. Participada.

As primeiras eleições livres, democráticas, com sufrágio universal, realizaram-se em Portugal no dia 25 de Abril de 1975, celebrando o primeiro aniversário da Revolução dos Cravos. Eram as eleições para a Assembleia Constituinte, para a organização da democracia nova em folha, tendo votado cerca de 92% dos eleitores, isto é, quase seis milhões de portugueses. Nunca mais houve uma participação assim.
O acto eleitoral foi vigiado urna a urna pelas Forças Armadas, que enviaram um pequeno destacamento para todos os concelhos do País sem guarnição. Em Fafe, os militares montaram posto de comando no quartel dos Bombeiros, suponho que para aproveitarem a incipiente central de comunicações já existente na corporação. E eu ali, mais uma vez no meio da História, embora correndo por fora, como sempre, rindo-me como um perdido dos velhos polícias fafenses, naquele tempo Fafe tinha PSP, batendo a pala desajeitadamente a um aspirante imberbe e com cara de copinho-de-leite, se bem que quem realmente mandava naquela tropa toda era o Dr. Parcídio Summavielle, em funções de presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Fafe, sempre de um lado para o outro, ele é que dava as ordens que eram para levar a sério, ele é que dizia onde se ia ou não ia, o que estava bem e o que estava mal, o que se fazia ou deixava de fazer.
Os soldados traziam rações de combate para o almoço, e foi o que comeram, coitados. A minha tia Laura é que não concordou com aquilo, "não tinha jeito nenhum", teve pena dos rapazes e fez-lhes um tachinho de comidinha boa, quanto mais não fosse para os desougar. Regalam-se os magalas que por ali estavam àquela hora. Já lhes valera a pena a vinda a Fafe. A Tia Laura era uma cozinheira de mão-cheia e, feitio e vocabulário à parte, tinha um enorme coração.

A tropa esteve em Fafe mais duas vezes naqueles tempos de festa e brasa, mas chamada de urgência para meter o povo na ordem. Logo em Maio de 74, com a revolução ainda no ar, o árbitro Porém Luís (1929-2010) só conseguiu sair do Estádio, escoltado por militares que vieram, creio, de Braga, três horas após o fim do jogo da AD Fafe com o Gil Vicente, que terminou 0-0. O Fafe lutava pela subida à primeira divisão e o trabalho do juiz de Leiria (nascido no Barreiro) deixou muito a desejar, principalmente junto dos adeptos fafenses, que, a verdade também é só uma, sentindo-se "roubados", e de cabeça perdida, queriam, a todo o custo, chegar-lhe a roupa ao pêlo. Pelo menos. Em todo o caso, ainda hoje estou convencido de que, se tivessem revistado Porém Luís à saída, as autoridades talvez lhe descobrissem dois penáltis nos bolsos. Um não marcado sobre o nosso Manuel Duarte e o outro não marcado sobre o nosso Valença. A AD Fafe ficou em segundo da zona, foi à liguinha nacional e não subiu.
No Verão Quente de 1975, logo em Junho, quando tudo começou, a sede do PCP de Fafe foi atacada, houve resposta, tiros, um morto, feridos, ameaças de nova investida e de destruição total. Durante a noite chegam os fuzileiros, cabeludos, barbudos, com autocolantes de esquerda nas fardas. Apartam águas, serenam os ânimos e protegem o edifício. O resto foi uma ferida que nunca mais sarou.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

No tempo em que os animais falavam

Foto Gaspar de Jesus

O fim do futebol
Mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, as claques vão conseguir acabar com o futebol. Para mim, já acabaram. Há anos.

Houve um tempo em que os presidentes dos maiores clubes de futebol falavam com os jornalistas e até convidavam os directores dos jornais para jantar. Os jornalistas, todos eram tratados por igual e quem tivesse unhas que tocasse viola. Mas isso foi muito, muito antigamente, no tempo em que os animais falavam e não havia telemóveis. Depois, conta-se que os presidentes dos maiores clubes resolveram dividir os jornalistas em dois grandes grupos: os que levavam recados e os que levavam no focinho - e deixaram de falar aos restantes. Mais tarde, os presidentes dos maiores clubes criaram as suas próprias televisões e passaram a ser "entrevistados" pelos seus próprios assalariados. E agora, quando se dignam descer até ao ecrã das televisões ditas generalistas, falam directamente de casa e exigem tratamento de primeiro-ministro, pelo menos. São outros tempos!
E, entretanto, sobramos cada vez menos daquela mesa...

Mais rápido que uma linha recta

À velocidade da luz
De acordo com os especialistas, a velocidade da luz desloca-se praticamente à velocidade da luz. O que é extraordinário!

A menor distância entre dois pontos é uma recta? Nem sempre. Às vezes a menor distância entre dois pontos pode ser uma curva. Aqui não se trata de ciência, é mero exercício de memória. Por exemplo: lembrais-vos do Generoso? Claro que não vos lembrais do Generoso. Mas eu explico: o Generoso era um extremo brasileiro que jogou no SC Braga bem no início da década de setenta do século passado, por alturas da segunda divisão, se não me engano. O Generoso (e decerto um nome assim nunca foi tão bem empregue), o Generoso, dizia eu, era tão rápido, corria tanto, que, quando atacava e levava um adversário à ilharga, despossuído de outros e melhores argumentos técnicos, chutava a bola para a frente, saía do relvado, contornava o defesa pela pista de cinza, e - espantai-vos! - ainda chegava lá primeiro.

Para que nos entendamos, o relvado e a pista de cinza eram no Estádio 28 de Maio, em Braga. Sim, antes do 25 de Abril de 1974 e muito antes da notável Pedreira do arquitecto Souto Moura, o Estádio 1.º de Maio, na Ponte, chamava-se Estádio 28 de Maio. Por questões políticas e não de calendário litúrgico, rito bracarense: chamava-se 28 de Maio glorificando o golpe militar que naquela data, em 1926, derrubou a Primeira República e abriu caminho à ditadura do Estado Novo. O que só demonstra que, para todos os efeitos, a Outra Senhora levava 27 dias de avanço em relação a Esta Senhora e que as revoluções cometem-se sobremaneira para mudar os nomes das ruas, praças, pontes, estádios e outro imobiliário. E as moscas também.
De corte fascista, o Estádio 28 de Maio, que ainda está de pé, tentava aparentar-se e rivalizar com o Estádio Nacional, no Jamor, e foi inaugurado, em 1950, por Salazar e Carmona, que assim ditos até parecem uma alegre sociedade de costureiros. Veio a revolução dos cravos e o estádio virou a casaca, mudou de nome, passou a chamar-se Estádio 1.º de Maio, viva o Dia dos Trabalhadores, viva a classe operária!, mais ajuizado seria que se tivesse chamado sempre Campo da Quinta da Mitra.
Quereis outro exemplo? O Estádio 25 de Abril, de Penafiel. Antes da reciclagem política, aquele terreiro chamava-se Campo das Leiras, e, convenhamos, nome mais bonito não podia ter.

Mas eu também vi o Generoso executar a sua supersónica façanha no então pelado do meu Fafe, no "Estádio" que poderia ter-se chamado "Maria Cristina", onde o resvés com os pilares de cimento e com os tubos metálicos da vedação conferia um toque extra de emoção e perigo ao espectáculo. O Generoso, sempre na mecha e a passar calafriantes tanjas ao excelentíssimo público e ao desastre, trazia-me à cabeça o encantatório e fanhoso reclame altifalante das barulhentas motas do poço da morte, nos dias dos 16 de Maio e da Senhora de Antime, primeiro no Largo ou na Feira Velha e depois no sítio onde agora está o Pavilhão Municipal. Também ali, no campo da bola, havia "arrojo, coragem, audácia, cooommm-ple-to desprezo pela vida". E eu, palavra de honra, sempre achei que o Generoso, pela sua saúde, devia jogar de capacete...

O grande Generoso, parece que ainda o estou a ver. José Carlos Generoso, que passou por Braga como um cometa na época 1973/74 e faleceu em Setembro de 2021, com 77 anos.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O Senhor Manuel Duarte

Foto Carlos Barroso/Record

Quero contar-vos duas ou três coisas sobre um fafense excelentíssimo. Manuel Almeida Duarte chegou a Fafe em 1972, andaria pelos seus 27 anos de idade. Era futebolista. Vinha do Varzim para jogar pela nossa AD Fafe, por nós, e era uma lenda. Formara-se na Académica, jogara também no Leixões, no Sporting e no FC Porto, mas a grande aura que o rodeava derivava do facto de ele ter integrado a célebre selecção portuguesa que conquistou o terceiro lugar no Mundial de 1966, em Inglaterra. Ao lado de Eusébio, Coluna, Vicente, Simões, Hilário, Torres, José Augusto e outros colossos. Sim, Manuel Duarte era Magriço.
E era um jogador caro, para as modestas posses da AD Fafe. Apesar de ter vindo do Varzim, Manuel Duarte mantinha vínculo contratual com o FC Porto, que suportava parte do seu ordenado. Quando a ligação aos portistas cessou, o equilíbrio financeiro foi encontrado com um segundo emprego. A grande estrela de futebol começou a trabalhar como "fiel de armazém" na estamparia Marigam, de Moisés Teixeira, que era então o presidente da AD Fafe. E não lhe caíram os parentes na lama.
Posso estar enganado, mas creio que foi assim que as coisas se passaram.
Com o seu invejável currículo debaixo do braço, Manuel Duarte poderia ter sido um indivíduo vaidoso, sobranceiro, inatingível, intratável, um estoura-vergas, um bronco. Mas era exactamente o contrário. Era uma pessoa culta, educada, elegante, recatada, gentil, modesta, um homem de família, marido e pai. Tinha classe. Era um príncipe.
O estilo nervoso do seu futebol contrastava flagrantemente com a pessoa calma que ele fazia questão de ser, ainda que às vezes lhe custasse. E ao juízo da generalidade dos fafenses, digo-o porque a sua memória merece que se diga a verdade, Manuel Duarte era muito mais consensual como pessoa, isto é, como cidadão, do que como jogador de futebol, amiúde incompreendido e mal-amado. Em todo o caso, devo acrescentar que nunca na vida vi em campo alguém mais generoso, mais esforçado, mais disponível, mais entregue ao jogo e à sua equipa do que Manuel Duarte no meu Fafe. Era um profissional de mão cheia, um exemplo para os colegas, novos ou velhos. Tanto que, no tempo em que não havia adjuntos, foi ele o escolhido para começar a dar os treinos, diariamente ao fim da tarde, enquanto o velho mestre Nelo Barros não chegava do seu trabalho nos escritórios da Fábrica do Ferro.
E só agora tomo nota desta curiosa coincidência: a fábrica na vida destes dois grandes homens do futebol. Na Marigam, Manuel Duarte era mais um entre as operárias e os operários, que o adoravam. Era competente e atencioso, respeitador, simples, de humildade e bonomia desarmantes. Sei disto tudo porque um dia ele teve de deixar a fábrica, para ir treinar o Limianos, se não me engano, e eu fui substituí-lo.
Conhecíamo-nos da AD Fafe, onde eu biscatara, e coincidimos na Marigam durante um ou dois meses, não me lembro ao certo, para que o Manel me passasse a pasta. Aprendi tudo com ele e vim a perceber mais tarde que ele me ensinara tudo o que havia para ensinar sobre aquele ofício - e nem sempre se encontra este tipo de abertura e lealdade profissional. Dávamo-nos bem, entendíamo-nos às mil maravilhas, acredito que nos fizemos amigos, o Manel fez-me o mapa dos alçapões, orientou-me sobre o sitio e as pessoas, sobre o trabalho, sobre a vida. Tratávamo-nos por você, como se fôssemos iguais, ele era o Manel mas na minha cabeça eu via-o sempre como o grande senhor que ele era, o Senhor Manuel Duarte.
Vim para o Porto e uma vez encontrámo-nos no cinema, no Estúdio Foco, se bem me lembro, e aproveitámos a ocasião única para pormos a conversa em dia. Depois passaram-se os anos. Vi o Manuel Duarte mais três ou quatro vezes, em Fafe, pela Senhora de Antime. Interessante. Íamos ver passar a Senhora no mesmo sítio, no cruzamento com semáforos da minha velha rua, entre o Paredes e o Zé Manco, eu, contranatura, do lado do Palacete, e o Manel, sempre distinto, sempre Senhor Manuel Duarte, do lado do Santo Velho. O meu lado. Nunca atravessei a estrada para o abraçar, como no meu íntimo desejava. E não me atrevia, por pudor e respeito. Também por medo. Receava que o Manel não me reconhecesse, que já não se lembrasse de mim, o que me seria um enorme desgosto...
Manuel Almeida Duarte nasceu em 1945 na freguesia de Vale de Azares, concelho de Celorico da Beira, e morreu em Fafe, no dia 22 de Setembro de 2022. É um fafense excelentíssimo. Um dos fafenses mais excelentíssimos que tive o privilégio de conhecer. Fafense por direito próprio, excelentíssimo com todo o mérito.

Cubillas e, talvez, cação de cebolada

Mas onde é que eu o deixei?...
Era um avançado muito distraído. No momento supremo do remate - dizem os especialistas -, andava sempre à procura do pé esquerdo.

Eu vi Cubillas. Teófilo Juan Cubillas Arizaga, o prodígio peruano, vi-o com os meus próprios olhos, vi-o da minha cor, uma só, azul e branco, vi-o pequeno, delicado, elegante, inesperado, repentista, amiúde sublime, fulminante, Lionel Messi antes de ser inventado, uma brisa ligeira e redolente deslizando quase invisível sobre o relvado. Cubillas era um sorriso em andamento. Sim, um sorriso - genuíno, dir-se-ia que infantil, maroto. Cubillas e a bola estavam-se prometidos desde o princípio dos tempos, sabiam-se de cor e salteado, eram um em dois perfeito, acto de amor consumado, puro gozo, prova viva da bondade dos deuses.
Eu vi Cubillas. Uma vez, porque os fenómenos são assim, não dão para mais. Vi-o aqui à porta de casa, em Guimarães, fomos de Fafe o tio Américo, o tio Zé e eu, de propósito para ver Cubillas, com merenda aprazada talvez no Batista da Cruz d'Argola, ou não sei se noutro estaminé qualquer ali da zona que tinha um cação de cebolada que era realmente uma especialidade, e fiquei com essa memória. Íamos com fé. Podia ser que também víssemos o "nosso" Quim na baliza do FC Porto, mas foi Tibi quem tomou conta, se bem me lembro desse mês de Março de 1974, ainda o cravo estava por estrear. O estádio rebentava pelas costuras, deu empate zero-zero e Cubillas falhou um penálti, mas isso o que é que importa?
Tem piada, foi com o Vitória que, entre 1975 e 1976, eu aprendi o futebol de primeira divisão. Os quase dois anos no Liceu de Guimarães deram-me para isso: a meio da semana, ia comprar o bilhete numa loja ali perto do Toural, creio que na Rua de Santo António, e no domingo, logo a seguir ao almoço, punha-me à boleia, em Fafe, encostado à Farmácia Sousa Alves, como nos dias em que ia vadiar para as aulas. O regresso a casa, depois do jogo, novamente de dedo polegar esticado, era quando Deus quisesse. Mas naquele dia estava muito bem acompanhado, com transporte garantido e horas tomadas.
É. Eu vi jogar Teófilo "Nene" Cubillas! Assim, com ponto de admiração e tudo. E explico a excitação. Sou esquisito. Em toda a minha vida, fui, por vontade própria e em meu perfeito juízo, a somente quatro concertos: Andràs Schiff (com as Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach), Paco de Lucía, Rolling Stones e Bob Dylan. Já tenho idade para fazer balanços, e faço-os, antes que tenha idade para não os fazer. Schiff, Lucía, Stones e Dylan foram-me acontecimentos únicos, marcantes, epifanias, catarses, itens que eu coloco na coluna mal preenchida dos meus "momentos verdadeiramente extraordinários". Schiff, Lucía, Stones, Dylan. E Cubillas. Para mim, Cubillas está-lhes ao nível. Cubillas e, sou franco, talvez também o cação de cebolada...