sábado, 28 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 74
- Bom dia!
- Faz favor de dizer...
- Bom dia!
- Diga, diga...
- Bom dia!
- Sim, sim, e o que vai ser?...
- Bom dia!
- E era só?...
- Para começar...
- Bom dia?
- Exactamente.
- Então bom dia...
- Muitíssimo obrigadíssimo.
- E que mais?...
- Meia de leite e um pãozinho com manteiga, se faz favor.
Filósofos à moda de Fafe
Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que uma vez, há mais de trinta anos, cumprimentei mestre Agostinho da Silva.
Vinho para Saddam Hussein
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Aos pares é mais barato
- Sou incapaz de matar uma mosca! - disse ele.- E duas? - perguntei eu.
E eu fui. Comprei o vinho e escrevi o texto. Não o cartão. Desunhar um texto pequeno que andava à volta disto: o Saddam gosta de Mateus Rosé. Era capaz de ter também alguma graça, já não me lembro, mas quando digo andar à volta é mesmo andar à volta, fazer chouriço, meter palha, usar e abusar da técnica de composição musical da variação (e fuga), porque a "notícia" não tinha mais nada para dizer, era oca por dentro. E foi manchete no dia seguinte.
(Permiti-me abrir aqui um parêntese pedagógico, para proteger os caros leitores da tentação de tirarem conclusões precipitadas e injustas acerca do meu jornal. Deixai-me esclarecer o seguinte: num certo sentido, o 24horas foi o precursor do jornalismo que hoje se faz em Portugal - um jornalismo de títulos, colorido e imaginativo, a que, para ser perfeito, só falta o pequeno pormenor da informação, isto é, as noticiazinhas propriamente ditas, a substância. Hoje os jornais portugueses são todos iguais ao 24horas. Uma diferença apenas os separa: o 24horas era, nos seus bons tempos, o melhor pior jornal do País, era um mau jornal muito bem feito. E ficava barato ao dono. Depois veio a rapaziada, tomou conta e escangalhou tudo.)
Meti a caixa de vinho num armário da redacção. Eu já tinha aprendido que as geniais ideias vindas de Lisboa padeciam de tesão breve e alzheimer. Eu também era da chefia, mas no Porto, sabia muito bem como é que a coisa funcionava. Regra geral, no dia seguinte os nossos criativos e bem-intencionados chefes já não se lembravam das figuras tristes que nos tinham mandado fazer no dia anterior. E mandavam-nos fazer outras. Assim foi. Nunca mais se falou no assunto.
Em Dezembro de 2003 apanharam Saddam e eu pensei: "Agora é que era de lhe mandar o Rosé, para lhe animar o Natal na prisão". Pensei, e deixei-me estar. O ex-presidente iraquiano foi executado três anos depois, como se viu abjectamente no YouTube, e as garrafas lá continuaram no armário, até ao dia em que Lisboa veio ao Porto anunciar que o Porto ia fechar para salvar o jornal. Isto é, para salvar Lisboa. Começava o ano de 2009 e desfizeram-se de nós. Eu trouxe para casa duas garrafas do Mateus Rosé de Saddam Hussein.
(Se fosse hoje, os gostos líquidos de Saddam andariam talvez mais pelo vinho azul da Casal Mendes, mas também não se poderia esperar melhor critério de quem certamente nunca pôs os pés no Nacor e às tantas nem estaria informado a respeito da rota dos tascos de Fafe.)
Enofilias e folclore à parte, o 24horas acabou por não se safar, mas "Lisboa" sim, e é o que eu lhes estimo. Os alegados responsáveis do ex-jornal estão agora a enganar noutro lugar. As duas garrafas de Mateus Rosé ainda cá estão em casa, a fazerem de pai e mãe a uma outra, de aguardente do Salazar, parece que engarrafada pelo próprio, como me garantiu, no acto da oferta em Santa Comba Dão, o sobrinho-neto do nosso estimado ditador. Estão bem umas para as outras, as garrafas. E os outros também.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 73
- Então, vizinho, o que me diz?
- Digo, sobre quê?
- Sobre tudo...
- Sobretudo? Ah! Acho que nomeadamente.
O melhor actor do mundo
Da velha escolaSou realmente um tipo muito antigo. Eu sou do tempo, vede lá, em que os actores tinham cê!
O Fredinho Bastos e o Tangerina
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| Desenho Nestinho |
O novo administrador
Ele tomou posse e imediatamente operou uma revolução completa na frota da empresa. Os veículos passaram a chamar-se viaturas.
Eram outros tempos. Fazíamos o caminho de regresso até ao carro pela estrada do troço de competição, encostando à berma quando se aproximava o roncar de mais um motor, mas (o Fredinho tinha razão) aquilo era só bazófia, muito roncar para tão pouco poder. Dava tempo para tudo. Até para cumprimentar pilotos e penduras da segunda metade da tabela, que estavam no largo do famoso Santuário de Nossa Senhora das Neves ainda à espera da ordem de saída. O Fredinho conhecia aquela malta toda. Ele, Alfredo Bastos, também tinha sido corredor de ralis.
Aqui que ninguém nos ouve. Fafe era uma terra de partidos, de facções, de rivalidades tolas, de antagonismos pascácios. Era uma mania, como uma doença, uns por uns e outros por outros, senão, nos tascos e nos cafés, ia-se discutir o quê? Havia que ateimar por alguma coisa. Tínhamos os dois grupos de futebol - o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe -, que já não são do meu tempo, por muito pouco, tínhamos e temos as duas bandas de música - Revelhe e Golães - e respectivos bandos de apaixonantes, tínhamos a Escola Industrial contra o Colégio, tínhamos o PS de Fafe pim e o PS de Fafe pam e o PS de Fafe pum e o PS de Fafe pim-pam-pum, tínhamos a Rua de Baixo e a Ponte de Ranha, que de vez em quando também faziam faísca e, noblesse oblige, andavam à coiada, tínhamos os dois cangalheiros, Albano da Costa e Damião Monteiro, até tínhamos o Foto Victor e o Foto Jóia e as suas clientelas rivais, portanto a coisa mais natural do mundo era que a população fafense também se dividisse em claques entre os dois fângios locais, o Fredinho e o Tangerina, como quem diz, o Motinha, embora só o Fredinho tenha feito carreira oficial, primeiro com o NSU creio que TTS e depois com o famoso Vauxhall Viva GT, marcando habitualmente presença em ralis, rampas e não me lembro se também na velocidade de Vila do Conde. Para além disso, o Fredinho dava também uma mão como motorista dos Bombeiros, e aí, meus amigos, de sirene ligada, então é que era sempre a abrir. Desse tempo e dessas lides, do que eu mais gostava era do rali chamado Rali à Lampreia, pronto, já disse, achava e acho um piadão ao nome, e ele ainda anda por aí.
Nós íamos no Vauxhall verde e cinza que o Fredinho levara à Rampa da Penha, e eu fui lá a pé para ver, uns anos antes, com o Bergiga e de merendeiro, no reinado do estupendo Chevrolet Camaro de Ernesto Neves. O icónico Vauxhall, preparado pelo próprio Fredinho e pelo avinhadíssimo Valdemar Mecânico, ou "Paredes", ainda mantinha as barras de protecção e os assentos e volante de competição. Era de uma incomodidade dolorosa, porque andávamos sempre nas horas, e de lado, mas extremamente seguro. Diziam ao Fredinho que ele conduzia muito bem. Ele respondia: "Toda a gente conduz bem até bater. Eu também."
Naquele tempo, o Rali em Fafe era a Lagoa e era um mundo. Anos mais tarde foram inventadas as outras classificativas, as que agora chamam milhares de peregrinos dos quatro cantos do planeta e sobretudo de Espanha e dão nas televisões internacionais com saltos e tudo. O Fredinho, convém não esquecer, também teve a ver com isso.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 72
- Terrível ou terrífico?
- Uma maçada.
- Maçada ou massada?
- Servem meias doses?
- Tremendo ou fantástico?
- Prestável ou solícito?
- Chegamisso.
- Mentira ou inverdade?
- Aldrabice.
- Morreu ou faleceu?
- Bateu a bota.
- Em baixa ou em queda?
- No vermelho.
- A subir ou em alta?
- No verde.
Diz que binho, mas num biero
Não há copo como o primeiro
Cada vez que ficava bêbado, ele sabia: nunca devia ter bebido aquele primeiro copo. Os doze seguintes caíram-lhe bem e eventualmente até beberia mais seis ou sete sem problema. Mas aquele primeiro...
Que bonito que era o falar em Fafe! A criança, sentadinha à mesa, ou à roda da merenda, já julgava que era home e pedia: - Binho! O adulto, responsável, geralmente a mãe, respondia-lhe por desfastio, sem fazer caso: - Diz que binho, mas num biero. Isto é, "constou/disseram/dizem/diz-se que vinham, mas não vieram", e assunto resolvido. Mas dito assim, gramatical, higiénico, a seco, tão aos dias de hoje, lá se foi a graça toda. É preciso molhar a palavra...
A morte da bezerra
De vaquinha
De vaquinha para o emprego? No campo, isto é, na lavoura, estou como o outro, faz algum sentido, é a ordem natural das coisas. Agora, na cidade não me parece nada prático. Nem higiénico, verdade seja dita.
Era uma tragédia porque a vaca, o boi ou o bezerro eram a riqueza única do pobre lavrador de microfúndio, e Portugal era sobretudo isso. As vacas, permito-me generalizar assim, davam leite, faziam estrume, lavravam e aravam o campo, puxavam a água, transportavam as colheitas, ajudavam nas obras domésticas, acartavam pedra, erguiam muros, tinham a força de trabalho de um rancho de homens e mulheres, procriavam e, como se ainda fosse pouco, emprestavam o seu próprio calor ao jugo que as dominava, para, a seguir, talhar trasorelhos, eventualmente acabando vendidas na feira ou feitas em bifes, em todo o caso transformadas em indispensáveis notas de conto, e aí tudo começava outra vez.
Era desta maneira em Fafe, terra de pequenos e remediados agricultores, nas aldeias à volta, principalmente, mas também no centro da vila mesmo, ainda rural e fértil. A única diferença era que em Fafe a vaca era baca e o boi, em raros momentos de preciosismo linguístico, era voi. Tirante essa irrefutável idiossincrasia, Fafe era como o resto do Norte rural: em cada casa, uma, duas vacas, quer-se dizer, uma junta, quando muito, para fazer parelha no carro, turinas às vezes, leiteiras em alguns casos. As vacas eram a fartura, o dinheiro em caixa ou debaixo do colchão, a garantia de vida dos nossos persistentes lavradores. As vacas eram-lhes tudo.
Agora imagine-se que lhes morria um animal, tantas vezes o único, num desastre daqueles ou por doença fulminante e desconhecida. O gado não estava no seguro, é claro, o dinheiro da CEE ainda não tinha sido inventado e era o que faltava que alguém se lembrasse de pedir uma indemnização ao Governo. Dá para imaginar, então, o rombo? Era um prejuízo que só visto, a ruína de repente, a miséria, a fome à espreita, a vida parada, como se fosse ali o fim do mundo.
Mas não era. Podia muito bem não ser. A salvação do nosso desgraçado lavrador estava agora no peditório. Isso, no peditório, que era uma instituição. O peditório que ele fazia de aldeia em aldeia, nas ruas da vila antiga, de porta em porta, apresentando o seu triste caso, a sua tragédia, suscitando simpatias, solicitando ajuda, o que pudesse ser. Não era estender a mão à caridade, não, aquilo era um mecanismo de solidariedade, automaticamente accionado. Fazia parte, em Fafe.
Notáveis lá da terra, cidadãos de honra reconhecida, dois ou três, incluindo geralmente o presidente da junta ou o regedor da freguesia, acompanhavam o lavrador nesta sua via-sacra, atestando com documentos e tudo a veracidade do infausto acontecimento e as dramáticas condições em que ficaram o azarado homem e respectiva família.
E as pessoas davam. O que podiam. E é curioso, porque as pessoas de dentro de casa eram, regra geral, ainda mais pobres do que o homem desesperado que lhes batia à porta a pedir. Davam, e não se fala mais nisso. Os modestos donativos ficavam assentes numa folha azul de 25 linhas, registados, consultáveis, até chegarem, conta certa, para comprar uma nova cabeça de gado, nem mais um tostão, mas nunca mais ninguém queria saber do assunto.
Terão acontecido umas quantas burlas, trampolinices das antigas, isso certamente, vacas que afinal eram virtuosas senhoras, lavradores que nunca puseram os pés na terra e presidentes da junta da colaça. Mas também terão sido assim criadas verdadeiras segundas oportunidades de vida para pessoas honestas, trabalhadoras, merecedoras, de repente atingidas pela tragédia a sério, e que sem a ajuda dos outros, sobretudo dos seus generosos camaradas de pobreza, nunca mais se levantariam. E Fafe era também isto.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 71
- Por forma ou de modo?
- De maneira que...
- Em termos ou ao nível?
- Relativamente...
- Teimoso ou obstinado?
- Burro como um sino...
- Todavia ou não obstante?
- Contudo.
- Exuberante ou extravagante?
- Tem a mania.
- Efectivamente ou evidentemente?
- Com efeito.
- Viver ou vivenciar?
- Vivervenciar.
- Principal ou primacial?
- Básico.
- Fundamental ou crucial?
- Indispensável.
O Grosso da Coluna e o Maciço Central
O complexo
Era evidentemente um complexo, com todos os seus sintomas. Estádio, pavilhão, piscina e quatro campos de ténis. Complexo desportivo, como lhe chamam em Psiquiatria.
Não era evidentemente o caso de Herculano Oliveira, ciclista do tempo antigo, um poderosíssimo lingrinhas a quem chamavam "Andorinha das Penhas", uma levandisca com pedais, peso-pluma voador, digo eu, capaz até de bater Joaquim Agostinho na subida à serra da Estrela, quer-se dizer, às Penhas da Saúde, e é daí que lhe vem o cognome, o qual, dito assim a quem é, tem tanto de ornitológico como de justo.
Naquele tempo, os ciclistas eram-nos contados pela rádio, com muito emoção e, às vezes, algum atraso. Ouvia-se o relato da Volta, em magotes à roda do transístor em alta-voz, enquanto víamos os treinos ou os jogos de futebol do Fafe. Ouvidos, os ciclistas eram o fim do mundo em cuecas, eram trinta por uma linha, eram tudo e mais alguma coisa e também "ases do pedal", "bravos do pelotão" ou "gigantes da estrada", nome que lhes assentava tão bem e que agora parece que está reservado aos SUV e aos camiões TIR, para além da Brisa e outras mais modestas correntes de ar mensais.
Como se O'Neill fosse de Fafe
Os livros, nossos amigos
Gosto de afagar os livros que leio. Aliso-os. Cheiro-os. Protejo-os. Guardo-os com mil cuidados. E deixei de emprestá-los!
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Chama o Gregório!
O da porta
Ele sabia que o último copo é que lhe fazia mal. Por isso pedia sempre mais um.
Simplesmente Simplício
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| Foto Tarrenego! |
Alentejo profundo
O Ti Odoro, o Ti Noco, o Ti Móteo, a Ti Betana, o Ti Morato, o Ti Ófilo, o Ti Jolo, a Ti Ara, o Ti Pógrafo, o Ti Mor, o Ti Juca, a Ti Midez, o Ti Quetaque, o Ti Quetoque, o Ti Búrcio, a Ti Biotársica. Enfim, era a típica aldeia alentejana.
Eu, sinceramente, prefiro que me chamem Simplício. Ou então, vá lá, Agá Ramos - já disse.
Basta fazer-me um sinal
Meio-dia e meio?
"Meio-dia e meio", ainda ouço dizer na rádio, e era escusado. Meio-dia e meio, que raio de hora é isso? Das duas, uma: ou são 24 horas (isto é: meio-dia mais outro meio-dia) ou são 18 horas (isto é: meio-dia mais meio meio-dia), mas não serão, nunca, 12h30. Falando de horas, ninguém diz onze e meio, nem duas e meio, ou diz? O que se diz é: onze e meia e duas e meia. Pois com o meio-dia é exactamente a mesma coisa: meio-dia e meia. Isto é, meio-dia (12 horas) mais meia hora. Isto é, 12h30. Estamos entendidos? Meio-dia e meia! E meia, porra!
Ouvi na Antena 1: "Rui Patrício levanta os dois braços, dando sinalética aos seus companheiros". Dando sinalética? A rádio é para imaginar, e portanto eu imaginei o então jovem guarda-redes do Sporting a desembrulhar-se com brilhantismo no uso da complexa mas bonita linguagem gestual, fazendo manguitos atrás de manguitos, piretes atrás de piretes, toques esdrúxulos nos cotovelos, no nariz e nas orelhas, no coração e mais abaixo, mãos atrás das costas, pedra-papel-tesoura, e muitas caras feias, até ser completamente compreendido pelos colegas.
E mais à frente ouvi: "O árbitro auxiliar a ter que dar sinalética". E veio-me à cabeça a imagem de um homenzinho em calções, munido não com uma mas com duas bandeirinhas, uma em cada mão, a fazer sinais ao navio-almirante, anunciando a iminente invasão das Berlengas.
Ora bem. Se formos a um dicionário, qualquer um, por mais modesto ou vanguardista que seja, em papel ou digital, veremos evidentemente que um sinal continua a ser um sinal: uma indicação, um aviso, um meio de transmitir, à distância mas à vista, ordens, avisos ou pedidos. E que a sinalética, quando muito e neste contexto, é um conjunto de sinais, o uso de sinais. Não percebo, por isso, a alteração, a substituição, a complicação.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 70
- Alô? Fala o Costa, da Silva & Silva.
- Viva! É Silva, da Costa & Costa.
- Era mesmo consigo. É pá, precisamos que nos enviem o vosso logo imediatamente.
- Enviarmos o quê?
- O vosso logo.
- Logo?
- Imediatamente.
- Logo ou imediatamente?
- Agora. Já temos a máquina a andar.
- Mandarei então imediatamente.
- Logo!
Agá Ramos, ao dispor
| Foto Tarrenego! |
O mal dos nomes vulgares
"Opíparo!", gritou ela esfuziante no meio da esplanada. Píparo, que passava por acaso, voltou a cabeça desinteressado, confirmou que não era consigo, desvoltou e seguiu caminho insignificante.
Eu assino agá. Exactamente agá pequenino ponto, h., sei muito bem o meu lugar e o meu tamanho no mundo. É: agá, de hernâni, e pronto.
O meu sonho, um dos meus mais de mil inconsoláveis sonhos, era, porém, chamar-me e poder assinar Ramos. Isso. H. Ramos. Quero dizer, agá ramos.
Salazar via tudo
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| Foto Tarrenego! |
Canadairs e engolidores de fogoCom os Kamov parados, os Canadairs avariados, os Fire Boss atrasados e os "operacionais" no terreno esgotados, o Governo chamou ao teatro de operações todos os engolidores de fogo disponíveis e os ilusionistas do costume. Enfim, assunto resolvido. São os tempos modernos.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 69
- Você esteve lá?
- Tive.
- Teve o quê?
- Tive o quê?... Tive lá.
- Mas teve o quê?
- Mas tive o quê o quê?
- O que é que você teve lá?
- Tive lá e prontos...
A arte de cuspir no prato
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Saudações inimigas?
Escrevi aí a uma ungida criatura, assunto sério, melindroso, e, no final, mandei-lhe um "grande abraço". A criatura despachou-me às três pancadas e, no final, mandou-me, para a troca, "saudações amigas". Saudações amigas? Mas, Senhor Bispo, o que raio são saudações amigas? Evidentemente serão o contrário de saudações inimigas, mas o que são saudações inimigas? Abraço, eu sei: o abraço é sólido, palpável, vê-se, sente-se, dá-se, recebe-se, aperta-nos, aproxima-nos, humaniza-nos, igualiza-nos. Agora, saudações amigas? Isso traz água no bico...
Claro que a grosseria não era geral. Havia também pessoas que muito simplesmente se recusavam a falar-nos mas sem baixarem o nível. O bom do Raul Solnado (1929-2009), Luís Represas, o actor José Pedro Gomes, são dos que me lembro agora que escrevo. Nenhum dos três me conhecia, mas, depois de me ouvirem educadamente, foram igualmente atenciosos na nega. Disseram-me: "Desculpe, Hernâni, não é nada de pessoal consigo, portanto ligue-me quando estiver noutro jornal. Então conversaremos do que quiser". Agradeci sinceramente a franqueza e a urbanidade. E pedi desculpa eu. Eu sabia que eles tinham razões.
Era vida difícil. Num jornal que precisava da "opinião" dos "famosos" sobre tudo e sobre nada. A propósito da nudez de Marisa Cruz num filme ou por causa do Fidel Castro que passou a pasta ao irmão. A minha sorte é que acabava sempre por encontrar uma alma caridosa que me ajudava a ganhar o dia. Gente que sabia o que era o 24horas mas que, fosse por que razão fosse, nunca me deixou ficar pendurado: gente como Marcelo Rebelo de Sousa, o comentador, e o bom Júlio Magalhães, jornalista e cara da TV, sempre disponível, sempre decente e generoso, os empresários e portistas Pôncio Monteiro (1940-2010), Manuel Serrão e Rui Moreira, os estilistas Miguel Vieira, Katty Xiomara, Luísa Pinto e Gio Rodrigues, os juízes Rui Rangel e Eurico Reis, o fiscalista Saldanha Sanches (1944-2010), Valentim Loureiro (o meu cromo da sorte), Júlio Isidro e Joaquim Letria, que também eram da casa, Tozé Brito, Luís Filipe Barros, José Cid, o humorista Nilton, Octávio Machado, Francisco José Viegas, Manuel Luís Goucha, José Carlos Malato, Jorge Gabriel, Hélio Loureiro, Paulo Teixeira Pinto e mais uns poucos de que injustamente me estou a esquecer. Dou-lhes, a todos, um grande abraço. Eram sempre os mesmos e a minha tábua de salvação. O meu piquete de emergência.
Cada qual lá teria os seus motivos. Alguns, tenho a certeza, era mesmo uma questão de bondade. Fiquei agradecido a todos. De vez em quando pago-lhes aqui nos meus blogues com umas ripeiradas. É este maldito 24horismo que não há maneira de me passar...
Armados em Dona Constança
Desejar venturasAntigamente desejavam-se venturas. Pelo nascimento, pelo aniversário, no final do curso, no casamento, no divórcio, pela casa a estrear, no novo negócio ou emprego, em cada passagem de ano. "Desejar venturas" era uma expressão nobre e clássica na língua portuguesa que significava fazer votos de boa sorte, felicidade, prosperidade e sucesso para alguém. Era sinónimo de gentileza e bondade. Hoje em dia, desejar venturas é sinal de mau gosto, maldade, ameaça, ódio, um perigo, uma desgraça, é como se rogássemos pragas a alguém. Não se deve desejar venturas nem ao nosso pior inimigo. Olhai, não vamos mais longe: desejar venturas, actualmente, é o mesmo que desejar salazares.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 68
- Boa tarde. Faz gaiolas?
- Por medida.
- Faz-me uma?
Fez.
- E para pássaros?...
O heroísmo ia-me matando
A última a morrer
Era uma família convencional. Morreram, naturalmente por esta ordem, o Acúrsio, a Adelaide, o Tibério, a Catarina, a Rosa, o Celestino e finalmente a Esperança. É daí que vem.
Maior e vacinado
Sem açúcarDisseram-lhe que era Dia Mundial da Sépsis. Ele achou bem e mandou vir. Pensava que era uma bebida.
O Centro de Saúde era de certeza um sítio maravilhoso porque trabalhavam lá o Aníbal Carriço, que sobreviveu à guerra cheio de balázios e escrevia nos jornais, tinha tudo para ser meu herói, e a Getinha, que era minha vizinha no Santo e gostava muito de mim e eu gostava muito dela. Quando andou na Escola de Condução Fafense para tirar carta, e não sei se concluiu, eu acompanhava a vanguardeira Getinha nas aulas, sentado no banco de trás do então inevitável Carocha amarelo e preto, às voltas sem sentido pelo centro da vila só para a má-língua ver, a contorcer-me por todos os lados, enjoadíssimo, porque eu enjoava abundantemente a andar de carro, mas era por uma boa causa e com autorização da minha mãe, depois de fazer os deveres: uma menina de bem, uma donzela, nunca entraria sozinha na viatura de um cavalheiro, por mais cavalheiro que o cavalheiro fosse, e ainda que o cavalheiro fosse o instrutor e a viatura fosse de instrução, olha o respeito! Quer-se dizer, eu, inocente guardador de virgindades, era ali uma espécie de pau-de-cabeleira, mas de uma espécie muito rara certamente, uma espécie talvez descontextualizada, abstrusa, porque a vida depois dá muitas voltas e até é de rir, às vezes, e de chorar, outras, o que acontece às pessoas e com as pessoas, mas isso já não é para aqui chamado. A querida Getinha era uma mulher extraordinária - isso é que é certo.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Em nome do Pai, do Filho e de Mim
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| Foto Tarrenego! |
O auto-suficiente
Beijo-me e desejo-me - dizia.
Eu acho que sei como é que isto tudo começou. No tempo em que a missa era em latim e o povo, que já se via à rasca para perceber o português, aproveitava para ir rezando terços atrás de terços enquanto o padre, de costas voltadas para os fiéis e para o mundo, se ocupava naqueles Dominus vobiscum que eram lá um assunto entre ele e o pobre do sacristão, que ajudava o melhor que sabia sem saber muito bem a quê, entregava a galheta, tocava a sineta e segurava a patena.
Parece que ainda ouço. As igrejas ecoam, sabeis? O terço era sonoramente ciciado por mulheres enfiadas em bigodes e lenços pretos, bzzz, bzzz, bzzz, num cochicho ao despique remetido directamente a Deus Nosso Senhor, embora devesse levar Nossa Senhora no endereço - lá em cima que se entendessem. O comendador Santos da Cunha, que era governador civil de Braga e vinha a Fafe às inaugurações e aos casamentos e funerais dos ricos do regime, também fazia bzzz, bzzz, bzzz, mas com voz de trombone, de terço na mão ostensiva e papuda, durante a missa inteira, e já ela era praticamente toda em português, tirando o Agnus Dei. E se o senhor comendador fazia, e fazia que se soubesse, é porque era a Bem da Nação - naquele tempo não havia dúvidas a esse respeito.
Quer-se dizer. António Maria Santos da Cunha (1911-1972) foi presidente da Câmara de Braga durante doze anos, governador civil do distrito e deputado à Assembleia Nacional. Vinha realmente muito a Fafe e era amigo do Mendes Ribeiro da Fábrica do Ferro e de outros figurões locais da situação fascista. Santos da Cunha tem um monumento na Cidade dos Arcebispos e é o imponente cidadão mais à esquerda, salvo seja, lá em cima no retrato, acompanhando de olhos revirados uma das visitas do ministro Baltazar Rebelo de Sousa aos Bombeiros da nossa terra. O pai do Presidente Marcelo é o segundo a contar da direita, o de óculos. Atrás, há por ali algumas caras da minha meninice que me trazem imensas saudades.
E já agora: a reforma da missa católica aprovada no âmbito do Concílio Vaticano II (1962-1965) foi publicada no dia 5 de Novembro de 1970 e virou o padre para o povo. Hoje em dia não se nota muito, mas foi assim que as coisas se passaram.
Quando eu morrer
Escândalo
Estava muito zangada e enchei-o de nomes, isso é verdade. Chamou-lhe António, José, Fernando, Roberto, Atílio, Alfredo, Tavares, Antunes, Celestino e assim sucessivamente. Toda a gente ouviu.
Quando eu morrer, se for notícia, preocupa-me o que é que o Correio da Manhã me vai chamar. Quer-se dizer. Monstro de Santa Comba, Grávida da Murtosa, Bombeiro de Braga ou Bombeiro Dudu, Rei dos Catalisadores, Predador das Caldas, Violador de Telheiras, Triplo Homicida de Aguiar da Beira, Triplo Homicida de Lisboa, Dentista da TV, Padre de Ferro, Padre DJ da Póvoa de Varzim, Padre Sexy, Padre Motard, Superjuiz, Superpolícia, Estripador de Lisboa, Surfista Português, Mata Sete, Mãe Coragem, Pai Herói, Praxista Boémio, Capitão Roby do Minho, Patrão dos Livros, Alegado Espião da Rússia, Pequena Maddie, são tudo nomes porreiros, bem sacados, ninguém diz o contrário. Mas infelizmente já estão tomados.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 66
- Um torcicolo...
- No pescoço?...
O topo da hora
O tempo para hoje
Os especialistas do tempo prevêem para hoje um dia com 24 horas.
Hoje em dia, não sei se por causa dos meus recados, já ouço mais dizer "notícias à hora certa", isso, "à hora certa", o que me parece correcto, embora também nos pudesse levar muito longe, não sei se estais a ver. Mas que não restem dúvidas quanto ao topo: topo, neste contexto, quer dizer a parte mais elevada, o cume, ou a crucha, como se dizia em Fafe. E o cume de uma hora é o último segundo antes de ela entrar na hora seguinte. É certo que topo também pode significar extremidade, mas, se forem por aí, recomenda-se aos senhores locutores, jornalistas e radialistas em geral que apontem sempre as notícias para o topo de baixo.
Histórias de Luís Filipe Barros
Rádio ligado
Ligou o rádio e pô-lo ao peito. Ordens do médico.
Anos oitenta do século passado, em Portugal. Luís Filipe Barros era uma das vozes da moda e gozava do estatuto de verdadeira vedeta. "Ia aos restaurantes, almoçava ou jantava, mas não pagava. Nos bares, bebia sempre à borla. Ia às discotecas, aos fins-de-semana, e ainda ganhava dinheiro. Eram realmente bons tempos", dizia-me o famoso radialista já lá irão quinze anos, numa espécie de entrevista de carreira que então me concedeu, facilmente e sem peneiras.
Nas deslocações ao Norte, um dos seus companheiros de viagem costumava ser Herman José, que também fazia o circuito das discotecas. "Íamos para o Porto na sexta-feira e regressávamos a Lisboa no domingo à noite, a contar notas, cada um para o seu lado, no comboio". Da primeira vez havia em Campanhã uma pequena multidão de fãs à espera, agitando cartazes. Luís julgava que era para o Herman, mas não, era mesmo para ele.
O importante papel que Luís Filipe Barros desempenhava como divulgador musical na rádio portuguesa introduzia-o na intimidade das estrelas de rock que visitavam Portugal ou Espanha. Uma vez, em Madrid, foi convidado para jantar com os Pink Floyd, após concerto. Contou-me: "Eu estava cheio de fome, queria comer o meu bife, mas os gajos andavam numa de emagrecer e tinham marcado num restaurante japonês. Foi uma desgraça: peixe cru e salada de violetas, naquela altura eu sabia lá o que isso era. Mas dava para perceber que os tipos já não podiam ver o Roger Waters. Tinha a mania que mandava em tudo, lá por o Sid Barrett ser maluco..."
Aos Supertrump, que andavam também nos cornos da lua com o "Breakfast in America", Luís Filipe Barros ia dando cabo dos dois concertos agendados para Cascais. Alguém teve a infeliz ideia de organizar um jogo de futebol entre os músicos e a equipa da chamada comunicação social. Luís, do lado dos jornalistas, levou a coisa a sério (à séria, se lido em Lisboa) e ia partindo uma perna ao vocalista da banda britânica. Confessou: "Dei uma trancada tamanha no Roger Hodgson, que quase não havia concerto para ninguém. Fui expulso e tudo".
Outro que levou que contar foi Joe Strummer, a voz dos Clash, num espectáculo em que o nosso Luisinho "quase andava à pêra com um gajo da segurança que estava com eles e tinha uma boina do IRA". Com o grupo em palco a tocar na maior desorganização, dado o adiantado estado de embriaguez e não só em que todos se encontravam, Strummer pediu a Luís Filipe Barros que o ajudasse, que lhe desse uma mão para subir ao estrado. E o radialista deu o seu melhor: "Empurrei-o para o palco, mas quando chegou lá acima, embalado, faltaram-lhe as pernas e ele espalhou-se ao comprido à frente de dez mil pessoas. Foi um trambolhão monumental".
Em abono da verdade, deve dizer-se que Luís Filipe Barros tinha por hábito desencaminhar o pessoal para os copos, no "Snob ou no Bairro Alto", depois dos concertos. Uma noite levou o Stewart Copland a esse baluarte do bas-fond lisboeta que era o bar Jamaica, e o baterista dos Police gostou tanto que, bem bebido, "já estava a querer comprar aquilo".
Outra vez o mítico fundador do aclamado programa Rock em Stock pegou nos aprumadinhos Spandau Ballet e ala até à Costa da Caparica, para almoço. Comeram sardinhas assadas e "adoraram", porém perderam-se pela aguardente. Emborcaram uma garrafa inteira, e desde esse dia - recordou o Luís -, "quando davam uma entrevista à MTV, diziam sempre que Portugal tinha a melhor bebida do mundo: o bagaço".
E enfim um extra. Luís Filipe Barros no camarim dos Bon Jovi. "Nunca tinha visto nem nunca mais voltei a ver uma cena assim: o baterista "Tico" Torres, em cuecas e de barrete na cabeça, passando as calças a ferro..."
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 5
- Saíste-me cá um mentiroso!...
- Minto com quantos dentes tenho.
- E são assim tantos?...
A minha alegre Carrinha
| Foto Tarrenego! |
Parque natural
Era um parque natural. Um excelente parque natural, diga-se em abono da verdade. Descampado, chão de terra, pedra e erva, e nem precisou de obras. Cabiam ali, bem à vontade, para cima de cem carros. Era um parque natural.
Nenhum deles, porém, interessa para o meu assunto. Eu quero é falar do carro que domina a cena. Uma velha Austin, refugo inglês da Segunda Guerra Mundial, tal qual os pesados capacetes pretos para incêndios, os cintos com machadinha, mosquetão, sarilho e tudo, um pesadelo, e os blusões e capotes de serviço, iguais aos dos soldados ingleses e americanos nos filmes. Foi material que deu jeito, que cumpriu por muitos e bons anos. Menos, se não me engano, as sinistras máscaras antigás, cirurgicamente adaptadas, isto é, pintadas de vermelho, e que só serviam para as minhas brincadeiras de miúdo e ficavam muito bem a ganhar pó em cima dos armários.
O carro tinha nome, chamava-se Carrinha e, de acordo com o "MG" da matrícula, ainda deverá ter passado pelas mãos do Exército português antes de chegar a Fafe, orgulhosamente de volante à direita e "piscas" de puxar por um cordel, como o coiso do fradinho das Caldas. Tinha também manias e birras, provavelmente derivado à idade, e constava que só o Casimiro das Caixas lhe conhecia as neuras e sabia fazer-lhe as vontades todas. O Casimirinho era, para além de intrépido praticante de palavras cruzadas, o nosso especialista em Carrinha.
A Carrinha apareceu na minha vida já completamente coberta por uma chapa ondulada em forma de U invertido e com uma grossa lona e correias de cabedal para fechar atrás. E foi o meu primeiro e único carro. Quer-se dizer: o carro não era meu, nunca foi meu, nunca o levei para casa nem dormi com ele, mas a verdade é que nunca conduzi mais nenhum. E conduzir talvez também não seja o verbo adequado ao caso, portanto passo a explicar:
Mal dei fé que chegava aos pedais, o que eu fazia era ligar o motor e solavancar as mudanças até que uma delas, uma qualquer, pusesse o carro a andar. Às vezes calhava para a frente, outras vezes calhava para trás. Viajava imensos dois, três metros, e invertia a operação, sem curvas, novamente com a alavanca à sorte, voltava ao exacto centímetro de partida e depois desaparecia dali a todo o gás, antes que alguém me descobrisse o sítio das orelhas e me enfiasse dois ou três bofardos à traição. Esta parte era muito importante.
Uma vez o quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro entrou em obras, crescendo para a frente, e os carros dos Bombeiros mudaram-se provisoriamente para uma garagem muito grande do "benfeitor" José Freitas Nogueira, bastava dobrar a esquina, no encontro da Rua Monsenhor Vieira de Castro com a Rua Dr. José Summavielle Soares, quase em frente ao campo de futebol. Seria mais ou menos por onde depois se estabeleceu a oficina do Evaristo e onde agora se resfatela a grande superfície do Aldi, paz à alma do comércio tradicional. Era um enorme portão verde e tinha lá dentro, assim que se entrava, uma rampa muito jeitosa para as minhas habilidades. Sobretudo ao baixo. Melhor ainda: ali o meu avô não ouvia as coças que eu dava na desgraçada caixa de velocidades da pobre Carrinha, gemente e ganinte por todos os lados. Bons tempos...
Resumindo e concluindo: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já percebestes o meu ponto de vista. Portanto, resumindo e concluindo este resumindo e concluindo: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Tive a Carrinha.
Dá Deus dentes... e é uma chatice
Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista por acaso porreirinho e visitava-o de quatro em quatro meses. A pagar. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto, que nos interessava a ambos. Acto médico é que nada, mas no intervalo medíamos a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista, os toques rectais não me seduzem, e fiquei-me somente com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados, como por exemplo agora mesmo que ando arreliado das gengivas e vou ao castigo de dois em dois meses, lá se me vai o pé-de-meia. É a crise, é a vida. Um destes dias morro de repente, do coração, mas com uma boca que é uma categoria, e ainda vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.
(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)
O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 65
Perguntaram-lhe:
- Mas você não está no Facebook?!...
E ele respondeu:
- Eu não. Sou casado e razoavelmente monogâmico.
Entre o coçamos e o coça-mos
Batoques
Encomendou batoques, mandaram-lhe botox. Ficou com cara de parvo.
As duas flexões coexistem, mas, apesar de próximas na grafia, não se equivalem. Por outro lado, distinguem-se claramente pela pronúncia, até porque, regra geral, nestes casos a sílaba tónica é diferente.
O problema é que as pessoas não sabem escrever sobretudo porque não sabem ler. Se soubessem ler, então também saberiam que, por exemplo, dizer ou escrever agarramos, chupamos, lambemos, mordemos, arregaçamos, aquecemos ou coçamos, vá lá, é uma coisa. Outra coisa bem diferente será dizer ou escrever, como tanto se usava em Fafe, agarra-mos, chupa-mos, lambe-mos, morde-mos, arregaça-mos, aquece-mos ou coça-mos, vá lá...
As cuecas da noiva
Viva a liberdade! Abaixo as cuecas!
Christina Aguilera informou que não usa cuecas. A cantora norte-americana fez saber que gosta de se sentir livre, e as cuecas não deixam. E eu ponho-me a cismar: às tantas, quando os nossos governantes nos mandam baixar as calças, só estão a pensar no nosso bem...
Entrava o mês de Março e o carnaval já tinha sido. Um bando de moças desce as escadas que levam até aos bares do Molhe, na Foz, Porto fino. São seis ou sete, modernas, todas meninas do sexo feminino, bem vestidas, galhofeiras. Topam o velho, quer-se dizer, a minha pessoa, e resolvem gozar o prato. Uma das raparigas, guapa sim senhora, despe a gabardina e exibe-se com um vestido de "espanhola". Vermelho e preto, por supuesto, e com um letreiro ao peito que sai ao pai. Penso: coitadinhas, chegaram atrasadas ao carnaval; ou então são palerminhas das praxes; ou então são palerminhas das praxes que chegaram atrasadinhas ao carnaval.
Comovem-me a simpatia e a originalidade da ideia. Esta espécie de performance, teatro de rua, flash mob talvez, em vez do tradicional striptease masculino em recinto fechado. Que coisa bem sacada! A "espanhola" apercebe-se de que eu estou na onda, aproxima-se de mim, toda gaiteira, com umas cuequinhas verdes na mão direita e umas cuequinhas cor-de-rosa na mão esquerda. Que giro! Fala em castelhano, e eu preferia que fosse em galego, nosso, mas que se há-de fazer?...
- Amanhã? Nem umas nem outras, minha senhora. Sem cuecas é que vai bem - respondo eu, sumariamente ponderado o assunto em questão.
As "amigas" riem e tiram fotografias. Eu fico nos retratos, não sei se filme.
Vermelha-e-preta e radiante, la novia insiste:
- Ningunas?
- É como lhe digo, minha senhora. Se o caso é casamento, primeiro noite e tudo, sem cuecas é que usted vai bem.
A moçoila parece-me ter ficado algo desconsolada com a minha resposta. Condoo-me. Eu, que, como sempre, só quero ajudar, dou-lhe então uma segunda oportunidade:
E desejei-lhe muitas felicidades e vivam as noivas.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Diálogos fafenses 64
Diz o chinês: - Além disso, temos o Evereste, que é o maior monte do mundo!
E diz o português: - E nós temos o Evaristo, que, não desfazendo, também é uma jóia de pessoa...
Eram outros carnavais
Enviou mensagem à lista completa de contactos. "Um santo Carnaval, para si e toda a família, associados e simpatizantes", fez votos. E agradeceu a Deus por Deus o ter feito tão boa pessoa.
Pelo Entrudo, em Fafe, queimava-se o Pai das Orelheiras, velha tradição popular, de afirmação de rua. No nosso Santo Velho nós fazíamos a fogueira e queimávamos o figurão. Era o ponto alto do dia, que por acaso era à noite. As nossas mães diziam-nos para não brincarmos com o fogo, porque senão, quando fôssemos dormir, iríamos mijar na cama. Nós brincávamos na mesma, e ao entrarmos em casa, para dormir, levávamos logo o ensaio do costume, mesmo antes de se saber se mijávamos ou não, e eu achava isso muito injusto e provavelmente ilegal.
Não me vou armar em Freud, mas naquele dia elas vestiam-se deles e eles vestiam-se delas. Era uma ocasião muito esperada. Uma oportunidade. Adultos, casados e afins, saíam para a rua aos pares com as roupas ao contrário e as caras tapadas com caretas de papelão compradas no Rates, que tinha tudo mesmo antes de terem sido inventadas as lojas que têm tudo, farmácias à parte e, hoje em dia, os talhos. Assim disfarçados e de boca calada, os pares de foliões metiam-se com os vizinhos, e o grande divertimento era tentar descobrir quem seriam os tratantes, desconfiando-se sempre deste ou daquela, tu a mim nunca me enganaste...
A coisa às vezes acabava à pancada, mas quê, era Carnaval e ninguém levava a mal. Que quereis que mais vos diga? Éramos pobretes mas alegretes, inocentes, pouco nos bastava para nos sentirmos felizes. Estávamos em Fafe e, que mais faltasse, faltando quase tudo, tínhamos os peidos que nos libertavam. Os peidos-engarrafados, isto é.
Aí para as curvas
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| Foto Tarrenego! |
O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Metia-se a cotio
As grandes decisões tomam-se em cuecas
No dia em que decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia, azar do caraças. Ficou como um pito! Mudou de roupa e resolveu dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.
Grande momento de televisão
Pedimos desculpa por esta interrupçãoÀs vezes pergunto-me como seria o mundo sem televisão. E acho que provavelmente seria um bocadinho melhor.





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